Tuesday, February 15, 2011

A luz que veio das comunidades

Um dos meus filhos, em seus momentos de rebeldia adolescente, engravidou uma jovem.
Em princípio o fato causou em mim um sentimento novo: eu seria avô.

Mas o desenrolar da história me traria muitos outros sentimentos.

No princípio ele não queria admitir, mas a razão veio aos poucos se instalando em seu coração rebelde, mostrando um filho igualmente surpreendente para mim.

Não houve pedido de DNA, apesar da jovem ser já mãe de outras duas crianças e ter um histórico no mínimo suspeito.

Ele assumiu apenas pelo fato da possibilidade - não queria ver outra criança sem pai neste mundo, igual a tantas que conhecemos e ficamos sabendo por aí.

Esse sentimento trouxe muito orgulho para mim, pelo fato de ter conseguido participar de sua educação e ver agora uma resposta tão humanitária.

Após algum tempo descobrimos, o endereço da jovem.

Fizemos contato e a conhecemos logo após o parto.

O bairro onde morava, o Residencial Vila Olímpia em Campinas era novo, e foi formado para migrar famílias antes moradores em áreas de risco ambiental.

As casas todas iguais, os nomes das ruas remetendo a esportes, como "Rua do Voleibol", "Rua do Tenis", "Rua do Judô", etc.

A jovem morava com a mãe.

Ali estava meu neto, em meio a uma comunidade, no meio do povo que eu aprendi a conviver durante tantos anos.

Meu filho, apesar de assumir a criança, sua decisão não incluiu a aceitação da mãe como sua mulher.

Foi feito um acordo: dias de semana com a mãe e finais de semana com meu filho.

Como meu filho morava comigo, eram fins de semana comigo também.

Um tempo após, fui chamado por uma assistente social que atendia o bairro para a solução de um problema sério: a empreiteira que construiu as casas empregou materiais sub dimensionados e muitas delas apresentavam problemas elétricos, com riscos de incêndio.

Por um acaso do destino, havia uma empreiteira em campo realizando reformas nas instalações elétricas em bairros na cidade e eu pude negociar o bairro para atendimento.

Foram reformadas muitas casas e, na sequencia, pudemos levar mais benefícios, como geladeiras, chuveiros econômicos e lâmpadas para as famílias.

As dívidas foram negociadas, alguns moradores conseguiram emprego nas empreiteiras e cursos profissionalizantes foram levados ao bairro.

Havia ainda um sonho: as ONGs que atuavam no local e a assistente social ansiavam pela montagem de uma sala de informática.

Consegui direcionar recursos que, somados ao esforço dos demais atores sociais, propiciaram a criação da sala de informática.

Não apenas da sala, mas das aulas gratuitas para a população.

No dia da inauguração uma surpresa: a sala de informática ganhou o meu nome, com a frase que criei - "Mais do que conhecimento, aqui se cultivam valores".

Adotei aquela comunidade de forma voluntária, e tenho ajudado em ações sociais por minha própria decisão, com doações e trabalho voluntário.

Meu neto, que mora no bairro durante a semana, está crescendo e se tornando uma luz em minha vida.

O lider do bairro, Lúcio, um rapaz que luta em sua cadeira de rodas para manter a comunidade unida e assistida, tornou-se um amigo.

Há pouco tempo o vi trabalhando numa calçada, construindo mosaicos.

Sua luta dentro da comunidade se junta à luta pela sobrevivência fora dela, sem descanso, sem tempo para olhar para suas limitações físicas - superação.

Essa foi talvez a história mais marcante em minha jornada pelas comunidades.

Um neto meu nascido no meio do povo que aprendi a amar, um presente especial trazido para me iluminar, não só a mim, mas ao meu filho.

E, como todo o avô que se preze diria: ele é adorável.

Friday, February 11, 2011

Currículo

Currículo


Dados Pessoais

João Abeid Filho
Brasileiro
data de nascimento: 04-07-1959

Rua Satyro Loureiro, 70
Bairro Iririu – Joinville/SC
Fone residencial: 47 3207-3638
Celular: 47 8410-6971
e-mail: rotadovento@yahoo.com.br
Objetivos

Desenvolvimento (criação, implementação e gestão) de Projetos na área de Eficiência Energética.
Desenvolvimento de Projetos Sócio-Educativos e de Responsabilidade Social e Sustentabilidade (criação, implementação e gestão).
Atuar como professor em universidades e instituições de ensino formal e não formal.
Capacitação, Educação não Formal, Treinamento e gestão de pessoas. Atendimento a clientes e Intervenção em Comunidades.
Realização de palestras, seminários e eventos.
Avaliação de Impacto e Retorno Financeiro de Projetos Sociais.

Qualificações

Experiência em desenvolvimento, implantação e Gestão de projetos de Eficiência Energética (há 10 anos), Sustentabilidade e Responsabilidade Social.

Experiência em elaboração e ministrando cursos, palestras e oficinas pedagógicas.

Habilidade em desenvolvimento e implantação de projetos de Marketing Social e Projetos Sociais, e em gerenciamento de equipes.

Avaliador de impacto e retorno financeiro de projetos sociais.

Planejamento, desenvolvimento, implantação e gestão de programa de educação não formal.

Experiência profissional voltada à excelência no atendimento a clientes, especialmente os mais críticos e em todos os canais e segmentos.

Experiência em Call Centers , em criação e monitoramento de cursos e palestras.

Experiência em vendas. Facilidade em negociação e relacionamento interpessoal e profissional.

Usuário de informática, conhecedor de todos os softwares do Office (Windows, Power Point, Excel, Banco de Dados Access, etc. ) e internet. Conhecimento e uso regular de sistemas operacionais de licença livre, como Open Office.



Idiomas

Proficiência em Lingua Inglesa, atestada em exame realizado pelo Departamento de Letras da Universidade da Região de Joinville – UNIVILLE, em 05 de julho de 2011.




Graduação

Instituição: UNIVILLE – Universidade de Joinville. SC
Curso: Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade
Ano de conclusão: 2013

Instituição: Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa – IPEP
Curso: Pós Graduação “Lato Sensu” em Marketing
Ano de conclusão: 1997

Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCCAMP
Curso: Administração
Ano de conclusão: 1987


Cursos e Especializações

Instituição: Fundação Getúlio Vargas – FGV
Curso: Sustentabilidade no Dia a Dia – Nível de Atualização (5 horas) – ano de conclusão: 2011

Instituição: UNICAMP/ FE/ DECISE
Curso: Tópicos especiais em ciências sociais aplicadas á educação – Nível de Extensão Professoras: Patrizia Piozzi e Aparecida Neri de Souza - 1º. Semestre, 2006

Instituição: Fundação Getúlio Vargas – FGV
Curso: Sociologia – Nível de Atualização (30 horas) – ano de conclusão: 2010

Instituição: Comissão de Direitos Humanos e Escola de Formação do Servidor Público Municipal “Álvaro Liberato Alonso Guerra”
Curso: Curso de Conselheiros em Direitos Humanos – ano de conclusão: 2008

Instituição: Fundação Itaú Social
Curso: Avaliação Econômica de Projetos Sociais – Ano de conclusão: 2006

Instituição: CEPPAD - ABRADEE
Curso: Planejamento de Marketing- Ano de conclusão: 1998

Instituição: PROCEL – Programa de Combate ao Desperdício de Energia Elétrica - Curso: Formação de Multiplicadores da Metodologia “A Natureza da Paisagem” Ano de conclusão: 2000

Instituição: SENAC - CPFL
Curso: Formulando e Implementando Estratégia de Marketing Voltada para o Valor - Ano de conclusão: 1998

Instituição: FIA – Fundação Instituto de Administração da USP/FEA
Curso: Curso Compacto de Marketing - Ano de atuação: 1997

734 horas de capacitação na CPFL – Companhia Paulista de Força e Luz – sendo 510 horas como aluno e 224 horas como monitor/instrutor, no período de 1988 a 1996:



Histórico Profissional



12/2011 até o momento presente- Companhia Águas de Joinville
Atendimento Segmentado a Grandes Clientes

04/2012 até 02/2013 - GERAR - Projeto Aprendiz Legal
Professor do Curso de Capacitação para o Primeiro Emprego

01/2009 até 02/2011 - Companhia Paulista de Força e Luz – CPFL
Analista Comercial Pleno – Gestor do Programa Rede Comunidade

02/2007 a 12/2007 – Fundação COGE : Consultor

10/2007 até 02/2008 - CEPROCAMP – Juventude Cidadã : Professor no curso profissionalizante para Auxiliar de Escritório.

08/2000 até 01/2009 – ABBA Assessoria Administrativa : Sócio Gerente

08/2005 até 12/2005 – ASSER Porto Ferreira – Faculdade de Porto Ferreira/SP - Professor Substituto na matéria de Pesquisa de Marketing.

11/2005 a 02/2007 – Assoc. Vinhedense Educação Homem de Amanhã - AVEHA : Gerente Geral

09/2004 a 03/2005 – DEDIC – VIVO Portugal Telecom : Atendimento a Clientes Especiais


07/1981 a 07/2000 – Companhia Paulista de Força e Luz – CPFL : Administrador Pleno II

09/1979 a 07/1981 – Empresa Paulista de Televisão – EPTV Campinas : Controlador de Pedidos


Trabalhos Desenvolvidos

Projeto Pró-Acessibilidade – Cia Águas de Joinville
Atendimento diferenciado para clientes com deficiência e com necessidades especiais. Uma nova visão para o tema da acessibilidade, tornando o atendimento ativo, com mudanças processuais que incluem a visita ao cliente, evitando o seu deslocamento até os postos de atendimento. Implantado em fevereiro de 2013.

Lançamento do Projeto Jovem Aprendiz – AVEHA
Mobilização e implantação do Projeto Jovem Aprendiz, lançado oficialmente em novembro de 2006, com parcerias desenvolvidas com Movimento DEGRAU, CMDCA de Vinhedo e autoridades locais, como prefeito e vereadores da cidade de Vinhedo/SP.

Curso Básico de Gestão e Ferramentas da Qualidade – CPFL
Participação no desenvolvimento de módulos com linguagem adaptada à população alvo.

Rede de Compras – CPFL: programa de incentivo a venda de eletrodomésticos em parceria com a Magazine Luiza.

Rede Fácil – CPFL: programa de criação de rede autorizada CPFL.

Rede Comunidade - CPFL: criação e implantação em campo de projeto para regularização do consumo de energia em bairros populares. Atendimento em mais de 100 bairros populares, nas cidades de Campinas, Sorocaba, Sumaré, São Carlos, Piracicaba, Ribeirão Preto, São Pedro, Santa Bárbara D’Oeste, Bauru, Araçatuba e Jundiaí. Atividades de mobilização das comunidades, capacitação de agentes comunitários para uso racional de energia elétrica e cidadania, cadastramento de famílias e realização de eventos em escolas e espaços públicos ou comunitários.
Veja fotos do programa atualizadas no link: http://www.flickr.com/photos/10410115@N05/

Participação em Eventos Recentes

27 de maio de 2015 – Apresentação do artigo “NÚCLEO DE ATENDIMENTO SOCIAL IMPORTÂNCIA DO ATENDIMENTO SOCIAL NUMA EMPRESA DE SANEAMENTO”, na 45ª ASSEMBLÉIA NACIONAL DA ASSEMAE, em Poços de Caldas/MG.


21 de agosto de 2014 - Prêmio Ser Humano Oswaldo Checchia 2014, em nível nacional, concedido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos à iniciativas na área do capital humano.



22 de novembro de 2013 – Prêmio Ser Humano, ABRH-SC, em nível estadual (SC), modalidade Projetos Socioambientais: premiado pelo Projeto Pró-Acessibilidade.


17 a 18 de agosto de 2011 – Formação Institucional e Pedagógica do Aprendiz Legal ( 12 horas ) – Fundação Roberto Marinho

07 a 09 de julho de 2011 – V Seminário Integrado e Interinstitucional – Arte e Cultura – Univille

09 de dezembro de 2010 – Prêmio Idéias e Práticas Inovação Sustentável – Diretoria de Sustentabilidade da Empresa Camargo Correa. Trabalho “Rede Comunidade” eleito finalista para premiação.


22 a 26 de novembro de 2010 - XIX Seminário Nacional de Distribuição de Energia Elétrica
SENDI 2010 – São Paulo - SP – Brasil – Trabalho, de minha autoria, selecionado para apresentação no evento: A Energia como Ferramenta de Inclusão Social



Janeiro de 2010 – Planeta no Parque – Parque Ibirapuera – São Paulo/SP – participação com estande da CPFL Energia.

25 de agosto de 2010 - Semana da Engenharia UNESP Bauru - Projeto IluminAção – realização de palestra sobre Consumo Consciente de Energia.



visite meu blog: http://abeidresume.blogspot.com/ (contos publicados pela Editora Edicom)

Currículo na Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/9927721465235257

João Abeid Filho

rotadovento@yahoo.com.br
Posted 11th February 2011 by Abeid resumé

Uma visão sobre o social

O processo migratório

No Brasil, assim como em muitos outros paises, se observarmos o sobrenome de cada um de nós, assim como a origem de nossas famílias, constataremos que não somos originários sequer deste continente.

Tais movimentos são em grande parte motivados por crises econômicas e também desastres ecológicos.

Nossos antepassados, oriundos de outros países, chegaram ao Brasil com histórias sempre repletas de dificuldades, perda de patrimônio, fuga a perseguições étnicas ou religiosas, escravidão ou busca de oportunidades.

Esses movimentos migratórios estão presentes em toda a história da humanidade e parecem ser característica do comportamento humano.

Em grande parte das situações, a chegada a um lugar com maiores recursos é problemática, trazendo marginalização e dificuldades muitas vezes superadas apenas em gerações futuras.

O passo seguinte é de inserção fundamentada na força econômica desses grupos e no sucesso de parte dessa população.

O espírito de quem migra é de busca e de enfrentamento, o que faz com que acabem por disputar espaço com a população local, se estabelecendo e prosperando, gerando riquezas e redirecionando a economia, que passa em certo momento a depender dessa população.

No Brasil, esses movimentos hoje apresentam duas características principais: emigrações para países do considerado “primeiro mundo” e migrações internas, de estados com menos recursos em direção aos mais ricos.

Grandes movimentos migratórios ocorreram nas últimas décadas, ocasionando grandes problemas estruturais.

A Mulher Migrante

A condição da mulher, que vem de um ambiente de exclusão sexual, dependente financeiramente do marido, passa por novas perspectivas e possibilidades.

Essa mulher passa a encontrar na cidade grande uma inversão nesses valores, tendo mais oportunidades de emprego e renda pessoal, creches para as crianças, postos de saúde, etc, tornando-as independentes e considerando esse fator uma conquista da qual não abrirão mão.

Com renda própria, algumas vezes arrima da família, cria um perfil mercadológico de grande força, quando analisado quantitativamente.

Pode-se observar que essas mulheres, responsáveis pela qualidade de vida na família, vêm-se focadas na otimização dos recursos que dispõem, mas sem detrimento da qualidade dos produtos que compra.

Pesquisas mostram que famílias das classes D costumam prestigiar marcas consagradas, dissociadas do parâmetro de menores preços.

Mais que isso, essas pesquisas apontam a mulher como detentora do poder de compra e decisão, sobretudo quando se trata de produtos e serviços básicos.

A ação local x lógica capitalista

A população migrante que se estabelece na cidade, vem em busca de oportunidade de renda, assistência social, atendimento médico e escola para os filhos, o que não é oferecido com a qualidade mínima esperada em suas origens.

Ao chegar entretanto, encontram o sub-emprego, o desemprego, além de um custo de vida que não permite a compra ou locação de um imóvel para moradia, condição entre as mais elementares para a sobrevivência humana.

Assim sendo, ocupam espaços públicos ou privados, muitas vezes abandonados por descaso do estado ou especulação imobiliária.

Para isso, a ação individual não é eficaz, forçando a união e organização dos indivíduos numa ação de invasão e posse forçada do que não lhes pertence por direito legal.

Após a conquista do espaço, que envolve até mesmo o enfrentamento ao estado, buscam outras garantias como água, luz, ônibus, postos de saúde, creches etc.

Essas conquistas seguintes continuam dependendo de ações conjuntas e de enfrentamento em grupo.

Ao longo do tempo, as pessoas aprendem que somente pela ação em grupo e pela luta poderão conquistar direitos que são em última análise, garantidos pela constituição federal.

Entretanto, a lógica capitalista tem outro viés: o capital busca a competição e a concentração de renda. Dessa forma, busca o relacionamento individual entre empresa e cliente, onde o agrupamento de pessoas é indesejado, pois força o aumento nos custos operacionais e pode levar ao prejuízo.

O caminho do capitalista é a padronização, o que coloca a relação com essas comunidades numa condição imprópria, gerando conflitos.

O cliente cativo

Serviços como energia e água, são recursos básicos para a saúde e a qualidade de vida.

Não tendo um mercado aberto, o cliente se vê obrigado a aceitar as condições e regras impostas pelo fornecedor, sendo ele estatal ou privado, mas sempre caracterizado como um monopólio.

Como colocado antes, o fornecedor busca a padronização no atendimento e não traz soluções adequadas para esse novo tipo de cliente, que apresenta características distintas e não responde aos modelos impostos por esse fornecedor em algumas situações.

Mais uma vez, a solução que essas famílias buscam é de atenção ao grupo, mas encontram barreiras nesse relacionamento.

Cientes de que o atendimento individual pode trazer insucesso, as comunidades buscam a fórmula que historicamente usaram com sucesso, ou seja: a ação conjunta.

Quando o fornecedor não traz a solução desejada, a comunidade lança mão dos instrumentos que dispõem para seu atendimento, como a apropriação do recurso de forma organizada.

Nesse contexto, ferramentas como paralisação de vias públicas, acampamento ou invasão de prédios públicos ou privados são utilizadas e, por atraírem a imprensa, acabam por trazer resultados mais abrangentes.

Também a classe política se vê tentada a patrocinar movimentações populares, com foco em seu resultado perseguido: o voto.

Mudança de Estratégia

A estagnação da economia mundial verificada nos países tidos como do “primeiro mundo”, baseada na diminuição do crescimento vegetativo, traz os olhos dos grandes investidores para os países emergentes.

Nesses países, um pequeno movimento no sentido da melhor distribuição de renda pode gerar um grande aumento na demanda por produtos ou serviços, movimentando o mercado mundial.

Por essa razão, as empresas se modelam para atenderem a um novo tipo de consumidor, com novas necessidades de satisfação a serem exploradas, mas também com características próprias de consumo, envolvendo acessos alternativos as crédito, formas de venda a prazo, atendimento adequado, etc.

Com o empobrecimento mundial e a concentração de famílias de baixo poder aquisitivo em áreas identificáveis nas cidades, empresários começam a perceber a força de consumo quantitativo desse mercado potencial.

Grandes redes de supermercados desenvolveram lojas voltadas para esse segmento mercadológico, com formato próprio de apresentação, logística e estratégia, obtendo retorno financeiro consistente e sustentável.

Esse remodelamento envolve a ação junto às comunidades onde atuam.

Essa aproximação com a comunidade permite uma convivência segura e abre espaço para ações de sustentabilidade, trazendo então a fórmula para o aumento nas vendas.

A fórmula comumente utilizada e que tem trazido resultados é a seguinte:

negócios com baixo investimento: revisão de estrutura e de gestão

redução dos custos de operacionalização: modelos de apresentação, comunicação, estoque e atendimento revistos

produtos com preços competitivos com o mercado informal: o mercado informal é o grande concorrente nesse negócio, em função dos preços que pratica – a força das grandes redes permite melhores compras pelo ganho de escala para produtos de qualidade reconhecida

apelo a marcas consagradas e com menor oferta de opções

capital humano captado junto às comunidades alvo

Empresas prestadoras de serviços essenciais se aproximam das comunidades com ações sociais e educativas, buscando a melhoria na imagem e maior retorno financeiro, muitas vezes com foco na redução da inadimplência pelo melhor uso dos serviços.

Sustentabilidade

É possível obter resultados melhores se a comunidade se desenvolve, com elevação de renda das famílias.

Entretanto, resolver essa equação é tarefa que envolve políticas governamentais, interesse econômico e intervenção da sociedade organizada.

O modelo brasileiro de reciclagem, com a figura dos catadores de detritos como latinhas de alumínio, embalagens Pet, papelão e outros, trouxe nova atividade à população sem qualificação para o mercado de trabalho formal.

Esse é um exemplo de sustentabilidade aliando a limpeza do meio ambiente, a reciclagem de detritos sólidos e a geração de renda.

As ações de intervenção baseadas em idealismo e filantropia, não se sustentam pelo fato de dependerem de indivíduos e empresas interessadas em valores como o reconhecimento ou a imagem institucional.

As ações do governo são temporárias e de curto prazo, uma vez que grande parte dos políticos não quer dar continuidade a uma ação que traga referência a gestões passadas.

O que move o mundo é o capital, a renda estável e previsível.

Dessa forma, as soluções para a valorização do meio ambiente devem levar em conta o fator econômico.

Não se derrubam árvores por prazer, mas por uma renda: existe quem compra a madeira.

Então, plantar árvores deveria ser algo rentável.

Pensar no meio ambiente inclui pensar no homem e sua qualidade de vida.

O migrante e o meio ambiente

O migrante que chega às grandes cidades, via de regra são originários do norte ou nordeste.

Em muitos casos, as regiões de onde vem são de natureza exuberante.

Entretanto, a falta de políticas de viabilidade econômica torna a vida insustentável, levando a população a buscar melhores oportunidades em outros lugares.

A imagem que têm das cidades é associada a riquezas e oportunidades.

Em contrapartida, a visão da natureza traz a realidade da vida sem oportunidades, da miséria e do sofrimento.

É perceptível como os novos bairros formados por esse tipo de migrante apresentam graves problemas ambientais.

Em muitos casos, as áreas ocupadas são de preservação ambiental.

Os veios d'água são comumente vítimas do lixo doméstico e do esgoto..

As árvores são muitas vezes derrubadas e a paisagem começa a se deteriorar rapidamente.

Quando alcançam a oportunidade de construção de casa em alvenaria, uma das ações visíveis é o cimento no quintal, eliminando qualquer espaço para a vegetação.

O consumo de vegetais, legumes e hortaliças não é ensinado às gerações vindouras, que procuram a alimentação através de produtos industrializados.

É comum encontrar crianças que se alimentam de “salgadinhos” e refrigerantes, mas que não fazem refeições saudáveis baseadas em produtos naturais.

É como se a natureza fosse algo a ser esquecido.

Não percebem a beleza em lagos, riachos ou matas nativas.

Para mudança desse quadro é necessário que as crianças sejam educadas para o reconhecimento da natureza como fator de saúde e preservação das espécies, incluindo o homem.

Mas também é necessário que se desenvolvam modelos de geração de renda voltados à melhoria e preservação ambiental.

O consumismo e a cadeia de valores

Quando estudamos a população de baixa renda, precisamos nos lembrar da pirâmide de necessidades, onde a hierarquia se dá pelo atendimento a necessidades básicas na base, chegando às necessidades mais elaboradas em seu topo.

É claro que alguém com baixa renda terá que pensar, primeiramente, na comida que vai trazer para casa, e se isso for alcançado através da destruição do meio ambiente, não haverá nenhuma razão maior que o deterá.

Assim, não se consegue obter avanços na educação sem que se permita o acesso às necessidades básicas.

Entretanto, a ideologia consumista acaba por criar falsas necessidades no ideário humano, levando a priorização de produtos e serviços que, se analisados à luz da razão, não são importantes para o conforto ou saciedade humana.

Celulares, produtos de marca, sobretudo tenis e roupas, são objeto de consumo por parte dessa população, obtidos com a facilidade do financiamento fácil, mesmo que com juros exacerbados.

Seria mais coerente que se buscasse a educação através da leitura, de cursos ou de eventos culturais.

Mas existem fatores que são determinantes para o consumismo inócuo:

Pelo abandono social em que vivem e pela baixa formação educacional, acreditam não serem capazes de aprender ou ter acesso a escolas, universidades ou cursos profissionalizantes.

Acreditam que, para pertencerem a um grupo social com acesso a oportunidades, devem se parecer como tal. Assim, usam modelos fabricados pela mídia.

A busca por uma identidade que se compare com classes sociais mais elevadas, faz com que rejeitem soluções caseiras, ou desenvolvidas para suas condições aquisitivas.

Usar um produto que seja desenvolvido para classes sociais de menor renda trará uma identidade perceptível e indesejada, que irá reforçar a sua situação de exclusão.

O (des)valor humano

A luta pela sobrevivência e a ideologia corrente transformaram o homem em produto.

Mas esse “produto” o homem, é de um mercado de oferta, com baixa demanda.

Assim sendo, seguindo as leis de mercado, é produto de baixo valor.

Ter renda própria e capaz de atender às necessidades mínimas já é uma conquista difícil.

O comportamento paternalista do estado, que prefere manter programas de sustentação mínima a investir na educação, desenha um cenário onde algumas lógicas são desenvolvidas, como as que relaciono na sequência:

É possível ter acesso a benefícios financeiros quando se tem filhos, como o programa bolsa família, por exemplo.

Esse benefício pode ser a única chance de renda: portanto é preciso ter filhos.

Os filhos crescem: após certo tempo, deixam de garantir esses benefícios – portanto, é preciso ter novos filhos, mas os mais velhos devem trazer renda ou serão descartáveis.

A mulher que tem filhos, tem renda. Se o marido a deixar, terá também pensão. Portanto, quanto mais cedo tiver filhos e quanto maior o número de filhos, de preferência de pais diferentes, maior será a renda pessoal.

Quanto à relação com o mercado de trabalho, outros valores se somam a esse cenário:

O homem deve ser produtivo, do ponto de vista das empresas e suas necessidades.

Somente o homem produtivo tem oportunidade de renda e ascensão.

O homem é considerado produtivo entre 16 e 40 anos de idade.

Sendo a perspectiva de vida prevista no Brasil de 70 anos, então o homem somente será produtivo 36% de sua vida. Isso equivale a dizer que em 66% de sua vida, o homem é considerado improdutivo e não terá acesso ao mercado formal de trabalho.

É fácil entender porque crianças e idosos sejam vítimas de abandono e violência.

Assim como é compreensível o fato de mulheres da baixa renda optarem por muitos filhos, uma vez que reside aí a sua sustentabilidade econômica.

O Tráfico de drogas

Onde o estado está ausente, o tráfico domina.

Essa premissa demonstra com propriedade o que se percebe nas comunidades onde os direitos constitucionais de moradia, segurança, emprego e outras formas de proteção não se verificam.

A assistência do estado, quando ineficaz, faz com que a sociedade busque alternativas, pois são questões relevantes de sobrevivência.

Essa ausência do estado é sentida em todas as classes sociais.

Nas classes mais favorecidas, os mecanismos de assistência são pagos a empresas prestadoras de serviços, tais como convênios de saúde, proteção de segurança particular, seguradoras etc.

Nas comunidades de baixo poder aquisitivo porém, essas alternativas não são acessíveis.

A forma ética de garantia de direitos é a busca por esses serviços de forma organizada e representativa, através de manifestações populares, associações de moradores, entre outras.

Mas existe a forma “não-ética” de garantia desse atendimento.

O tráfico de drogas é uma atividade lucrativa e que traz oportunidade de renda rápida, além de chances de ascensão social.

Entretanto, por se tratar de atividade criminosa, precisa do apoio da comunidade para sobreviver.

Para isso, realiza ações sociais não garantidas pelo estado, como o atendimento nos momentos de emergência, o socorro material e a segurança.

Exemplificando, quando um barraco é destruído por uma chuva forte ou por acidente, o estado não socorre a família dentro do tempo necessário.

O traficante entretanto, levanta o barraco novamente e restabelece as condições mínimas para a família atingida.

Garante assim o apoio da comunidade, agindo também com a garantia da segurança dentro das comunidades.

Via de regra o traficante tem maior renda, ostenta bens desejados, sobretudo pelos jovens, além de demonstrar poder.

Em resumo, acaba se tornando um modelo de alguém que obtém poder e sucesso financeiro.

Resumindo, o trabalho com o tráfico traz renda elevada e em tempo rápido, respeito da comunidade em função do medo, valores que não são alcançados através de outros meios.

É muito fácil entrar para o tráfico e também muito sedutor para os jovens que buscam a realização de seus sonhos materiais e não encontram alternativas.

O difícil é sair.

Muita vezes, a morte é a única porta de saída desse mundo, onde informações não podem ser divulgadas e o controle da inadimplência é feito pela eliminação dos devedores.

O papel da igreja

As igrejas são hoje mais numerosas que os bares nessas comunidades.

A igreja católica exerce força política, mas tem perdido espaço nas últimas décadas para as diversas denominações que se auto intitulam como “evangélicas”.

Essas últimas, cobrando o dízimo dos adeptos, conseguem viabilidade econômica e se proliferam.

Têm importante papel no controle social, o que pode ser positivo, quando se trata do combate às práticas criminosas e ao uso de drogas, incluído o alcoolismo.

Muitas vezes são a única porta de saída para o vício e o crime, agindo como instrumentos de transformação social.

Entretanto, são também mecanismos de alienação e estancam o pensamento criativo e crítico.

Assistência Social

A assistência social oficial é muitas vezes composta por profissionais em número subdimensionado e com recursos limitados.

Incapazes de dar o atendimento necessário, são também limitados por regras e políticas limitadoras.

Quando realizada pela sociedade civil organizada, como as associações, ONGs e OSCIPs, pode ser direcionada e parcial, não garantindo o atendimento a todos, em parte pela limitação de recursos, em parte pelo foco e missão de cada uma delas.

Políticas governamentais elaboradas para o atendimento por modelos padronizados, baseados em pesquisas, não enxergam as especificidades de cada família, o que traz inevitáveis distorções.

Essas distorções poderiam ser mitigadas se houvesse a presença mais efetiva dos assistentes sociais na comunidade.

O comportamento assistencialista

Políticas públicas de socorro social, quando distanciadas de um modelo de educação libertador, acabam se tornando mecanismos de controle social e sendo confundidas como “direito unilateral”.

Muitas pessoas acabam por acreditar que não existe forma de vida viável sem a interferência do estado.

Ficam dependentes dos programas assistenciais para obtenção de renda e alimentação.

Pior que isso, não vêem esses recursos como atendimento temporário e contingencial, mas como obrigação do estado.

Esse pensamento limitador acaba por reforçar a exclusão social, pela apatia de uma população que desistiu de lutar pelo seu crescimento profissional e pessoal.

Esse pensamento acaba contaminando a relação com outros setores da sociedade, como por exemplo, as prestadoras de serviços como água, luz, correios, e transporte, entre outras.

Esses serviços são vistos como “direito devido pelo estado” por grande parte da população

É verdade que o estado tem participação na viabilização desses serviços à população, mas a cobrança pelos serviços por parte das empresas que atuam nesses setores é considerada como “imposto” e, como tal, passível de subsídios.

Por essa mesma razão, o uso racional desses serviços não faz parte do ideário popular, mas a falta deles, ainda que temporária, pode gerar um sentimento de violação de direitos e causar grande reação.

O processo de formação dos bairros

As origens

Falta de estrutura e aniquilamento da esperança movimentam o fluxo migratório para cidades estruturadas.

A escolha do local

Locais públicos ou de especulação imobiliária, abandonados, são alvos das ocupações.

Se for possível um local próximo ao centro, esse será o local escolhido, pois o transporte será conquistado em tempo incalculável.

É comum ouvir comentários sobre áreas negociadas com políticos para ocupação, atendendo a interesses escusos.

Também se contam estórias sobre áreas de interesse para ocupação por parte de empreendedores, pois o estado pode, num processo de regularização, comprar a área ocupada e negociar a venda dos terrenos via Secretarias de Obras, COHABs etc. Essa compra pode ser em valores interessantes aos empreendedores, o que tornaria possível o incentivo às ocupações.

Outra estória que se conta é o interesse no aumento de moradores, futuros eleitores nos municípios, contribuindo para o aumento de cargos públicos nas Câmaras de Vereadores.

Em nenhum momento a questão ambiental é levada em consideração: ocupações são feitas muitas vezes em áreas de preservação ambiental e, em alguns casos, a natureza pode apresentar obstáculos às construções: esses “obstáculos” são removidos como a derrubada de árvores ou destruição de recursos naturais.

A ocupação

A ocupação é feita de forma organizada e em grupo.

As famílias montam barracas e constroem barracos em madeira compensada, utilizando muitas vezes materiais descartados como out doors placas de sinalização, etc.

Os telhados são feitos com telhas de fibrocimento.

Existem as lideranças locais, que organizam a ocupação, definindo ruas e quadras e influenciando os migrantes na escolha dos locais para a montagem dos barracos.

Os recursos básicos

Levantados os barracos, são obtidos recursos mínimos para a vida em sociedade, como a água e a luz, que são desviados de fontes de alimentação próximas.

São os conhecidos “gatos” de água e de luz.

A água é obtida através de mangueiras que são enterradas no solo, simulando uma rede subterrânea clandestina.

A energia elétrica é desviada de transformadores próximos, formando redes clandestinas que alimentam todas as famílias.

Esses serviços são realizados por pessoas no grupo com conhecimentos em hidráulica e elétrica e não são fornecidos gratuitamente: é cobrada taxa aos moradores para a confecção desses “gatos” e, em caso de problemas no fornecimento, o atendimento é feito por essas mesmas pessoas, sendo também cobrado o serviço.

Os custos para permanência

Em alguns casos, grupos se colocam no comando da ocupação, mediante a imposição pela força, com uso de armas e ameaças.

Esses grupos muitas vezes cobram taxas mensais para permanência no bairro e aqueles que se rebelam correm o risco de serem expulsos ou eliminados.

Mudança no perfil dos moradores

O estado muitas vezes é lento na ação de remoção e essa demora acaba por inviabilizar a retirada das famílias, pelo alto custo político envolvido.

Algumas pessoas invadem apenas para garantir um espaço e, uma vez que o tempo discorra sem ação do estado, aumentam as possibilidades de posse dos terrenos, o que permite a “venda” a novos migrantes.

Num segundo momento, aparecem migrantes que compram essas casas, e também existem aqueles que “alugam” os barracos.

Após algum tempo, essas lideranças dão lugar a associações de moradores, em princípio informais, que administram a entrada e saída de famílias, criam taxas de serviços e tornam-se boas plataformas políticas, atraindo pessoas com interesses em carreira pública.

Essas associações se tornam o caminho para negociações com o poder público e mobilizam a população para manifestações populares com o objetivo de trazer melhorias e o reconhecimento da ocupação como “bairro”, pela regularização dos lotes.

A chegada dos primeiros recursos sociais

Em grande parte dos casos, o transporte público é o primeiro benefício a chegar pela ação do poder público.

A atuação de assitentes sociais e de saúde pública também mapeiam e dão atendimento à população.

ONGs chegam para a realização de projetos sociais, como construção de creches, distribuição de alimentos, etc.

O processo de regularização

O poder público inicia o processo de regularização da ocupação.

Nesse ponto, as associações passam a se tornar oficiais, configuradas como pessoas jurídicas.

Dessa forma, negociada a compra da área pelo poder público, a associação passa a ser a interlocutora no processo de organização do bairro, se confundindo muitas vezes com o poder público, pois realiza ações locais como um “braço” da administração.

É então iniciada a medição dos lotes e remoção das famílias em áreas de risco.

O poder público, tendo o mapa definitivo do novo bairro, autoriza a colocação de rede de água e de energia elétrica no bairro.

Os moradores então passam a ser cadastrados para o recebimento desses benefícios em diversos momentos.

É nesse momento que se desenvolve a certeza de que serão proprietários do terreno onde estão.

Ocorre então o aumento no valor dos terrenos e começam então a entrar no bairro novos tipos de famílias.

As que chegam e as que ficam, confiantes na permanência, começam a transformar os barracos de madeira em casas populares em alvenaria básica.

Áreas de comércio são definidas e então se desenvolvem rapidamente.

Alguns começam a construir um segundo andar ou mesmo a construção de casas com perfil diferenciado do contexto local, mudando a paisagem no bairro.

Moradores com menores recursos migram para locais de futura remoção (áreas de risco), ou para quadras menos favorecidas.

Escola e creche são inauguradas pelo poder público.

Ruas onde passa o transporte público são asfaltadas num primeiro momento. Logo depois, todo o bairro é atingido pelo asfalto.

O aumento no custo de vida e o conseqüente choque cultural

Com a chegada dos recursos, os custos para a permanência no bairro começam a aumentar.

Surge a prestação do terreno, o IPTU, as contas de água e de luz.

Esse aumento no custo de vida não tem contrapartida na renda mensal.

O consumo de água e de luz é muitas vezes inadequado, pois as construções são precárias, assim como os equipamentos eletrodomésticos: é possível encontrar famílias com contas altas, superiores às verificadas em bairros mais favorecidos.

O consumo clandestino permanece pelas seguintes razões:

1 – incapacidade de pagamento em função da baixa renda

2 – incapacidade de pagamento em função do consumo inadequado

3 – avaliação desses serviços como “direito a ser garantido pelo estado”, e não passível de cobrança

Ações de cobrança são tidas como violação de direitos e podem gerar conflitos.

Se o bairro estiver em condições geográficas que caracterizem o isolamento, tornando possível o controle sobre a entrada e saída, a situação pode se agravar pelo fortalecimento do tráfico de drogas, que pode então passar a controlar e impor regras de convivência.

Entretanto, a situação pode caminhar para outra solução, com a saída das famílias com menor renda para novas ocupações em estágios anteriores, ou pelo aumento no custo de vida ou pela valorização dos lotes.

O processo de desenvolvimento

Se essa última alternativa ocorre, o bairro então se confunde com outros tantos na cidade, as lideranças perdem gradualmente sua influência e as pessoas perdem o sentido da ação conjunta, tornando-se individualistas, como deseja o modelo capitalista, e buscando soluções de forma isolada.

Parte dessa população crescerá com o bairro e as oportunidades que surgem, tanto pela ação assistencial promovida por O.G.s, O.N.Gs e iniciativa privada, quanto pelo crescimento do comércio.

O poder aquisitivo aumenta e o comércio se desenvolve, chamando a atenção de grupos de empresários de maior influência.

A cidade se transforma pela influência de novas culturas e o comércio passa a depender dessa população e sua força de compra.

Algumas lideranças podem atingir cargos públicos e passarão a exercer influência na cidade.

Outra avaliação possível é de que a evolução local não soluciona os problemas das famílias desasistidas, que acabam por mudar para regiões em estágio de evolução anterior, pois se livram assim do aumento no custo de vida e continuam a depender do estado.

A cidadania e a percepção do estado

O conceito de cidadania pressupõe o acesso aos direitos e o cumprimento de obrigações.

Ocorre que essa balança deve ser equilibrada, o que não se verifica nessa população.

Direitos não são garantidos e nem mesmo são do conhecimento dos que mais necessitam deles.

Entretanto, as obrigações são cobradas e em alguns casos de forma ostensiva.

Assim sendo, o estado é visto como o juiz impiedoso e parcial.

Essa visão é passada através das instituições, como a polícia, o poder judiciário e até mesmo a escola.

Essas instituições estão mais prontas para punir do que para amparar.

Para piorar esse cenário, são muitas vezes corruptas e compõem acordos com o crime organizado.

Em algumas comunidades, há mais temor pela polícia do que pelo tráfico: “ o traficante avisa quando vai agir, dá tempo de recolher as crianças – a polícia já chega atirando e matando gente inocente” (depoimento ouvido no Núcleo Residencial Gênesis, em Campinas/SP, no ano de 2002).

Escolas ou presídios?

A escola tem atuação semelhante, reproduzindo o poder.

O investimento é feito na construção, em uniformes e lancheiras. A educação continua sem atenção, com professores desatualizados, mal remunerados e despreparados para o trabalho com as comunidades.

A direção da escola, via de regra, tem uma postura marcial, se impondo pelo medo.

As mães são chamadas a participar de reuniões de pais e mestres, mas com a finalidade da repreensão por mal comportamento dos filhos ou outras formas de intimidação.

Dessa forma, as famílias se afastam das escolas, quando deveriam ser orientadas para uma ação de responsabilidade compartilhada.

Com grades, câmeras, guardas nas portarias e vigilância policial específica, se parecem mais com presídios.

Além de não conseguirem educar, acabam por afastar os alunos que mais precisam de um acompanhamento do estado.

Isso aliado a um modelo pedagógico desvinculado do despertar da cidadania e do desenvolvimento pessoal, que muitas vezes prepara o jovem para um mercado de trabalho formal, mercado esse que não traz oportunidades.

Ações de protagonismo juvenil são raras e quase sempre trazidas por meio da sociedade civil organizada, que não têm recursos para atingir a todos.

Assim sendo, o conhecimento, quando voltado para o campo profissional, prepara a população para as atividades de menor remuneração e com menores chances de desenvolvimento.

A Lei 10.097/2000, conhecida como a Lei do Aprendiz, além de não ser cumprida em sua totalidade, em função da falta de interesse do governo na fiscalização das empresas, acaba por servir como mecanismo de transformação do jovem em mão de obra barata, o que contraria o próprio princípio da lei.

A bolsa família está aumentando a freqüência escolar, mas pela pressão das famílias que passam a depender da renda correspondente.

Isso aumenta a tensão em jovens em formação pela criação de uma situação sem saída, castradora da criatividade e da livre expressão.

É comum, por exemplo, não permitir a entrada na escola de alunos com bonés. O uso do boné entretanto pode estar ligado à timidês, necessidade de integração e até mesmo vergonha do cabelo (caso verificado em escola pública no ano de 2007, em Campinas, o aluno deixou de frequentar curso profissionalizante do Programa Juventude Cidadã por essa razão).

Formas equivocadas de ajuda

Pessoas de classes sociais mais favorecidas, muitas vezes se organizam em entidades assistenciais, através do trabalho voluntário.

Ocorre que nem sempre estão preparadas para uma intervenção eficaz e acabam por gerar distorções e reforçar o assistencialismo como forma de manter o povo dependente de ações externas.

Algumas motivações levam essas pessoas a esse tipo de atitude, como por exemplo a necessidade de atender a uma inquietação na consciência e da vontade de participar de ações que ajudem a mudar o mundo.

Entretanto, outras situações causam a mesma motivação, como:

Necessidade de reconhecimento: o mundo do trabalho, assim como as relações familiares não têm trazido o reconhecimento profissional e pessoal almejado. Uma forma de obter esse reconhecimento é atuar com pessoas consideradas com “menor informação”. Assim, o desnível educacional pode garantir esse reconhecimento.

Necessidade profissional: hoje, as grandes empresas avaliam melhor funcionários que atuam em trabalhos voluntários, motivando essa busca.

O preconceito

Alguns conceitos tidos como verdadeiros por pessoas desavisadas acabam por trazer posicionamentos equivocados.

Alguns desses pré-conceitos são os seguintes:

Pessoas moradoras em bairros carentes têm menor grau de instrução.

Isso nem sempre é verdadeiro: é bom lembrar que nem todos nasceram na comunidade: alguns foram vítimas de fracassos financeiros e acabaram tendo que optar por esse tipo de local, pela incapacidade de obtenção de renda mensal capaz de suprir recursos para um aluguel, por exemplo.

É mais correto pensar que as pessoas não são da favela, mas estão na favela.

Pessoas moradores em bairros carentes não têm capacidade de evoluir e dependem exclusivamente de alguém como eu.

Ledo engano, que pressupõe uma arrogância inconsciente. Pessoas assim existem aos montes, daquelas que desejam ser vistas como “boas”, ou por razões religiosas ou por busca de auto-afirmação.

Pessoas moradoras em bairros carentes não compreendem a minha linguagem

Mais uma vez a arrogância inconsciente. Muitas pessoas estudam as palavras para se comunicar com as famílias nessas comunidades. Eu creio que existe sempre uma forma de se comunicar universal.

É possível ter uma linguagem objetiva que possa ser compreendida por qualquer pessoa.

Não quero dizer com isso que se possa falar sobre assuntos técnicos e específicos, mas pense um pouco: você precisa disso? Você discute com a sua mãe sobre a fusão a frio?

Quando se tenta mudar a forma de falar com pessoas moradoras nessas comunidades, o que ocorre é que se assume um “personagem”, baseado em muitos pre-conceitos e perceptível pelo receptor da mensagem, mesmo que seja alguém com pouca ou nenhuma formação educacional.

Meu conhecimento será útil, seja ele qual for.

É preciso ter conhecimento sobre as reais necessidades das comunidades e competência compatível para uma ação voluntária. Mais que isso, qualquer ação, para ser eficaz, precisa ser planejada e considerar alianças com O.G.s, ONGs, associações de moradores, igrejas e outras lideranças locais.

Por conta desses erros de avaliação, já ouvi frases como as seguintes:

“As pessoas pensam que pobre não tem dentes” - Parque Oziel – Gleba B, Campinas/SP - ano de 2004, proferida por morador que comentava sobre a sopa trazida diariamente por uma ONG com atuação no local.

“Tem gente que trata a gente como se fosse idiota” - Jdim São Marcos – Campinas/SP – ano de 2002, proferida por morador em relação a forma de tratamento usada por voluntária de uma conhecida ONG com atuação no local.

Projetos questionáveis

Algumas instituições realizam ações com a finalidade de arrebanhar pessoas para a composição de seu grupo de influência.

Assim se vêm igrejas, que se proliferam e acabam por implantar conceitos que não dão espaço ao questionamento e à crítica, uma vez que considerados como “verdades absolutas”, aniquilando assim o poder de crítica e, portanto, o desenvolvimento intelectual.

Outra situação é aplicar um projeto sem avaliação de suas reais consequências, como por exemplo, as “escolas de circo”.

A consequência da difusão desse conhecimento contribuiu para a criação dos malabaristas de semáforos, o que reforçou a posição de exclusão social.

Vivendo os “medos”

Se é verdade que existe o medo de nos aproximarmos de bairros menos assistidos, é igualmente verdadeiro o medo dessas comunidades com relação a quem chega.

A polícia age de forma diferente ao entrar nesses bairros, motivada pelo medo, sendo mais agressiva e menos cuidadosa com o morador comum, confundindo-o muitas vezes com o delinqüente.

Pessoas mal intencionadas fazem muitas vezes vítimas em comunidades formadas por famílias com baixa instrução: é difícil entender, mas é muito fácil entrar num bairro desses e levar o dinheiro guardado para o almoço do dia seguinte de muitas famílias.

A estratégia de defesa adotada nas comunidades menos favorecidas é muitas vezes a transformação do espaço em “condomínio fechado”, com regras rígidas de conduta e acessibilidade.

Assim, pipas colocadas no ar por crianças, olheiros transeuntes e outras formas de comunicação são frequentemente adotadas como forma de preservar o negócio do tráfico e também para a segurança das famílias.

Wednesday, February 02, 2011

Rede Comunidade - Pés no barro, cabeça nas estrelas - a história em fragmentos.


A vida sempre me trouxe experiências interessantes que, se romanceadas, certamente se tornariam livros ou filmes, quem sabe até novelas muito interessantes. Mas sou apenas um espectador.
Vejo os fatos se desenrolarem à minha frente, observo, me emociono.
Mas não relato - deixo-os em minha memória.
Agora sinto que se achega o momento em que essas memórias podem se perder: é hora de começar a contar.

Quando jovem, acreditava que o mundo se transformaria no ano 2000.
Fazia planos sobre viagens de férias em outros planetas, em carros voadores e em uma vida mais longa e sem doenças.
A tecnologia ia resolver todos os problemas, nos levaria a um mundo novo e fascinante.

Entretanto, estava eu no ano 2000 diante de um projeto que eu havia desenvolvido e com a missão de implantá-lo.
Nascia o Programa Rede Comunidade.
Eu e minha criação diante da crua realidade de um ano 2000 caótico para muitos.

Meu trabalho no ano 2000 é iniciar o contato com comunidades pobres de Campinas, oferecendo o fim do consumo irregular de energia em troca de doação de padrões ("postinhos") e outras vantagens.

Apesar de parecer uma missão impossível, pois as famílias tinham energia advinda de ligações clandestinas, os conhecidos "gatos" de luz, descobri desde o primeiro contato com a comunidade Vila Vitória, que a chegada da luz regular era desejada.

A energia clandestina era de péssima qualidade, insegura e não era gratuita: era preciso pagar a alguém para fazer as ligações e manter quando algo ocorresse na "rede".

Além disso, a chegada da luz regular podia ser vista como uma esperança na possibilidade de tornarem-se proprietários dos terrenos onde construíram seus barracos.

Nasci em S. Paulo, e meus primeiros anos de vida se deram num apartamento onde usava a sacada para brincar, o meu quintal improvisado.

Minha família, com bons e maus momentos financeiros, podia ser classificada como "de classe média".

Nunca havia tido a oportunidade de conhecer um bairro pobre.

Procurei pessoas como Haydée Monteiro e Silvana Spécie, que me ajudaram a entender como entrar nessas comunidades.

Em Vila Vitória eu comecei contratando 16 pessoas, moradores do bairro, como "agentes comunitários".







Andava com eles em campo, visitando todas as famílias, porta a porta, explicando o que iria acontecer e cadastrando-as para que recebessem o "postinho".






No início eu estava embriagado pelo conceito de que estava fazendo o bem para aquelas pessoas: hoje considero isso uma arrogância que contamina quem se aproxima dessas comunidades - arrogância em pensar que somos melhores e que seremos os salvadores dessas pessoas infelizes e desorientadas.

Nem infelizes, nem desorientados, são pessoas que não podem ser esteriotipadas.

Assim como todo e qualquer bairro, são vizinhos: católicos, evangélicos, prostitutas e estudantes.

Uma cidade.



Mas o primeiro choque com a realidade veio rapidamente: ao chegar numa residência encontrei um menino, aparentando uns 5 anos de idade.
Ele estava agachado, de cócoras à porta da casa, defecando fezes moles, quase líquidas a escorrerem pelo chão.
Bati palmas e um homem, que julguei ser seu pai, "pulou" o menino, me atendeu e depois "pulou' de volta para dentro de sua casa.
O menino permaneceu naquela condição.
Fui embora consciente de que nada sabia sobre comunidades e que as necessidades de algumas famílias superavam em muito minha capacidade de compreensão e, muito menos, de solução.

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2002 - Jardim Monte Cristo e Parque Oziel, Campinas

As pessoas que eu contratei para esse projeto, eram moradores dos bairros onde atuava.
Certa vez, ao comunicar a uma funcionária moradora do bairro Vida Nova, que iríamos começar o trabalho no Parque Oziel e Jardim Monte Cristo, deparei com um olhar assustado.
Percebi que ela temia entrar naqueles bairros, pois eram tidos como perigosos.
Mas o bairro Vida Nova não era menos perigoso.
Anos atrás havia ocorrido um massacre na porta da escola: por razões que só o tráfico de drogas pode construir, adolescentes foram executados quando saíam das aulas num final de tarde.
Mas a funcionária, apesar de morar naquele bairro, temia ir comigo aos bairros que considerava perigosos.
Eu a tranqulizei: expliquei que estaria com a equipe e que pessoas da associação de moradores estariam também conosco, nos apoiando.

Chegou o dia de iniciarmos os trabalhos e decidi começar pelo Jardim Monte Cristo.
Ela veio.
No dia anterior havia chovido e as ruas, sem pavimento, estavam com uma lama vermelha e brilhante.
Ela veio de branco.
Mas não apenas a blusa era branca- a calça e o tenis: tudo branco.
Como se pode prever, logo na primeira rua, uma escorregão e....
Sua roupa, antes branca, agora estava vermelha.
Não havia como continuar, pois além da lama, a roupa se molhou.
Antes que pudéssemos pensar numa saída, uma senhora, uma senhorinha, daquelas que usam vestidos longos e lenço cobrindo os cabelos, denunciando silenciosamente a sua religiosidade, saiu de um barraco e puxou a funcionária minha para dentro.
Ela voutou com roupas limpas.
A senhorinha lhe deu as roupas de sua filha e prometeu esperar por ela no final do dia, para lhe entregar as roupas sujas.
Espantosamente, no final do dia ela estava a esperar a funcionária.
As roupas lavadas e passadas.
Eu disse à funcionária perplexa: se você estivesse num bairro melhor ou no centro da cidade, certamente seria motivo de risos, isso se alguém não filmasse e enviasse as cenas para a "Pegadinha do Faustão".




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Um dia eu caminhava pelo bairro Jardim Monte Cristo acompanhado de um agente comunitário que também era um membro da associação de moradores.
"Marcão", como era conhecido, talvez pelo seu porte "gordinho", gostava de conversar enquanto andávamos debaixo de um sol impiedoso.
Aconteceu de passarmos defronte a sua casa no bairro e então ele me convidou para tomar um goel d'água.
Chamou sua mulher, que logo trouxe um copo para cada um de nós.
Insatisfeito, pediu à mulher que lhe trouxesse café para nós dois.
Na época eu acreditava que devia aceitar tudo o que me oferecessem, para demonstrar boa vontade e humildade - hoje penso diferente, creio mais na espontaneidade.
Ficamos conversando por um tempo incalculável mas o café não chegava.
Depois de muito esperar, a mulher nos trouxe duas canecas com um "chafé".
Marcão brincou com a situação: "esse é um café galopante".
Não entendi e deixei essa interrogação em minha face, ao que ele então completou: "poco-pó, poco-pó, poco-pó..."
Rimos da piada.
Voltamos ao trabalho após o café.
Eu segui com o gosto ruim daquela água tingida e com a certeza de que aquela mulher não tinha pó para o café, mas sentiu-se envergonhada com a situação e nos serviu, sabe-se lá de que jeito, aquele chafé.
Ainda penso às vezes em como deve ter sido angustiante para aquela mulher os minutos em que ficou a pensar numa saída para aquela situação, para ela desconcertante.

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Os dias eram difíceis nos bairros Parque Oziel e Jardim Monte Cristo.
Não por motivos deduzíveis, como o risco, a falta de estrutura, mas pelo excesso de trabalho e o calor intenso.
Um dia entretanto ocorreu um fenômeno mágico, ao menos para mim, que nunca havia presenciado antes.
Eram umas 5 horas da tarde e o sol estava encoberto por nuvens, após um dia tórrido.
Uma brisa soprou no Jardim Monte Cristo e, juntando o fato da repentina semi escuridão causada pelas nuvens que obscureciam o sol, criou um cenário que parecia prenunciar algum acontecimento sobrenatural.
E o que ocorreu em seguida foi, como já disse, mágico.
Uma nuvem de insetos, "aleluias", para mim apenas formigas com asas, encheu a rua defronte a associação de moradores.
Atrás delas vinham crianças com potes, canecas e coadores, tentando pegar tantas quantas conseguissem.
Lembrei-me da cena do filme "Edward Mãos de Tesoura", quando a amada de Jhonny Deep dança na neve criada pelos fragmentos de gelo advindos da ecultura que ele fazia em seu castelo.
Os insetos voavam sobre o bairro com as crianças atrás, como se fosse uma festa.
Senti essa sensação e me emocionei em silêncio. Era como se, no meio do caos, Deus se mostrasse presente, enviando uma mensagem de paz e alegria.
Alegria que somente os corações infantis puderam captar.

Os insetos na verdade eram perseguidos pelas crianças para se tornarem uma iguaria: uma vez capturados, tinham suas "bundinhas" separadas num pote.
Elas seriam cozidas e servidas com açucar e canela, formando uma farofa doce.
E, acreditem ou não, de bom sabor.

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Roni era um menino de uns cinco anos e morador do Parque Oziel.
Vivia nas ruas do bairro e me seguia vez por outra, me pedindo "um real".
Ele não correspondia a nenhuma descrição plausível de um menino de favela: era loiro e de olhos claros.
Por muito tempo eu tive a oportunidade de conviver com ele nas ruas e desenvolvi um carinho especial por aquele menino que, mesmo diante da rudeza do ambiente em que vivia, conseguia me passar um carinho angelical.
A família dele era totalmente desestruturada.
Sua irmã era uma das traficantes do bairro.
Certo dia um carro de polícia andava pelo bairro vagarosamente, os policiais com a cabeça e parte do corpo pra fora olhando de maneira ameaçadora para cada pessoa que, por infelicidade, estivesse partilhando o mesmo espaço na rua.
Ao chegarem numa esquina, encontraram Roni que, mais do que depressa veio ao seu encontro.
-"seu guarda", disse o menino ao policial, "se me der um doce eu levo vocês na boca".
Para quem não sabe, "boca" ou "biqueira" é o lugar onde se vendem drogas.
O policial foi ao bar e deu umas balas ao garoto que os levou em seguida à "boca".
Foram presas algumas pessoas, entre elas, sua prória irmã. 






Na foto acima, Roni é o menino à esquerda.

Roni cresceu e a última vez que o vi foi na escola do bairro.
Já mais alto, iniciando uma aparência adolescente, ele se lembrou de mim.
Porém, como sempre acontece com o tempo, já não era o Roni que eu via naquele menino.
Fico feliz em saber que prosseguiu com os estudos, aquele que tinha tudo pra dar errado.

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2004 - Jardim Florense 2, Campinas

Antes de ir ao bairro Parque Oziel, eu estive no bairro Jardim Florense 2.
Eu precisava cadastrar as famílias, mas não havia associação de moradores no local.
Não havia sequer um lider para que eu pudesse contatar antes de iniciar os trabalhos.
Isso é ruim por duas razões: para a minha segurança pessoal e pelo fato dos moradores ficarem deconfiados sobre o que eu realmente estaria fazendo no bairro.
Pouca gente sabe, mas em bairros pobres, muitas famílias são vítimas de golpes praticados por pessoas que se aproveitam muitas vezes de idosos ou pessoas sem instrução e, por essa razão , mais vulneráveis.
Isso faz com que tenham medo de quem vem "de fora".
Não deixa de ser curioso o fato do medo comum, mas diametralmente oposto, dos que estão de fora e dos que estão dentro do bairro.
Eu estava com uma meta apertada e, como empresário, tinha que correr.
Aproveitei o feriado de primeiro de maio, "dia do trabalho".
Comecei a trabalhar por volta das nove horas da manhã e, às seis da tarde ainda estava no local, sem pausa para o almoço.
Repentinamente eu fui surprendido por um menino que tinha a altura pouco acima da minha cintura.
O menino me apontava uma arma: era um assalto.
Cheguei a pensar em chutar a mão do menino, pois não seria páreo para mim naquela distância mas, por um "segundo de razão", lembrei que poderia estar sendo amparado por outras pessoas.
Forcei minha visão periférica e constatei assustado que haviam pelo menos mais dois jovens, esse sim da minha altura, com armas apontando na minha direção.
Entreguei o que tinha, que se resumia a um telefone celular e a bolsa onde estava todo o trabalho do dia, além dos meus documentos pessoais.
Soube depois que, uma semana antes, uma pessoa havia sido morta naquele mesmo local, em um assalto semelhante - faltou ao infeliz o "segundo de razão".

Depois do assalto eu disse ao morador onde eu me encontrava, o dono de um bar, que me ligasse caso encontrasse pelo menos os meus documentos.

Recebi no dia seguinte uma ligação: uma pessoa dizia ter achado os documentos, mas queria uma "recompensa".

Furioso com o dia de trabalho perdido, eu disse que não pagaria, que pusesse fogo nos documentos: "prefiro pagar ao Poupa Tempo e ter de volta meus documentos a pagar a um vagabundo".
Do outro lado da ligação, a pessoa me provocou para discutir pessoalmente, no bairro, sobre o ocorrido.
Eu respondi que não conversava com covardes que se escondiam atrás de uma arma.

Obviamente, fiquei dois anos sem aparecer no bairro.

Voltei entretanto e encontrei outra situação.

Já havia uma associação de moradores e o lider, o Sr Edmilson, uma pessoa que se tornou um amigo, me ajudou no trabalho, vindo a se tornar, um tempo depois, um agente comunitário.


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2002 - Parque Oziel, Campinas

O vice presidente do bairro Parque Oziel estava sempre a me pedir uma oportunidade para seu filho em meu projeto: "ele é um excelente eletricista" dizia ele.
Acostumado com esse tipo de pedido e com limitações de orçamento, eu sempre prometia analisar quando oportuno, mas ia levando o assunto, como diria minha mãe: "em banho Maria".

Eu tinha um eletricista na equipe, que era um morador do bairro Jardim Monte Cristo.
Mas esse eletricista começou a falhar: o alcoolismo era o seu maior problema.
Chegou um momento em que eu tive que despedí-lo, muito a contragosto, pois já havia desenvolvido um sentimento de amizade por ele, fato comum para mim, pois me envolvo sempre com o que faço, muito mais do que talvez o devesse.

Certo dia no Parque Oziel, uma médica que pretava atendimento no posto de sáude improvisado, me procurou aflita: "estamos sem energia e as crianças estavam fazendo inalação quando foi interrompida".
Havia uma equipe da concessionária de enegia no local, mas o eletricista responsável estava irredutível: "estou cumprindo o cronograma de obras".
Eu estava diante do impasse e preocupado com a situação quando o vice presidente apareceu ao meu lado: "chame o meu filho - ele pode ajudá-lo".
O filho dele estava alí - eu me dirigi a ele e perguntei: "você sabe fazer um "gato"?"
Ele me olhou incrédulo.
Completei: "as crianças não podem ficar sem tratamento".
Ele olhou a rede, fez um comentário técnico respondendo como faria a ligação clandestina.
Eu então completei: "faça o "gato", mas o desfaça quando a equipe da concessionária restabelecer a energia no bairro - faça isso e já se considere empregado".

E assim conheci o Moisés, uma pessoa de tamanha grandeza de espírito que, desde então, me ensina a ser uma pessoa melhor.

Seu conhecimento de eletricidade é tão extenso que desafiou muitas vezes técnicos experientes da concessionária em situações futuras.

Autodidata, Moisés merecerá novas citações neste blog.

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2004 - Sorocaba, bairro Habiteto

Estive por lá quando a CPFL colocou a rede nas ruas.
Mais uma vez, a tarefa era o cadastramento das famílias.
Em contato com a assistente social, soube de um grupo de jovens que havia concluído um projeto de inclusão, por problemas dos mais variados.
Precisavam de uma experiência de trabalho, mesmo que fosse temporário.
Eu precisava de 5 pessoas do bairro para o trabalho em campo, mas a assistente social me propos contratar então 10, pagando a metade do que eu pretendia, mas contemplando mais pessoas.
Ocorre que haviam 15 jovens e 5 ficariam fora. A assistente social me disse que eles precisavam passar por um processo de seleção, o que seria parte do aprendizado.
Assim, escolhi 10 dos 15 jovens.
Entretanto, não me conformei em deixar os outros 5 de fora: propus que eles trabalhassem para mim em outra atividade.
Eles foram capacitados e arcaram com a tarefa de realizar palestras sobre o uso consciente da energia elétrica.
Todos receberam uniformes e, sob a minha supervisão, o serviço foi realizado.
Almoçávamos todos juntos, num espaço comunitário - o almoço era parte da remuneração.
Eu me diverti muito com os jovens, muito dispostos e alegres, deixavam bem mais leve o trabalho.
Mas o trabalho chegou ao fim.
Um dia antes, coincidiu com o meu aniversário - eles descobriram a data.
Estávamos almoçando quando repentinamente soou uma sirene.
Todos saíram da mesa para ver o que ocorria.
Percebi que eu devia acompanhá-los, muito embora estivesse acostumado a ouvir sirenes em comunidades e minha reação, na maior parte das vezes, era ficar distante pela minha segurança.
Ao chegar à porta do centro comunitário, uma van com auto falantes estava parada e começou a tocar o hino do São Paulo, time de futebol que eles sabiam que eu torço.
Na sequência, tocou o "feliz aniversário" - era uma homenagem para mim.
Foi uma experiência impar de carinho para comigo.
Foi difícil segurar a emoção.

Um fato curioso: quando programei entrar no bairro, uma pessoa da CPFL me disse que se eu conseguisse entrar naquele local, não conseguiria sair.
Estava agora partindo de lá, deixando amigos e tendo vivido uma experiência que ficaria marcada para o resto de minha vida.


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2002 - Parque Oziel - Gleba B, Campinas

Li uma vez que "O que para um brasileiro é apenas gelo recebe, entre os esquimós, mais de dez nomes diferentes conforme a consistência e a espessura" (http://www.aldobizzocchi.com.br/artigo2.asp).

Essa informação exemplifica o conhecimento e a percepção que caminham na mesma direção: quanto maior o conhecimento que temos sobre algo ou alguém, mais detalhes enxergamos, aumentando nossa percepção para as pequenas diferenças, invisíveis aos leigos.

No bairro Gleba B em Campinas, conheci uma senhora que tem uma filha adolescente que contraria todos os esteriótipos criados para uma garota de favela.

Vivendo num barraco, ela tinha uma coleção de jornais, livros e revistas que traziam informações sobre a Lady Diana, ou "lady Dy", a princesa de Gales que emocionou o mundo pela sua sensibilidade e beleza.

A adolescente, além de um profundo conhecimento sobre a Lady Dy, tinha um português correto, era auto didata e muito interessada em estudar.

O bairro onde estava era também morada de catadores de recicláveis, prostitutas e traficantes, pessoas em sua maioria com muito pouca instrução e sem esse tipo de ambição e valores.

Como esperar uma adolescente assim nesse local?

Pois, assim como ela, encontrei outras pessoas por onde andei.

Aprendi que a favela é um lugar onde as pessoas "estão" e que é errado pensar que as pessoas que lá vivem são de lá, como se pertencessem a um espaço que ditasse as regras de comportamento e destino.

Assim como essa garota pode sair de lá e progredir na vida, muitos que lá estão vieram de situações melhores.

Como prova disso, encontrei uma vez um barraco de madeira muito limpo e arrumado, onde vivia uma mulher que havia sido cabaleireira em um bairro nobre de Campinas.

Problemas com dívidas a levaram ao barraco, única forma viável de moradia para quem não pode pagar um aluguel.

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2003 , Campinas


Certa vez eu visitei as famílias de um bairro em Campinas, o qual preservarei o nome, numa semana de muita caminhada e paciência.

O bairro não é grande, mas o trabalho de conversar com as famílias, porta-a-porta, é cansativo, apesar de compensador.

Ficou faltando apenas uma casa, onde bati palmas sucessivamente sem que houvesse resposta.

Antes de sair do bairro procurei o lider e lhe contei que precisava saber quando poderia encontrar a família naquele endereço.

Ele me olhou incrédulo, respondendo que uma mulher se encontrava naquela casa naquele dia.

Foi então comigo à casa e bateu à porta, anuciando seu nome.

A porta então se entreabriu e uma mulher que eu não conseguia ver falava com o lider da comunidade numa conversa que igualmente não conseguia entender, como se cochichassem.

Ele veio a mim e perguntou de poderia ele mesmo realizar o cadastro.

Ocorre que haviam informações que eu tinha que passar pessoalmente.

Ele voltou e convenceu a mulher a me atender.

Eu me aproximei e o que vi me chocou: era uma mulher de uns vinte e poucos anos, não era feia, mas seu rosto apresentava duas manchas roxas que preenchiam as cavidades oculares de maneira que a tranformavam numa personagem maquiada como para um filme de terror de baixa qualidade técnica.

A mulher me passou as informações necessárias e voltou à sua realidade anônima e introspecta.

O lider me explicou que ela havia apanhado do marido: ele lhes desferiu dois socos, um em cada olho.

Indignado e sem saber o que fazer, fui orientado pelo lider para não levar a informação a ninguém, pois a mulher era esposa do traficante do bairro e não teria sido a primeira vez que sofrera esse tipo de agressão.

"Apanha mas volta pro marido - se você denunciar, pode morrer, então deixa pra lá né".

Até hoje eu me pergunto se deveria ter feito algo e carrego uma dor na consciência pela minha omissão.


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2007 - Jardim Paraíso de Viracopos, Campinas

No Jardim Paraíso de Viracopos, em Campinas, fui cadastrar uma residência para participar do projeto.
Na casa morava o "Bode", um senhor negro muito conhecido no bairro.
Ao chegar, o encontrei sentado ao chão, ao lado de um amigo, depenando pombos mortos.
Seria essa a refeição deles naquele dia.
Os pombos haviam sido mortos a tiros.
Comentei esse fato depois com um colega que questionou a situação: as balas são caras e não justificariam a economia no menu.
Não sei explicar, só sei que foi o que presenciei.


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2007 - Jardim Progresso, Ribeirão Preto

Em Ribeirão Preto conheci um casal excepcional: Ricardo e Claudia, do Jardim Progresso.
Ricardo, um artesão de cabelos longos, muito politizado e emocional.
Claudia, uma intelectual corajosa, extremamente racional.
Um casal completo, formando um equilíbrio perfeito.
Certo dia eu Ricardo me pediu lâmpadas queimadas de iluminação de rua: ele reciclava essas lâmpadas criando peças como castiçais muito belos.
Eu mencionei que o Programa Rede Comunidade recolhia milhares de lâmpadas incandescentes e que seria interessante dar a elas um destino artezanal.
Depois de alguns meses, Ricardo me procurou para mostrar o resultado de sua pesquisa com essas lâmpadas.
Depois de quebrar diversas delas, por aquecimento com maçarico, descobriu um ponto de aquecimento onde, ao invés do vidro estourar, ele se abria.
O resultado foi um vaso, onde até mesmo o soquete das lâmpadas foi aproveitado como base, contendo gel colorido e um pavio: uma lanterna com diversos formatos e cores.
O trabalho já evoluiu e Ricardo procura uma forma de montar uma oficina de reciclagem de lâmpadas descartadas.
A Cláudia, que tem o poder de fazer uma perfeita leitura das pessoas, ajuda muita gente com sua sinceridade e correção, isso sem contar o suco de beterrabas que ela faz com sabor pra lá de especial.
O casal 20 mil que encontrei em Ribeirão Preto e que se tornou parte da minha história.

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2007 - Jardim Monte Cristo, Campinas

Em Campinas, no Jardim Monte Cristo, fui chamado pela associação de moradores para verificar uma reclamação: Dna Dorcelina estava com as contas de luz muito altas. Fui à casa dela e, após uma longa conversa, percebi que moravam na casa 9 pessoas. Concluí então que essa era a razão das contas altas: "imagine só Dna Dorcelina", disse eu, "com nove pessoas em casa, são 9 banhos todo dia - essa é a razão das contas altas".
O ideal seria a colocação de mais um medidor para dividir o consumo, o que me agendei para ação futura.
Voltei porém à associação e relatei o ocorrido, quando fui surpreendido por uma moradora que lá estava: "É isso não moço - Dna Dorcelina toma banho de balde pois quando liga o chuveiro, sai faisca pra tudo quanto é lado".
Aquilo me soou estranho: porque então a Dna Dorcelina não me disse isso?
"vergonha moço, sei lá", respondeu a moradora.
Nunca me pareceu tão verdadeiro o conceito de que devemos "saber ouvir".
Muitas vezes, a verdade não é dita por razões as mais diversas e se você quiser de fato ajudar alguém, deverá primeiro ouvir o que não é dito.

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04/02/2009 - Parque Shalon, Campinas

Recebi a triste notícia da morte de um grande lider comunitário: Sr Antonio, presidente da Associação de Moradores do bairro Parque Shalon, em Campinas.
Foi assassinado, próximo à sua residência, pelas costas, de uma maneira covarde e cruel.
O bairro foi atendido pelo Programa Rede Comunidade e há cerca de 7 anos mantínhamos contato, atendendo solicitações e levando novos benefícios.
No final de 2008, Sr Antonio me chamou ao bairro para solução de problemas de famílias com dívidas.
Levamos um posto avançado, ainda em funcionamento, fizemos visita aos moradores para realização do diagnóstico e, na semana passada, realizamos uma oficina na sede da associação sobre uso racional de energia, com a parceria da Tecnolight.
Nesse dia fiz uma foto, acho que a última.
Tinha um grande respeito pelo Sr Antonio, pois era um lider que lutou pela melhoria do bairro e já começava a ver realizadas algumas de suas mais antigas reivindicações, como rede de esgoto, água encanada, energia e outros benefícios.
Foi vítima de sua própria luta, pois acreditava na justiça social e, ao mesmo tempo que representava as famílias necessitadas, combatia aqueles que não dejavam a cidadania e o bem comum.
As lideranças comunitárias pretendiam fazer menção de repúdio ao ocorrido, cobrando das autoridades a segurança e punição aos responsáveis por esse ato covarde.
Afinal, mais um "Antonio" do povo de Campinas se vai, e pela mesma causa: a inclusão social.
Mas nada disso ocorreu.
No velório, encontrei com sua esposa, inconsolável, me dizia que tentou convencê-lo em sair daquele bairro, pois constantemente recebia ameaças.
Mas seu amor pelo bairro o impediu de ouvir a esposa.
Depois de uns seis meses, fui procurado por ela: havia assumido as questões do bairro.
Ainda hoje o bairro é objeto de atenção da segurança pública.
Ainda me lembro de seu português errado, "reuni os moradori", "levei o potrocolo"...
Hoje ecos do passado.

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2001 - Campinas, Jardim São Luiz


Reuni minha equipe, composta por moradores do bairro capacitados para o serviço de cadastramento das famílias no bairro, numa segunda-feira.
A proposta era iniciar os trabalhos na semana seguinte.
Na quinta-feira daquela semana entretanto, um eletricista do bairro subiu em um poste para fazer uma ligação clandestina e recebeu uma descarga elétrica, vindo a falecer.
Na semana seguinte, as famílias achavam que nossa presença no bairro estava acontecendo por causa do acidente fatal e sua repercussão na imprensa.
Superadas essas dificuldades, levei uma empresa parceira para realizar uma ação educativa no bairro.
Uma das sócias procurou o lider do bairro e combinou que faríamos um almoço comunitário em sua casa no dia do evento.
Em um dado momento, a esposa do lider chamou essa pessoa na cozinha e abriu sua geladeira: havia apenas uma garrafa de água gelada, e nada mais.
Foi explicado é claro que o almoço seria totalmente patrocinado pela empresa, mas a experiência vivida por aquela empresária a marcou para o resto de sua vida.


Em 2010, o mesmo lider me ligou, pedindo um atendimento no bairro.
Agendei esse atendimento e perguntei se estava tudo bem.
Ele me disse que sua família estava sem o que comer naquele dia.
Fui então a um supermercado e comprei duas cestas básicas, pois seu filho morava com ele e constituía uma segunda família na mesma situação.
No dia seguinte eu comentei com uma assistente social e ela me pediu o endereço dele.
Foi então no local, fez um levantamento de sua situação social e o incluiu num projeto de 6 meses de cesta básica, pelo governo.
Também levou outros benefícios.
Fiquei feliz com a solução do problema, mas depois pensei comigo: se o lider comunitário, há tanto tempo naquele bairro, não soube resolver seu problema que se resumia na procura de uma assistente social, como poderia então ajudar às famílias que representava?
Esse fato demonstra o despreparo de lideranças comunitárias para o exercício da cidadania e o descaso do poder público em levar informações e orientações sobre os recursos disponíveis de assistência social. 
Muitas vezes são políticos, ou candidatos a cargos políticos, que aparecem com a solução, para depois trocar por votos - é melhor não ensinar a pescar, mas levar o peixe e vendê-lo por 4 anos de salário fácil.




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2009 - Jardim Santa Lúcia, Núcleo Unidos Venceremos, em Campinas


Fui chamado por uma lider local para conhecer a situação de abandono que a comunidade estava vivendo.
Não havia rede na viela que, com um córrego rasgando-a ao meio, tinha ameaçada a situação de algumas das residências.
Foi muito interessante a visita, pois o bairro é representado por um grupo de cerca de 5 senhoras - quando cheguei, e isso se repete sempre que alí vou, elas põem cadeiras na rua em forma de círculo e aí começam as reivindicações.
Daqui há pouco vem um cafezinho e a gente acaba numa conversa longa e gostosa.
Pude ajudar aquelas famílias mas nem todas conseguiram se beneficiar.
Entretanto, elas certa visita que fiz, elas me pediram emprego para as pessoas do núcleo.
Me contaram então que haviam famílias que viviam com apenas R$150,00 a cada 2 meses, se oferecendo para testar produtos cosméticos para uma indústria.
Alguns produtos causavam alergias e problemas para quem fazia os testes.
Eu fiquei estarrecido e quis denunciar a indústria, mas elas me pediram para não tomar essa iniciativa, pois ficariam até mesmo sem os R$150,00 por bimestre.
Fiquei mais indignado ainda quando soube que esse tipo de teste é legal.
É quando o "legal" extrapola o "moral".


Dias antes do Natal de 2009 fui chamado ao bairro: elas me esperavam com um presente de Natal. Uma carteira. Foi um esforço que fizeram que trouxe para mim uma grata satisfação pelo carinho dessa comunidade esquecida.


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Campinas - 2011


Não ocorre todo dia, mas às vezes, ao fazer meu caminho em direção ao trabalho, encontro uma senhora carregando uma carroça coberta de materiais recicláveis, colhidos nos lixos das casas do bairro onde moro.


É Dona Ginalva, lider comunitária do grupo de famílias moradoras na Rua Moscou, que agora passa por urbanização.


Saio sempre cedo, pois gosto de chegar antes de meus colegas, para verificar minha agenda e programar meu dia sem a interferência do telefone, que não me permite pensar durante o dia.


Dona Ginalva já está com a carroça cheia logo cedo - não sei a que horas ela acorda, mas deve ser muito cedo.


Sua idade eu não consigo avaliar, mas já ouvi contarem que ultrapassa os sessenta anos.


Além do trabalho duro, encontra sempre um tempo para representar a comunidade onde mora.


Há algum tempo eu soube, que ela dedicou dias de trabalho para obter recursos para a compra de brinquedos para as crianças do bairro.


Me sinto pequeno diante dessa senhora.


Quando a vejo eu sempre recebo uma lição de humildade, de esperança e de persistência.


Não é preciso nenhuma palavra dela.




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