Sunday, September 27, 2015

NO MEU TEMPO ERA ASSIM.....

É comum ouvirmos dizer: “no meu tempo era assim..”,dito por pessoas que já não são mais jovens, mas, decidi trazer esse assunto para discussão por entender que trata-se de um engano pensar desta maneira. É interessante levantar dados para essa discussão.

Qual a proporção de jovens na população brasileira?

O gráfico a seguir, foi obtido em pesquisa ao site do IBGE e reflete os resultados alcançados no último senso brasileiro, no ano de 2010[1].



Os resultados são interessantes nessa análise e, para melhor compreensão, decidi fazer alguns  cruzamentos. A população brasileira em 2010, era de 190.755.799 habitantes e, muito embora as maiores concentrações de idade se dêem na faixa entre os 5 a 34 anos de idade (índices iguais ou superiores a 8% por faixa, somados homens e mulheres), podemos concluir que, juntos, representam 52% do total. Portanto, temos pouco mais da metade da população de jovens no país e outra quase metade de pessoas em outras faixas etárias.

O recém-criado Estatuto da Juventude, Lei 12.852/2013 - que determina quais são os direitos dos jovens que devem ser garantidos e promovidos pelo Estado brasileiro, define como jovens as pessoas com idade entre 15 e 29 anos[2].

Voltando aos números, concluiremos, portanto, que o número de “jovens” no Brasil era de 51.340.473 habitantes, oi seja, 27% da população. Isso nos remete à contrapartida de que existem 73% habitantes que não são jovens. Se retirarmos as primeiras faixas etárias, de zero a 14 anos, seremos, então, 49% compostos por habitantes “não jovens” e “não crianças”.

Mas o principal desta análise que desejo captar, é a fundamentação para a frase “no meu tempo...”.  Ora, para os vivos, este tempo presente lhes pertence, independente da idade em que se encontram.

E quanto à população economicamente ativa?

Voltemos aos números:  se buscarmos a população economicamente ativa na sociedade brasileira, no ano de 2011, chegaremos aos números expostos na tabela a seguir[3].



Vemos que a população economicamente ativa apresenta as maiores concentrações a partir dos 30 anos de idade, ou seja, os “não jovens” são os que mais encontram-se em atividade no mercado de trabalho, o que é natural e compreensível, uma vez que grande parte dos jovens está em formação profissional.

Mas, se os jovens não são maioria, nem em presença, nem em atividade econômica, como os “mais velhinhos” podem dizer “no meu tempo era assim...”? 

Essa frase me parece mais ligada à memória de um tempo em que se a pirâmide etária era diferente: é verdade que a população está “envelhecendo”, as pessoas estão vivendo mais e com mais qualidade, são “produtivas” por um período maior de tempo e um número menor de crianças tem nascido, numa tendência que aponta para um futuro com menos jovens e mais adultos ou idosos.

Mas, existem mais facetas nesse discurso que merecem nossa atenção, como o fato de que as tecnologias de comunicação e conectividade, tidas como a marca das novas gerações, ser fruto de pesquisas e processos liderados por pessoas de gerações anteriores, muitos deles ainda vivos e atuantes, como, por exemplo, o tão conhecido Bill Gates, atualmente com 59 anos de idade.

Neste momento histórico, o que pode representar a diferença de gerações, são certos traços comportamentais, mas, dizer que o tempo atual pertence aos jovens é um grande equívoco, assim como pensar que, sendo “não jovem”, você está fora de seu momento no mundo é igualmente errôneo.

O “meu tempo” é agora, assim como o é para pessoas de qualquer idade: estamos vivos, atuantes e, muitos de nós, economicamente ativos, portanto, somo protagonistas deste momento e do futuro, quando desenvolvemos novos projetos.

O que talvez tenhamos a refletir é o desrespeito crescente com os mais idosos, que deixaram de ser tidos como conselheiros para serem tidos, muitas vezes, como cidadãos desatualizados, improdutivos e, portanto, descartáveis.

Vamos rever nossos conceitos acerca de “nosso tempo”?

Tuesday, September 08, 2015

HISTÓRIAS URBANAS – episódio 3



Para aqueles que não me conhecem, cabe a repetitiva introdução: trabalho no Núcleo Social da Companhia Águas de Joinville – empresa de saneamento municipal - e minha missão é o atendimento a pessoas com problemas socioeconômicas e ou com problemas de mobilidade. Visito muitas famílias na cidade e decidi registrar as histórias vividas nesses contatos diários.

Esse episódio é dedicado ao Loteamento José Loureiro, região que já foi uma ocupação em que famílias construíram casas rústicas encima do mangue.

No início, o local era conhecido como Juquiá. Procurei o significado desse nome e encontrei as seguintes descrições:

“... Juquiá (que em tupi-guarani significa “corvo de boca larga”, para alguns estudiosos, e/ou “rio sujo e armadilha para pescar peixe”, para outros).[1]

“O nome Juquiá, em Tupi-guarani, significa "rio sujo" ou "armadilha para peixe". instrumento de pesca muito utilizado pelos índios.[2]


Uma moradora local, entretanto, revelou-me que esse nome, “Juquiá”, significa “toca de carangueijo”, o que era tido como pejorativo e preconceituoso para as famílias que ali moravam.

Em algum momento, a Secretaria de Habitação nomeou o local como Loteamento José Loureiro, em homenagem a um religioso já falecido, atuante na cidade pela Igreja Assembleia de Deus.

Antes de prosseguir, preciso adiantar as razões que me levaram a esse local. A Secretaria de Habitação de Joinville está desenvolvendo um trabalho de regularização dos lotes, o que significa a tentativa de dar aos moradores, num futuro ainda incerto, a possibilidade de obterem a escritura definitiva de posse do local onde habitam. A empresa de saneamento foi chamada a ser parceira na identificação das famílias e para a indicação daquelas que ainda não tiveram acesso à água de forma regular, pela impossibilidade de acesso a documentação fiduciária.

Nem todas as quadras foram contempladas, mas, em três semanas, realizamos a visita a 371 famílias, num trabalho porta-a-porta, ocasião em que histórias curiosas surgiram, algumas delas decidi trazer ao conhecimento do leitor.

O ÍNDIO

O bairro Loteamento José Loureiro não possui Associação de Moradores. Quem os representa é o presidente da Associação de Moradores do bairro Ulysses Guimarães, o Sr Antenor, mais conhecido como o “Índio”.
Conversei com o “Índio” no dia 20 de julho de 2015, na Cia. Águas de Joinville, ocasião em que o mesmo me revelou ser, de fato, descendente de índios.

Quando entramos no bairro, um pensamento me veio à mente: estou num local que pode ter sido dos índios, antes da colonização, tendo sido tomado pelos colonos e hoje é considerado como área irregular, tendo um índio como representante, que busca a sua regularização. O índio antes proprietário é hoje considerado um “invasor”, que luta pela posse de sua terra. Isso é curioso, senão irônico.

Apesar do “Índio” dizer-se responsável pelos benefícios levados ao bairro até o momento presente, no Loteamento José Loureiro não encontramos muitas pessoas que o conhecessem.

Como sempre ocorre quando entro em um bairro em processo de regularização, ouço pessoas (de fora) me alertando sobre o perigo em andar pelo local, sobre moradores estereotipados, coisa que nunca encontrei, de fato, salvo situações de exceção. Não foi diferente nesse lugar: o bairro é um caldeirão de pessoas com situações socioeconômicas distintas. Encontramos pobres, mas, também encontramos muitas famílias de classe média e alguns com renda elevada. Qualquer tentativa de descrição dos moradores de maneira homogênea está condenada ao insucesso. O comércio se apresenta muito presente, como resultado de protagonismo de sobrevivência, mas, existem mercados já de médio porte, em ruas asfaltadas.
Muitas famílias vivem da reciclagem.

A ocupação continua em curso, com novas casas sendo levantadas e desenhando novas quadras no mapa do bairro “não oficial”.



JIBATAS ou JABIRACAS

Tobatas são pequenos tratores, mas, no Loteamento José Loureiro, serviram de inspiração para carros muito criativos.

Chassis de Chevette, motor de motocicleta 125 cilindradas, cambio com marcha ré e freio de mão, carroceria de metal e madeira: um carro feito do resto de outros, que carrega até 1 tonelada de recicláveis. Segundo o seu proprietário, “só não dá pra subir ladeira”.




A partida é dada no pedal, na frente do veículo, como se faz com as motos de pequeno porte.




Assim são esses veículos que circulam pelo bairro, carregando materiais descartados para locais onde serão separados e vendidos para reciclagem.

Alguns são fabricados por seus proprietários, mas, um morador me disse que são comprados em cidades vizinhas. Encontrei três versões: além da descrita antes, as outras duas usam motores de tobatas, motivo do apelido de “Jibatas”, que seria o resultado híbrido de Jipe com Tobata.

Criatividade sem fim, os bancos são de ônibus, com apoios para os braços, volantes esportivos e outros acessórios, tudo, é claro, muito rústico, quase um carro dos Flintstones da era contemporânea, dispensando os pés humanos para se deslocar.






A CASA SOBRE PEIXES

Encontrei uma casa, construída em madeira sobre o mangue, o que não seria novidade, senão pelo fato de seu construtor não ter tido o cuidado de aterrar o local. Assim, corre um veio de água debaixo da casa e, segundo o morador, foi retirada parte do piso da sala, onde é possível que se vejam peixes passando por debaixo. Não consegui registrar essa cena, mas fiquei contente em fotografar uma carcaça de peixe que o morador diz ter sido pego por cães dentro de sua casa.








“SEO ANTONIO” E SEU “NETO”


Numa das visitas, encontramos um senhor que estava sentado numa cadeira em frente de sua casa. Após conversarmos com ele, questões sobre cadastramento, ele me chamou para que conhecesse “seu netinho”. É comum esse tipo de envolvimento em nossas visitas, onde, via de regra, somos recebidos com muito carinho pelas famílias. Entretanto, o “netinho” do Seo Antônio não era humano, mas um “pintinho”. Na casa, dentro até mesmo de um armário no quarto, galinhas chocam ovos e alguns pintinhos recém-nascidos. Seo Antônio fez questão de ser fotografado com seu “netinho”.



O contato com comunidades é sempre enriquecedor, bastando o olhar atento e o deixar se levar pelas divertidas situações que se desenrolam diante de nós, mostrando que nosso mundo é muito mais interessante do que podemos imaginar e que muito se pode descobrir num raio de poucos quilômetros de onde moramos.