Sunday, September 25, 2016

DESTINO E FATALIDADE


Em certa ocasião, assisti a um filme “trash”, ou seja, um filme mal feito e de pouca expressão, do gênero terror, mas, de tão ruim, não me lembro de nem do nome e nem o enredo. Entretanto, em certo momento, Boris Karloff, ator britânico famoso por suas atuações em filmes desse gênero, aparece e conta uma história que, de tão interessante, ficou na minha memória até os dias presentes e fez com que meu tempo não tivesse sido de todo perdido diante da TV naquele dia.

A história era sobre a fatalidade do destino e era mais ou menos assim...

Vivia no Irã, na cidade de Isfahan, um rico mercador que tinha muitos criados. Entre eles, havia um em especial, que lhe era mais próximo. Certo dia, ao voltar do mercado, esse criado chegou ao mercador, muito pálido e assustado. Prostrando-se diante do mercador, perguntou:

- meu senhor, tenho sido seu servo fiel. Em toda a minha vida, alguma vez traí à sua confiança? Em algum momento deixei de atendê-lo ou faltei em algum serviço a mim direcionado?

- claro que não, respondeu o mercador, você é meu melhor criado, o que mais confiei em todos esses anos.

- poderia eu, humildemente, pedir-lhe um favor, o que nunca lhe fiz antes? Seria eu merecedor de sua benevolência em um momento emergencial em minha vida?

O mercador olhou-o pensativo, respondendo em seguida:

- pela sua fidelidade e retidão, tenho contigo uma dívida: peça o que quer e, estando ao meu alcance, terei o prazer em lhe atender.

O criado, aliviado, fez seu pedido:

- senhor, preciso de um cavalo e mantimentos. Devo partir imediatamente, pois, pretendo estar ainda esta noite, na cidade de Samara.

O mercador assentiu, concedendo o melhor cavalo e mantimentos variados e em abundância para sua viagem.

Ao se despedir, entretanto, perguntou ao criado:

- posso saber o motivo de sua viagem tão repentina?

- claro senhor, respondeu o criado. Ocorre que esta manhã, quando fui ao mercado, encontrei o anjo da morte e ele me olhou de forma ameaçadora. Preciso sair daqui rapidamente, pois, corro risco de morrer.

Despediram-se e o criado se foi, galopando rumo à cidade vizinha de Samara.



O mercador, entretanto, curioso com a história do criado, foi ao mercado para procurar o tal anjo da morte. Chegando lá, após procurar em algumas tendas, encontrou um homem de faces assustadoras, com vestes negras. 
Chegou-se a ele e perguntou: quem é você?

- sou o anjo da morte, respondeu o homem sinistro.

O mercador, então, prosseguiu:

- como ousa ameaçar meu melhor criado que veio ao mercado obedecendo minhas ordens?

- ameaçar? respondeu o anjo, de forma alguma !  eu apenas fiquei espantado em vê-lo aqui, pois, tenho um encontro com ele nesta noite, na cidade de Samara !
....


Encontrei uma história semelhante no seguinte endereço:
http://www.psicologiamsn.com/2011/02/conto-morte-e-o-destino.html, mesmo endereço em que encontrei a imagem adicionada a este post.


Thursday, September 15, 2016

HISTÓRIAS URBANAS - episódio 4

Existem histórias que não podem cair no esquecimento, pela força que impacto que causam em nossas vidas.

Em algum momento nos anos 90, surgiu na cidade de Campinas, São Paulo, um novo tipo de empreendimento: uma locadora de livros. Sandra Almeida decidiu aproveitar um processo de demissão voluntária na IBM e tornar-se empresária, optando pelo negócio inovador. De tão inovador, foi objeto de reportagem na TV Campinas e, morando eu naquela cidade àquela época, tomei conhecimento, tornando-me sócio.

Além de sócio, tornei-me amigo de Sandra, uma pessoa muito sensível e carismática, que tornou a Locadora “Mania de Ler” um lugar de leitura, encontros e bate-papo.

Por causa do sucesso do livro “A insustentável leveza do ser”, passei a ler Milan Kundera, seu autor. Me impressiona a sua capacidade de construir personagens interessantes, aprofundando em suas personalidades e ideologias, tornando a trama não tão importante como o desempenho de seus atores.
A última vez que conversei com Sandra, pedi a ela um livro do autor, quando ela me disse que eu era o único leitor de Kundera na sua locadora, sendo que comprava seus livros apenas para que eu pudesse lê-los. Na ocasião dois fatos me chamaram à atenção: saber que era o único leitor de um autor tão interessante e saber que ela se dispôs a comprar seus livros apenas por amizade à minha pessoa, o que demonstra o carinho que tinha por mim.

Mudei-me para Joinville em 2010 e, desde então, nunca mais falei com a Sandra, assim como não mais li os livros de Kundera.

Passei a frequentar a biblioteca pública de Joinville e, no início deste ano de 2016, em um dia em que cheguei à biblioteca, instantes antes que se fechasse, precisando pedir um livro rapidamente, repentinamente surgiu à minha mente o nome de Milan Kundera. Pedi à bibliotecária e ela me mostrou os títulos disponíveis. Não houve tempo de pensar muito e tudo ocorreu meio que por impulso.

Ao chegar em casa, abri meus e-mails e, um deles era da filha de Sandra, comunicando seu falecimento.

Não bastasse a grande coincidência, se é que essas existem, de ter me lembrando do autor exatamente no momento da morte de Sandra, o título do livro contribuiu para que eu me convencesse da situação sobrenatural dos fatos – o nome do livro era  “A imortalidade”.

Teria Sandra, em seu momento de morte, enviado um sinal para mim, uma despedida, ou teria eu sentido sua morte, por meios inexplicáveis pela ciência atual?

Não saberia dizer, a não ser que me convenço cada vez mais, que sabemos muito pouco sobre a vida, a morte e tudo o que nos cerca.



Wednesday, August 31, 2016

A MUDANÇA QUE DESEJAMOS



"Tu não podes viajar pelo Caminho antes que te tornes esse próprio Caminho."(*)

A mudança que desejamos, segundo a autora, identificada no final desse texto, deve começar, portanto, de dentro de cada um de nós,  Pode parecer "clichê", e é mesmo: afinal, os "clichês" têm todos eles uma origem e muitos deles nobres origens, A frase tem data desconhecida, pois, a autora traz na sua publicação o resgate a textos antigos do oriente. A mensagem foi passada em diversos momentos históricos e na cultura religiosa, com palavras às vezes diferentes,
Ao sábio, não interessa a chegada, o reconhecimento, mas, o sentido em que se caminha e a atenção que se dá a cada movimento.
Hoje é comum dizer-se da necessidade do "foco" no que se faz, o que sempre se encontra nos textos orientais antigos com palavras como "concentração", "meditação" e outras.
Mas que Caminho seria esse que menciona a autora? O caminho da justiça, do amor, o "reto caminho", da compaixão e da fraternidade, O caminho dos valores atemporais, aqueles que encontram lugar em todos os tempos, em todas as religiões, em todos os povos, Por isso o Caminho escrito com "C" maiúsculo.
Ser você o próprio Caminho significa assimilar em seu Eu esses valores, condição imprescindível para que possa, de fato, entender-se na direção correta. 


"Deixa que tua Alma se abra ao som de todo grito de dor, do mesmo modo como a flor de lótus se abre para beber o sol da manhã."(*)

O olhar sensível daquele que se torna o Caminho não consegue ignorar a dor de seus semelhantes e sua alma "se abre". Não importa a condição, não importa a quem, assim como Jesus nos mostra na parábola do bom samaritano, ouvir, sentir a dor de quem se encontra no Caminho. Abrir-se a alma para acolher todos os que carecem de ajuda, de amor, de atenção.

"Não deixe que o Sol feroz enxugue nenhuma lágrima de dor antes que a tenhas tu enxugado dos olhos sofredores."(*)

As lágrimas enxugadas pelo Sol feroz são as dores que não alcançam sua atenção, seu olhar sensível, e acabam por secar na face dos sofredores, criando graves cicatrizes, visíveis em seus rostos, mas, que arderão em ti, acusadas pelo mais forte juiz; sua consciência.

"Deixa, porém, que cada lágrima humana abrasadora caia em teu coração e aí permaneça, até que a dor que a produziu seja removida." (*)

Se sua alma se abre, seu coração acolhe. Acolhida a dor, que permaneça a influenciar-te em teu Caminho, para que não haja novos passos, enquanto não seja atendido o grito de quem a pronuncia. 

Seja seu caminho o real Caminho, que seus sentidos sejam sensíveis, que toda a lágrima, todo o grito de dor lhe sejam caros, joias encontradas nesse Caminho, pois, o ponto de chegada não importa mais do que o movimento em sua direção. 

É essa a mudança desejada, aquela que se forma em sua alma, que independe do que ocorre fora dela, pois, o que está fora, o externo, é incontrolável, independente, mas o que ocorre na alma é decisão tua. Estar no Caminho, ser o Caminho, representa alcançar a verdadeira felicidade, a mudança que desejamos.

(*)Helena Petrovna Bravatsky - A VOZ DO SILÊNCIO - Editora Martin Claret, 2004. 
Helena P Bravatsky, russa, nasceu em 1831 e morreu em 1891, percorreu mais de 15 países reunindo conhecimentos, pensamentos, muito do que poderia ter-se perdido e os publicou em livros que chegaram até os dias presentes. 


Thursday, July 21, 2016

A CORAGEM QUE NOS ESCAPA




Em mar tão aberto, é quase certeza que encontraremos perigos. Então, quando somos ameaçados pela tormenta da dor e do sofrimento, quando não somos mais que uma frágil embarcação agitada por forças superiores, existem pelo menos duas coisas diferentes a fazer: ou usar velas ainda mais potentes, lançar um rugido de gozo e arriscar heroicamente a vida, ou aplicar a sabedoria de uma longa existência, baixar as velas e  viver com energia reduzida, deixando-nos levar pelas correntes e  pelos ventos, sem lutar contra, até que nossas forças estejam  novamente disponíveis e as circunstâncias nos sejam mais favoráveis. O que de modo algum é próprio de quem tem coragem é a triste rebelião por meio do lamento e do ressentimento.

A POTÊNCIA segundo Nietzsche. Larrauri/Max -2000. Filosofia para      Leigos. Ciranda Cultural Editora e Distribuidora ltda. Edição 2011.


Para Nietzsche, a essência da coragem estaria em assumir uma das duas decisões: enfrentar ou recuar. A falta de coragem seria, portanto, o lamento ou o ressentimento, sinais de fraqueza, talvez uma tentativa de chamar à atenção o problema que não se deseja enfrentar, para que outros, por pena ou solidariedade, venham em socorro. A “não coragem” poderia ser entendida, em outra instância, como um comportamento egoísta, permissivo e doentio.

No livro Hindu Bhagavad Gita, encontramos passagens que remetem ao tema da coragem, mas acrescenta outro fator importante, como a ação pelo dever, sem esperar recompensas, a verdadeira luta, aquela que faz da coragem o instrumento para que se realizem proezas, mas, não para o lutador, senão para uma coletividade.

25. Assim como os ignorantes executam seus deveres com apego  aos  resultados, igualmente os que são sábios também cumprem    seu dever, sem desejar nada em troca, apenas com o propósito de   conduzir as pessoas para o caminho correto.
A etimologia da palavra "coragem": do Latim, CORATICUM, composto por COR, que representa aqui o "coração" e seguido por ATICUM, que representa "ação". Acreditava-se que a coragem se situava no coração, que o homem agia com coragem quando guiado por amor, mas o amor pelo coletivo, pelas causas nobres, Ser corajoso significava lutar pelo certo, pelo justo, sem pensar nos resultados, na glória da vitória ou na desgraça de uma derrota.

Essa coragem, que deveria estar entre os fundamentos da construção de nosso caráter, parece esvair-se, perder sentido, partir para o esquecimento. É importante ressaltar que um ato terrorista, por exemplo, nada tem a ver com coragem, pois que não busca o reto, o justo, mas o mal, o poder a qualquer custo e a ação fora da razão. Não nasce do coração.

A coragem não está dissociada da razão: ao contrário, prescinde de uma avaliação sobre o caminho que se apresenta, sob a ótica da correção, da justiça e do amor. Amor esse que se encontra no mesmo berço da coragem: o coração humano,



Thursday, June 23, 2016

SOPA FILOSÓFICA: INCLUSÃO OU IMORTALIDADE ?


Ao conhecer um pouco da história de alguns filósofos do passado, começo a pensar que existem caminhos que o ser humano pode seguir, mediante um cenário em que está inserido, mas, em grande parte do tempo, por opções tomadas quando diante das situações vividas.

O cenário difere nos detalhes, nas condições, mas, existem situações que parecem apresentar-se a todos os homens, senão à maior parte da humanidade. As escolhas parecem oscilar por alguns conceitos básicos: o desejo de reconhecimento e afeto, ou, o desejo pelo conhecimento em si, pela expectativa de sentir-se útil, de contribuir por um mundo melhor e dar, assim, um sentido à vida.

Parece-me que a grande maioria das pessoas, buscam o reconhecimento e afeto. Essa busca se daria no plano das manifestações, comportamentos, de maneira que, para essas pessoas, importa ser considerado coerente com as expectativas do grupo de interesse, no qual busca identidade e reconhecimento e afeto.
Assim, em nossa sociedade de consumo, onde o reconhecimento se revela pelo poder de compra, a busca pela integração através de bens de consumo é o ideal de muitos. A forma como se apresentam diante do grupo definirá o sucesso ou insucesso nesse grupo de interesse. Pecar nas aparências significa, além de fracasso, a exclusão, a exposição ao ridículo, ao desafeto.

O capital apresenta modelos a serem seguidos, que se tornam padrões de aceitação e condição de inclusão. Assim, muito do efêmero torna-se essencial.A busca pela inclusão impõe seguir modelos, o que afasta o indivíduo de sua individualidade. Em busca do reconhecimento e afeto, o indivíduo torna-se igual, padrão, se anulando e se distanciando cada vez mais de sua essência. Essa opção das maiorias torna as pessoas frágeis, dependentes e infelizes. Se todos seguissem esse caminho, não haveria evolução.

Não se enganem aqueles que, jovens, recorrem a mecanismos estéticos para afrontar as gerações anteriores, pensando, assim, estarem criando o “novo”: apesar de mudarem o comportamento estético, reproduzem essa “rebeldia” seguindo modelos existentes dominantes nos grupos aos quais desejam inserção.

Mas, como é o comportamento dos que, de fato, entram para a história como agentes que promoveram mudanças?

Recorro a dois pensadores, filósofos de um tempo passado, que trazem em alguns textos, questões para refletirmos. Vou mencionar, primeiramente, René Descartes. Que viveu de 1596 a 1650. Escreveu Descartes:

“Mas mesmo os melhores espíritos não tem ocasião de desejar conhecer tais princípios: pois, se querem saber falar de tudo e adquirir a reputação de doutos, chegarão a isso mais facilmente contentando-se com a verossimilhança, que pode ser encontrada sem dificuldade em todo tipo de matérias, do que buscando a verdade, que só se descobre aos poucos, em algumas, e que obriga, quando se trata de falar das outras, a confessar francamente a ignorância.” (p.111)

Descartes foi um homem avesso à corte, apesar do sucesso que fez ainda em vida pelas suas publicações. Para poder criar uma nova filosofia que eliminasse a aceitação de conceitos adotados como verdadeiros em sua época, mas, sem qualquer comprovação possível, buscou a solidão, as viagens e a compulsão pelo conhecimento. Não pode ser considerado um homem interessante pelos padrões estéticos de sua época, pois, não compartilhava dos mecanismos culturais definidos e esperados pela grande parte da população de então.

Outro filósofo ao qual recorro é Nietzsche, que viveu entre 1844 e 1900. Igualmente avesso à aceitação da sociedade em que viveu, dizia Nietzsche:

Fazer da vida uma obra de arte não consiste em introduzir arte na própria existência, ir ao teatro, visitar museus ou consumir literatura. Muito menos se pode entender  como a imitação de um modelo: isso seria um equívoco. Tratar-se de dedicar tempo e atenção ao desenvolvimento de si mesmo - ser amante da mudança e da transformação, no momento em que ocorre, não se deixando levar pela impaciência que nos faria aceitar o que alguns artistas ou pensadores oferecem já pronto - até encontrar o pincel apropriado, a tela e as cores próprias e adequá-las, a fim de chegar a ser um mestre em nossa própria arte de viver. (p.8)

Note como esse texto é revelador: a busca por uma identidade própria, que não se prenda a padrões culturais. 

Quem anseia uma vida filosófica, quem  deseja ser um artista de si mesmo e, portanto, um sábio, tem de lutar para dar um estilo a si mesmo. Tem de chegar a ser o que é. (p.10)

Então, sustentando as hipóteses que levantei no início desta postagem, da existência de dois tipos de busca, sendo elas: o desejo de reconhecimento e afeto, e o desejo pelo conhecimento em si, pela expectativa de sentir-se útil, de contribuir por um mundo melhor e dar, assim, um sentido à vida, posso dizer que existem também alguns indicadores que podem ser interpretados como mecanismos que viabilizam uma e outra opção, assim como suas consequências.

O quadro a seguir traz uma visão de como isso ocorre.

 














Dentro dessa reflexão, me parece que, para aqueles que buscam o conhecimento e tornam-se, assim, imortais (no sentido de tornar-se agente histórico de evolução), pontos relevantes mostram-se claros: o desapego ao consumo e a valorização da humildade. 

Sobre a humildade, entendo como mecanismo fundamental para alcançar níveis mais elevados de conhecimento. Ao contrário da arrogância, que estabelece a falsa ideia de que se alcançou o máximo do conhecimento, a humildade mantém o indivíduo sempre aberto ao conhecimento, o que torna possível rever conceitos, questionar afirmações até mesmo próprias, e atingir, assim, novos patamares de conhecimento, capazes de contribuir para a história e para a ciência.
Ainda sobre Nietzsche:

...seus pertences reduziam-se a duas camisas, dois ternos, livros seus manuscritos e uma porção de remédios para tratar dores de cabeça, insônia e vômitos. Viveu em casas de amigos, de familiares e em pensões. Ele afirmou que, se tivesse que construir uma casa, a faria no meio do mar. Quem sabe pensava no palácio de Tibério, em Capri, ou nas casa de sua amada Veneza. Ou quem sabe não era propriamente uma casa o que desejava, mas um barco. (p.13)

Evoluir não condiz com raízes. A liberdade, ainda que leve ao estranhamento nos meios culturais onde vivemos, é capaz de criar gênios, descobertas e evolução, enfim, tornarmo-nos imortais.



REFERÊNCIAS

DESCARTES, Discurso do Método, Coleção L&PM POCKET: Agosto de 2005, Vol. 458.


Larrauri, Maite
A Potência Segundo Nietzsche / Maite
Ciranda Cultural, 2009 Coleção Filosofia para Leigos
Edição 2011

Thursday, April 14, 2016

Protagonistas vivos da história de Joinville correm o risco de despejo de uma área "pública".

No ano de 1986, um calçadão foi construído na Rua do Príncipe em Joinville/SC. Artesãos se mobilizaram e, através da Associação Joinvilense de Artesãos - Ajart, reivindicaram e conseguiram da prefeitura a permissão para ocuparem o espaço revitalizado, para a realização da Feira de Artesanato. Iniciada nos anos 70, a Feira ganhava, então,  um espaço enobrecido. Em 2004, numa ação violenta, a Feira de Artesanato foi removida do calçadão e o mesmo foi totalmente destruído para abertura ao trânsito de veículos. 


O episódio da destruição do calçadão em 2004 revela uma desproporcionalidade de forças entre os gestores públicos, que agiram com força policial fortemente armada contra artesãos desarmados e atônitos. 
O governo gestor, que tenta disciplinar, definir lugares e controlar seus usos, atropelando o destino de trabalhadores honestos que escolheram no artesanato sua fonte de renda.



Os artesãos foram forçados a mudar da Rua do Príncipe para a Praça onde se encontra a biblioteca pública municipal, local de menor fluxo de pessoas e com consequente diminuição na renda desses trabalhadores.

Mais uma vez assistimos a uma ação dessa natureza que poderá comprometer o sustento dessas famílias.

Ao usar o discurso de disponibilização do espaço público de maneira democrática, a prefeitura poderá retirar os atuais artesãos e sortear seu espaço para uso.

Concordamos com o uso público do espaço, mas, que sejam respeitados os artesãos que ocuparam esse espaço desde o início e que se utilizam dele para sua sobrevivência. 


Esses artesãos, muitos deles agora já idosos, não tem outra fonte de renda e, se forem retirados do espaço, poderão ser injustiçados num momento em que mais precisam de apoio.

Que sejam sorteados novos espaços, mas, que se mantenham aqueles artesãos que sempre estiveram na rua e que já são parte da história desta cidade.

Fonte: Reportagem do Periódico "A Notícia", de 2009 - disponível em  http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/noticia/2009/09/o-hippie-numero-um-2651657.html 


Existe uma forma de ajudar nesse processo: um projeto de lei está em tramitação na Câmara de Vereadores e pretende  assegurar o direito de uso do espaço para esses trabalhadores

Ainda não existe data definida para a votação, mas, o vereador Maycon Cesar Rocher, autor desse projeto de lei, estará presente a reunião com os artesãos na próxima segunda-feira, dia 18 de abril de 2016, na Rua Luiz Niemeyer, 184, no Centro, às 20h00 (Sindicato dos Mecânicos).

Vamos comparecer e mostrar que os artesãos não estão sós nessa luta !!
 

Thursday, March 24, 2016

CAMINHO CURTO: A ILHA DE DESILUSÃO EM MEIO AO PARAÍSO....




21 de março de 2016. Joinville, Santa Catarina, subdistrito de Pirabeiraba. 

A estrada que nos leva, eu, a assistente social e o fiscal de campo, passa em meio a uma região rural, uma paisagem europeia.

A estrada é boa, asfaltada, muito embora não existam outros veículos, senão o nosso, a percorrer o caminho. A questão imediata e inevitável que nos vem à mente: qual seria a razão de tal investimento para tão pouco uso, quando existem locais de grande fluxo de veículos na cidade em que as ruas ainda são de paralelepípedo e, deteriorados pela falta de manutenção, tornam o caminho perigoso e cheio de buracos, ondulações e outras armadilhas.

Talvez a razão para o investimento aqui seja a existência de propriedades rurais de alto valor econômico, ainda que distantes entre si, mediadas por interstícios amplos e repletos de vida natural em toda a sua exuberância, um recato de mundo que povoa a imaginação paradisíaca dos sonhadores.

Entretanto, nossa missão é de atendimento social e, ainda que possa parecer improvável, encontramos uma comunidade pequena, composta por 28 famílias, em casas rudimentares, muitas delas em madeira comprometida pelo tempo e por maus cuidados.

Como uma ilha isolada em meio a uma paisagem rural de tirar o fôlego, essas famílias se agrupam, se amontoam em casas construídas sem nenhuma coerência espacial, obrigando, muitas vezes, a adentrarmos no quintal de uma para chegar à casa do vizinho.





Nossa presença é rapidamente notada e, aos poucos, somos cercados por alguns moradores, curiosos em saber sobre o que pretendem esses forasteiros da empresa de saneamento.

Em nossos registros, existe o histórico de que houve ligação de água para 13 famílias num passado, mas, apenas três dessas mantém-se ativas, estando as demais cortadas por falta de pagamento.

As razões parecem ter sido o crescimento do número de famílias e as diferentes interpretações da empresa de saneamento sobre a legalidade das ligações, permitindo, num primeiro momento, a ligação de água para as primeiras famílias, para, mais tarde, negar para as famílias que chegaram depois.

As pessoas que nos cercam desejam novas ligações de água, mas, alegam não terem documentos que lhes confiram a posse dos lotes. Uma senhora, primeira moradora, explica-nos que todos pertencem à mesma família, filhos, netos, bisnetos. Apesar de todos pertencerem à mesma família, não existe cooperação: “aqui ninguém se ajuda”, diz a senhora.

Com ela um jovem, que ela diz ser seu neto, achega-se contorcendo-se em dores, silencioso, mas visivelmente afetado por alguma dor na região dos rins, curvando-se e olhando, de forma resignada, para a senhora sua avó. Parece um tanto afetado por algum medicamento ou talvez por alguma doença mental. A senhora inicia um choro, reportando o sofrimento que lhe coube em arcar com a criação do neto. Teria levado-o ao posto de saúde, mas, medicado, foi liberado na sequencia.

Olho para as pessoas no local. Um morador, sentado em uma cadeira, nos cumprimenta com um aceno de mão, o olhar distante, sorriso tímido, um comportamento que demonstra problemas mentais.

As casas são mediadas por lixo, descartado de forma displicente e formando obstáculos para a corrida das crianças que, descalças, desviam de montes e pisam no chão que, em certos pontos, encontra-se molhado por conta de esgoto ao céu aberto.

Um senhor me diz que já foi melhor viver ali, mas, temem o que chama de “mosquito do capeta”, numa alusão ao risco de doenças transmissíveis pelo aedes egypit: “antes, a gente comia as arface que eram plantadas sem veneno, mas, hoje, põem veneno nas plantas e, então, o mosquito, que come as arface, picam a gente e trazem as doenças”.

Mas, voltando à água, existem apenas três ligações de água ativas e 28 famílias vivendo delas. O consumo não condiz com esse volume de usuários, o que demonstra o uso da água por meios clandestinos.

Em meio a todo esse caos, animais caminham pacificamente. São cães, gatos, galinhas, gansos. Os cães, alguns deles magros e sarnentos, pois que dependem das famílias que lutam para terem o que comer, não sobrando restos suficientes para alimentá-los. As galinhas, mais independentes, parecem saudáveis, ciscando o chão junto com os gansos, que cruzam as cercas e visitam o terreno ao lado, um enorme campo com pastos e gados avistados à distância.

Esse ponto é importante: tanto de um lado, quanto do outro, nos dois extremos do povoado, e no limite de seu término, existe um paraíso campestre, uma paisagem de paz e serenidade e de uma beleza estonteante.
Nesse pequeno povoado, onde a felicidade parece ter se esquecido de visitar, as pessoas estão confinadas num espaço exótico e contrastante com a grandeza da região.



Me pergunto: o que será que saiu errado? Afinal são seres humanos, com eras de evolução, cérebros desenvolvidos, consciência e poder de escolha de seus destinos, mas, infelizes, doentes e degradados.
Os animais parecem ter tido maior sucesso, sem esse desenvolvimento evolutivo, sem o que chamamos de consciência, passeiam pelo lugar saudáveis, criam seus filhotes e se desenvolvem com serenidade. 

Ao sair, passo por um arbusto florido e percebo movimento incomum. Ao observar melhor, vejo inúmeras borboletas visitando as flores, num espetáculo de cor em suas asas que se movem abrindo e fechando. Chamo à atenção da assistente social, que não havia percebido e sairia do lugar sem perceber esse “show”. Um momento mágico, uma demonstração a mais da beleza natural em contraste com o caos urbano criado por aquelas famílias desfortunadas. Num gran finale, as borboletas alçam vôo, enchendo o ambiente de cores e encantos.

Saio com perguntas sem respostas: onde erramos? Seria a consciência uma conquista às custas de preços muitas vezes impagáveis? Porque as galinhas não sofrem abandono, desamor, fome e miséria, enquanto humanos sofrem tantos tormentos gerados pelos enganos eternos culturais que excluem crianças, idosos e incapazes. 

Porque as borboletas conseguem alimento enquanto embelezam o universo, enquanto homens e mulheres são abandonados a viverem como subespécies, em condições degradantes, ainda que em meio a um cenário paradisíaco?

Se hoje nos fosse permitido viver no paraíso cristão, teríamos a mesma sorte? Seriamos incoerentes e injustos ao ponto de manter, até mesmo no paraíso, famílias em situação degradante?
Onde foram colocados os limites entre essa comunidade e o universo perfeito à sua volta? O que os tornou presos nessa ilha? 

São paredes invisíveis, barreiras culturais, virtuais, espaços definidos culturalmente por uma sociedade estranha, que não parece considerar as leis naturais, visto que atenta contra sua própria espécie, envergonhando os corações sensíveis.

Estranho o nosso comportamento humano.
Talvez essa seja a explicação de sermos tão pequenos diante do universo e de estarmos tão distantes do conhecimento do seu funcionamento, suas origens e destinos.



A volta foi dolorosa, o sentimento de inutilidade, de responsabilidade além de nossas competências e forças, e a culpa de não ter podido fazer algo, causar alguma mudança positiva para aquelas famílias, imersas numa Matrix, num universo paralelo, cegos para toda a beleza e resplendor natural que as cerca.

Sunday, February 28, 2016

O PODER DE MUDANÇA PODE ESTAR NO SEU BOLSO?

"A evolução de uma sociedade, inclusive a evolução de seu sistema econômico, está intimamente ligada a mudanças no sistema de valores que serve de base a todas as suas manifestações. Os valores que inspiram a vida de uma sociedade determinarão sua visão de mundo, assim como as instituições religiosas, os empreendimentos científicos e a tecnologia, além das ações políticas e econômicas que a caracterizam. Uma vez expresso e codificado o conjunto de valores e metas, ele constituirá a estrutura das percepções, intuições e opções da sociedade para que haja inovação e adaptação social. À medida que o sistema de valores culturais muda - frequentemente em resposta a desafios ambientais - , surgem novos padrões de evolução cultural." (CAPRA, 1982, p. 182)

A partir de certo momento em minha vida, passei a ser um questionador, um "desajustado", contra dogmas assumidos irrefletidamente e repetidos como "clichês" sem sentido.
Questões tidas como verdades incontestáveis e que me aparentavam ser uma face hipócrita da cultura humana,
Em algum período vi no capitalismo a culpa de todas as desgraças,
O dinheiro atribuído às coisas era cruel, injusto e incoerente.
Mas, percebi com o tempo, que o valor monetário das coisas é resultante de certas condições: a primeira é a exclusividade. Se algo não pode ser encontrado com facilidade, torna-se caro. Outro fator é a dependência. Se nos sentimos dependentes de algo, aceitamos pagar por isso, preços elevados, exigindo-nos grandes esforços. Ainda existe o desejo, que torna coisas aparentemente sem sentido, em produtos caros e quase inacessíveis.
Pensando nessas condições, podemos inferir que existem situações que nos tornam dependentes de fato, por estarem ligadas às necessidades básicas para a sobrevivência, como a alimentação, a moradia, a saúde e a segurança. 

Mas existem outras necessidades, essas relacionadas a valores atribuídos pela cultura em que estamos inseridos, as quais criam as percepções para a exclusividade e para os desejos.

É nesse ponto que me volto para o texto citado.
O autor menciona que o sistema de valores culturais estaria na raiz das manifestações e comportamentos sociais.
Daí percebo uma ligação de uma observação que eu intui há algum tempo, sobre uma possível ligação entre aquilo que valorizamos e os resultados disso nas mazelas de nossa sociedade.
Se nossa sociedade valoriza produtos importados, por exemplo, fica claro que nossa produção interna perderá valor, força e se extinguirá.
Da mesma forma, quando investimos parte importante de nossos recursos na compra, por exemplo, de um automóvel, abrindo mão de investimentos em nossa educação, é de se supor que os automóveis sejam cada vez mais caros, enquanto a educação será desvalorizada e perderá sua qualidade.
É claro que não podemos pensar de forma individual, mas, a soma de comportamentos semelhantes pode ter resultados devastadores, criando desemprego em certos setores, sobretudo aqueles ligados a produtos e serviços desvalorizados culturalmente, mitas vezes fonte de renda de muitas famílias.
Somos, portanto, responsáveis pela sociedade que criamos. 
Isso também significa que temos nas mãos o poder de mudar, através de nossas decisões de compra.
Imagine se a sociedade passasse a rejeitar produtos de empresas que não prezam pela sustentabilidade e favor daquelas que respeitam esse quesito em seus meios de produção e comercialização?
Imagine se, ao invés de investirmos em automóveis, celulares sofisticados ou roupas de grife, procurássemos investir em educação, turismo e em projetos socioambientais?
É verdade que somos bombardeados com informações carregadas de intencionalidades voltadas para a construção de valores culturais que não passam pela avaliação racional, mas, apenas se valem do apelo emocional.
Talvez possamos, portanto, mudar o mundo através de mudanças culturais que resultem em um novo comportamento de compra.
O mesmo vale para o planeta, sua preservação e melhoria na qualidade do meio ambiente.

O que podemos fazer?

A saída poderia ser, portanto, a adoção de medidas como as seguintes:

- usar a "razão" para a decisão do que consumir, mesmo que isso possa, num primeiro momento, nos tornar "estranhos" no ambiente em que vivemos;
- priorizar o investimentos naquilo que de fato necessitamos para uma vida digna, respeitando a sustentabilidade;
- buscar a educação de qualidade em lugar de aquisições pela vaidade;
- investir em setores que promovam o sustento de famílias, erradicando a pobreza, a miséria.

Ainda que tenhamos pouco a investir, o resultado de ações coletivas será capaz de mudar os valores culturais, o que promoverá uma mudança no mundo. O poder pode estar em nossas mãos, em nossos bolsos, em nossa conta bancária.

Uma revolução sem lutas, sem armas, mas, certamente vitoriosa, pois, a economia se alimenta de nossos recursos e precisamos ditar as regras, ao invés de viver numa situação como a presente, em que somos guiados por ela.





CAPRA Fritjof - "O Ponto de Mutação", edição 1982, p.182, Editora Cultrix.