Tuesday, February 15, 2011

A luz que veio das comunidades

Um dos meus filhos, em seus momentos de rebeldia adolescente, engravidou uma jovem.
Em princípio o fato causou em mim um sentimento novo: eu seria avô.

Mas o desenrolar da história me traria muitos outros sentimentos.

No princípio ele não queria admitir, mas a razão veio aos poucos se instalando em seu coração rebelde, mostrando um filho igualmente surpreendente para mim.

Não houve pedido de DNA, apesar da jovem ser já mãe de outras duas crianças e ter um histórico no mínimo suspeito.

Ele assumiu apenas pelo fato da possibilidade - não queria ver outra criança sem pai neste mundo, igual a tantas que conhecemos e ficamos sabendo por aí.

Esse sentimento trouxe muito orgulho para mim, pelo fato de ter conseguido participar de sua educação e ver agora uma resposta tão humanitária.

Após algum tempo descobrimos, o endereço da jovem.

Fizemos contato e a conhecemos logo após o parto.

O bairro onde morava, o Residencial Vila Olímpia em Campinas era novo, e foi formado para migrar famílias antes moradores em áreas de risco ambiental.

As casas todas iguais, os nomes das ruas remetendo a esportes, como "Rua do Voleibol", "Rua do Tenis", "Rua do Judô", etc.

A jovem morava com a mãe.

Ali estava meu neto, em meio a uma comunidade, no meio do povo que eu aprendi a conviver durante tantos anos.

Meu filho, apesar de assumir a criança, sua decisão não incluiu a aceitação da mãe como sua mulher.

Foi feito um acordo: dias de semana com a mãe e finais de semana com meu filho.

Como meu filho morava comigo, eram fins de semana comigo também.

Um tempo após, fui chamado por uma assistente social que atendia o bairro para a solução de um problema sério: a empreiteira que construiu as casas empregou materiais sub dimensionados e muitas delas apresentavam problemas elétricos, com riscos de incêndio.

Por um acaso do destino, havia uma empreiteira em campo realizando reformas nas instalações elétricas em bairros na cidade e eu pude negociar o bairro para atendimento.

Foram reformadas muitas casas e, na sequencia, pudemos levar mais benefícios, como geladeiras, chuveiros econômicos e lâmpadas para as famílias.

As dívidas foram negociadas, alguns moradores conseguiram emprego nas empreiteiras e cursos profissionalizantes foram levados ao bairro.

Havia ainda um sonho: as ONGs que atuavam no local e a assistente social ansiavam pela montagem de uma sala de informática.

Consegui direcionar recursos que, somados ao esforço dos demais atores sociais, propiciaram a criação da sala de informática.

Não apenas da sala, mas das aulas gratuitas para a população.

No dia da inauguração uma surpresa: a sala de informática ganhou o meu nome, com a frase que criei - "Mais do que conhecimento, aqui se cultivam valores".

Adotei aquela comunidade de forma voluntária, e tenho ajudado em ações sociais por minha própria decisão, com doações e trabalho voluntário.

Meu neto, que mora no bairro durante a semana, está crescendo e se tornando uma luz em minha vida.

O lider do bairro, Lúcio, um rapaz que luta em sua cadeira de rodas para manter a comunidade unida e assistida, tornou-se um amigo.

Há pouco tempo o vi trabalhando numa calçada, construindo mosaicos.

Sua luta dentro da comunidade se junta à luta pela sobrevivência fora dela, sem descanso, sem tempo para olhar para suas limitações físicas - superação.

Essa foi talvez a história mais marcante em minha jornada pelas comunidades.

Um neto meu nascido no meio do povo que aprendi a amar, um presente especial trazido para me iluminar, não só a mim, mas ao meu filho.

E, como todo o avô que se preze diria: ele é adorável.

1 comment:

Flavinha said...

João,
Que bela história... isso me faz acreditar que nada é por acaso. Todo o preparo de anos e a convivência nas comunidades gerou um fruto, um anjo que traduz a igualdade e a aceitação da maneira mais simples de todas: com o amor!
Flávia Nicolau dos Santos