Monday, April 30, 2012

Resenha do livro "Pelas Tramas de Uma Cidade Migrante"

 COELHO, Ilanil. - Joinville: Ed. Univille, 2011.



Graduada em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos(UFSCar) e Doutora em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Professora no Curso História e no Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade da Univille, Coordenadora do grupo de pesquisa Cidade, Cultura e Diferença, Ilanil Coelho aborda no livro “Pelas tramas de uma cidade migrante” a evolução da cidade de Joinville a partir dos anos de 1980, do ponto de vista das correntes migratórias que colocam então em cheque a pretensa hegemonia histórica teuto-brasileira, a qual também problematiza.

Tema de sua tese de doutorado, a autora percorre as festas etnográficas e desenvolve, através de um olhar isento e científico, resultante de sua formação e de ser ela própria uma migrante, uma profunda análise sobre o multiculturalismo observado no tempo presente, suas raízes e suas dimensões.

Tive a grata oportunidade de dialogar com a professora llanil Coelho, como aluno no curso de mestrado na Univille, quando obtive algumas observações que complementam esta resenha.

A autora insere o leitor em sua pesquisa, colocando claramente os objetivos centrais de seu trabalho:

[...] busquei discutir os fluxos contemporâneos que passaram a atravessar a cidade a partir da década de 1980. As festas que estudei constituíram uma opção de trajeto que me levou a analisar, entre outras questões, as formas de apropriação e de criações que exprimiram diferentes práticas e sentimentos de pertencimento sobre o urbano. (P.115)

Revela que sua intenção foi procurar quem seriam as pessoas que teriam organizado o evento, quais as suas intenções, o que desejavam expor daquela tradição.

Coelho esclarece ainda seu objetivo de contextualizar o seu problema: identidades e identificações urbanas, perguntando-se sobre os movimentos migratórios -, como é que essas pessoas se apropriam da cidade (de Joinville)?

Escreve a autora que:

[...] a “paisagem” da minha pesquisa engloba a busca e a indicação de alguns pontos de referência para explicar Joinville como lugar praticado pelos joinvillenses, migrantes ou não. (P.19)

A Festa das Tradições em 2006, foi escolhida como primeira entrada no tema proposto.

Coelho relata que tinha um projeto de doutorado, onde a questão era obter as lembranças, as transformações urbanas a partir da década de 80, relacionadas com os movimentos migratórios e as formas como esses migrantes estavam produzindo as suas identidades, os seus vínculos de pertencimento com a cidade.

Quando chegou em Joinville (vinda de São Paulo), a representação que a cidade oferecia era de que era uma cidade alemã, o que era desmentido pelos jornais, que exaltavam a Festa das Tradições como demonstração de que Joinville se trata de uma cidade de diversidade cultural, uma cidade cosmopolita.

Evoluindo de festas anteriores, como a Fenachopp, (tentativa de reproduzir em Joinville o sucesso da Oxtoberfest de Blumenau), trata-se de um momento de espetacularização da cultura e a autora percebe na Festa das Tradições, observando os estandes expostos, uma comunidade imaginada.

Nos diversos estandes, o que se apresentava era um misto de memórias de outras nações apresentados como objetos de consumo, sem alusão à migração interna.

A autora explica que: sou paulista, mas, no contexto desse discurso, sou identificada como descendente de italianos. Prossegue a autora: parece que Joinville não consegue se olhar sem os óculos da etnização.

As manifestações etnográficas apresentadas na Festa das Tradições tentam atravessar e interconectar fronteiras territoriais, culturais e históricas, produzindo culturas híbridas, sob roupagem e impulso unificadores.(P.35)

O típico era digerido como fast-food.(P.82) coloca a autora, identificando a forma como são apresentadas as tradições.

Revendo a história, revisita a década de 80, quando os migrantes, antes vistos como solução para a mão de obra na indústria, passam a serem vistos como problema, quando a indústria reduz suas vagas em função de novas tecnologias.

O desemprego, aliado à chegada de novos migrantes em busca de uma realidade já não mais sustentada, leva a ocupação de bairros periféricos, causando a desestruturação no espaço urbano que ocupam, uma vez que a cidade não oferece meios para receber esse novo tipo de morador.

Nos anos 90, o desafio é inserir Joinville nos círculos globais, no mercado mundial das cidades.

É preciso criar empregos no setor de serviços, no comércio e o turismo pode ser a solução para a inclusão social.

O turismo, entretanto exige que a cidade tenha a sua identidade, que seja atrativa pela sua diferença, e essa identidade deve ser trazida do passado, de sua história, ainda que essa “história” seja idealizada.

A busca pela identidade, entretanto, revela conflitos e tensões expressos nos discursos colhidos e pela literatura histórica existente: Se para Ternes- (Apolinário Ternes, historiador)- era impossível desvincular a história da cidade da saga dos imigrantes alemães e seus descendentes, para Souza – Wilmar de Souza, presidente da Fundação Turística de Joinville (Promotur), entrevistado por Coelho na Festa da Tradições em 2008 – bastava “olhar” para essa história e constatar que “nunca foi alemã de fato”. (P.38)

Na Festa das Tradições, as entrevistas realizadas em cada estande revelam as tensões identitárias, a busca do pertencimento de cada grupo presente através de seus discursos e leituras feitas da história de Joinville.

A autora pesquisou também outras manifestações culturais como a Festa do Arroz e a Festa da Polenta, onde a configuração se diferencia da Festa das Tradições pelo fato de envolver leituras locais nas expressões populares em contrapartida à intencionalidade de fixar ideais multiculturais desta última.

Coelho prossegue sua pesquisa propondo um diálogo com os historiadores locais, como, por exemplo, Durval Muniz de Albuquerque e Apolinário Ternes, que relatam, cada qual de seu momento histórico e posição política, as origens da cidade.

Revela nos trabalhos realizados por esses historiadores e em dissertações sobre o tema da migração, as tensões existentes entre aqueles que atribuem às origens étnicas germânicas a criação de uma cidade pungente, aqueles que creditam essa visão ao pensamento elitista que reforça a dominação política na cidade e aqueles que por fim questionam a imagem étnica considerando o multiculturalismo presente desde a fundação da cidade.

As diversas tensões identitárias são verificadas na história oral dos moradores que se apropriam da história dos bairros, movimentos sociais, etnográficos e de opção sexual.

Essas tensões demonstram em certos momentos, a visão do migrante interno que, diferentemente do migrante trans-oceânico (aliado ao mito fundador), carrega a imagem de pobre, de pouca cultura e ligado à violência e transtornos sociais.

As tramas as quais sustentam o tecido social na cidade, revelam uma Joinville em constante movimento migratório, oriundo não mais de países europeus, mas de diversos pontos do Brasil, mudando rapidamente a paisagem e criando tensões que com as correntes políticas e mercadológicas que buscam por uma identidade imaginada, uma Joinville que talvez nunca tenha existido, mas que venha a alimentar sua sustentabilidade futura.

Estudos trazem cenários de uma nova e crescente população excluída, alijada dos benefícios e belezas da cidade somente desfrutadas pela população situada nas zonas nobres e tradicionais.

No capítulo III, a autora revela em números o movimento migratório e suas origens, a partir de 1980 até o ano 2000.

Nesse período, a maior parte da população é de origem do Sul, mas, em segundo lugar e em números crescentes, aparece a região Sudeste, que triplicou no período estudado.

Dentro da população do Sul, em primeiro lugar aparecem os Catarinenses, mas em segundo lugar vêm os Paranaenses, com expressivo crescimento no período, tendo quintuplicado a sua população em Joinville.

Desenrolam-se nesse capítulo entrevistas com migrantes, onde se obtém um rico material capaz de dialogar com os cientistas sociais com influência no pensamento contemporâneo.

Os discursos se mostram não somente como relatos de pertencimento às origens, mas também os de pertencimento aos bairros e lugares de vivência na cidade.

Impressões, estranhamentos e percepções são colhidas dos diferentes atores sociais e com as diversas esferas de contexto social, envolvendo migrantes, moradores locais, lideranças políticas entre outros.

Ao referir-se à migração nordestina, conclui brilhantemente que “o narrador, ao explicitar os sentidos e os sentimentos de pertencimento, quer que a sua narrativa traia um ordenamento territorial urbano imposto (preestabelecido). Insinua que as suas distintividades e os seus trajetos (lugares praticados) são dotados de força o suficiente para propor uma nova referência de colonização do espaço – um novo mapa -, no qual almeja subsumir outros trajetos, outros lugares e outras práticas cotidianas daqueles que pensa serem seus semelhantes e seus diferentes.” (P.111)

Diferenças são abordadas, como a questão do homossexualismo, narrado em entrevista com Charles Narloch, filiado da Associação Arco Iris, sempre do ponto de observação da construção das diferentes identidades na sociedade Joinvillense, muitas vezes mediante processos de grande sofrimento e enfrentamento.

Em entrevista com Silvestre Ferreira, migrante, criador e dirigente da Companhia Dionisos de Teatro, no momento em que se encenava na cidade a peça “Migrantes”, discorre sobre a importância do tema que, segundo Silvestre, é trabalhado sobre as memórias pessoais, consideradas como “O esqueleto”, que nos mantém em pé. (P. 245).

Silvestre demonstra a intenção de provocar a sociedade sem, entretanto, assumir o compromisso de um posicionamento histórico, colocando em sua entrevista que “o papel da arte é deslocar”, deixando que as conexões sejam feitas (ou não) livremente por parte dos seus espectadores.

Em suas conclusões, após o longo percurso de sua tese, a autora propõe que a Festa das Tradições, início de sua incursão no tema da migração em Joinville, demonstra que “a invenção de tradições fundada na invenção de passados étnicos consistia numa operação articulada aos processos de produção global da localização” (P.255)

As tramas as quais sustentam o tecido social na cidade, revelam uma Joinville em constante movimento migratório, oriundo não mais de países europeus, mas de diversos pontos do Brasil.

Mudando rapidamente a paisagem e criando tensões que, com as correntes políticas e mercadológicas que buscam por uma identidade imaginada, tentam expor uma Joinville que talvez nunca tenha existido, mas que se pretende que venha a alimentar sua sustentabilidade futura.

Ao encontrar hibridismos, interpretações de subjetividades, sentimentos de pertencimento e diferenças culturais, defende Joinville como essencialmente migrante, mas esclarece que a deslizante teia que envolve essas manifestações, formam tramas que deixam abertas portas para novos estudos.

Leitura obrigatória para aqueles que desejam se aprofundar nos movimentos sociais e históricos em Joinville, o livro consegue também proporcionar uma leitura agradável e picante, deixando no leitor o que entendo como maior característica da autora: o desconforto das incertezas e o sentimento da necessidade de ampliar as discussões.

Trabalho elaborado por João Abeid Fillho

Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade - Turma IV

Univille

24/04/2012

Thursday, April 19, 2012

A ARTE DE CAMINHAR....


as pessoas costumam andar olhando para baixo, lugar onde um dia todos iremos e fim de todas as coisas

deviam olhar para a frente, para fixar objetivos

olhar para os lados, para perceberem a riqueza do caminho, que é onde se constroi a sabedoria

sempre que possível, olhar para cima, para lembrarem de onde viemos

e, às vezes, olhar para traz, para que não se percam as identidades

João Abeid Filho




Sunday, April 01, 2012

MUDANÇAS CLIMÁTICAS SOB A ÓTICA DA SUSTENTABILIDADE

INTRODUÇÃO


Tema que exige um olhar multidisciplinar, pensar em sustentabilidade significa, antes de tudo, rever paradigmas culturais que nos levem a uma nova visão de consumo: o consumo sustentável. Mas este requer uma ruptura com o pensamento consumista e globalizador atual.

As soluções apontadas em alguns estudos, como veremos a seguir, trazem-nos a importância da visão local para a compreensão e solução dos problemas ambientais atuais e futuros. Um conceito que se impõe de maneira evolutiva é a associação do homem no contexto da natureza, levando os cientistas a considerar a ecologia como um tema que envolve as questões sociais e econômicas.

O homem não mais teme a natureza, assim como não mais a subjuga, passando a ser visto como parte dessa natureza, buscando o equilíbrio na intervenção benéfica e não exploratória, como fórmula de garantir o futuro da espécie. A cultura então passa a ser indispensável para o desenvolvimento de uma sociedade sustentável, através de soluções locais, manifestações e valorização das etnias, assim como a educação e a comunicação midiática.

Nessa nova visão, a globalização e seus conteúdos de consumo perdulário se contrapõe às soluções viáveis para a sustentabilidade.

O consumo consciente, tendo como base uma grande mudança cultural e educacional, deve ser conduzido paralelamente a uma produção sustentável, voltada para as necessidades básicas, contrariamente à visão capitalista do consumo pelo consumo.



CENÁRIOS



Segundo Relatório da ONU, divulgado pela ONG Akatu (Instituto Akatu pelo Consumo Consciente - http://www.akatu.org.br/Temas/Sustentabilidade/Posts/Relatorio-da-ONU-reforca-urgencia-na-busca-pela-sustentabilidade), a extinção de espécies é a mais rápida da história.

“O relatório foi preparado por cerca de 390 especialistas e revisado por mais de mil estudiosos em todo o mundo” - revela que “mais de 30% dos anfíbios, 23% dos mamíferos e 12% dos pássaros estão ameaçados”. A razão apontada para esse cenário reside, em maior grau de importância, na busca de fontes de energia alternativa através do uso de espaço agrícola. Os peixes também estão ameaçados pelo aumento no consumo, que já se encontra em níveis maiores do que a capacidade de reposição dos oceanos. Por fim, se prevê um aumento no consumo de água, que perde cada vez mais a sua qualidade, para os próximos anos.

Esse rápido cenário foi escolhido para introduzir o tema alvo desta pesquisa pelo fato de sintetizar com dados contundentes, o momento em que nossa civilização vive e as consequências das ações desenvolvidas pelo ser humano em seu processo de desenvolvimento tecnológico e espacial.

O crescimento populacional e o consumo irresponsável e excludente são os principais fatores que alimentam esse cenário, insuflado por um sistema econômico e social que privilegia o capital e despreza o meio ambiente, colocando em risco a sobrevivência de inúmeras espécies vivas, em suas mais variadas formas de classificação biológica, e levando a espécie humana ao mesmo destino.



RACIONALIDADE AMBIENTAL NA VISÃO DE LEFF E CIDADES SUSTENTÁVEIS NA VISÃO DE CANCLINI



A racionalidade ambiental aparece como um novo modelo econômico, introduzindo a natureza como elemento integrado às questões sociais, produtivas e políticas.

Assim sendo, a produção se basearia numa “eco-tecnologia”, voltada a sustentabilidade ambiental.

Guillermo Foladori, Professor Visitante no Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da UFPR, faz resenha de leitura sobre Leff (Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-753X2000000100010)



Leff parte do pressuposto de que as sociedades "modernas", tanto capitalista quanto socialista, seriam produtivistas e antiecológicas. Tratar-se-iam de sociedades nas quais a natureza não é considerada dentro da racionalidade econômica e, portanto, seriam insustentáveis. A busca de uma racionalidade ambiental tem como objetivo detectar aqueles elementos que possam se constituir em base de uma estratégia produtiva alternativa, onde a natureza se integre à lógica produtiva.



Outro aspecto importante em Leff, é a visão do consumo para atendimento às necessidades básicas, em contraponto ao modelo econômico atual, onde o consumo exacerbado gera desequilíbrios ecológicos por razões fúteis.

A racionalidade social traria uma democracia direta em contraposição ao modelo atual representativo, meio decisório da gestão ambiental, onde os diversos segmentos e extratos sociais participariam com propostas de soluções sustentáveis, o que garantiria uma maior efetividade nas ações, além de permitir soluções caseiras e mais eficazes.

Leff defende o conceito de “Localismo”, onde os processos econômicos se baseiam em critérios que migram do local para o global, sentido este inverso ao atual modelo, cuja direção vem do global para o local.

Segundo Leff (Racionalidade Ambiental, pág. 405):

A racionalidade econômica gerou uma concepção do desenvolvimento das forças produtivas que privilegiou o capital, o trabalho e o progresso técnico como fatores fundamentais da produção, desterrando de seu campo a cultura e a natureza.



Os resultados nefastos para a sociedade e para o meio ambiente, originados dessa postura aumentam a miséria e exclusão social no mundo e a degradação do meio ambiente em níveis ameaçadores.

Com a pós-modernidade, novos valores começam a se estabelecer, como as políticas de desenvolvimento sustentável e a visão da diversidade ecológica e cultural como um princípio ético. Conforme Leff (Racionalidade Ambiental, pág. 408):

A construção de uma racionalidade ambiental encontra, assim, suas raízes mais profundas na cultura, entendida como a ordem que entretece o real e o simbólico, o material e o ideal, nas diferentes formas de organização social dos grupos humanos em comunidades e nações, nas formas diversas em que suas linguagens e suas falas dão significado aos territórios que habitam e à natureza com a qual convivem e coevoluem.

A racionalidade energética passa a ser parte importante dessa nova era, juntamente com a racionalidade econômica, de maneira a se buscar o equilíbrio sustentável. Leff (Racionalidade Ambiental, pág. 428) postula que:

A incorporação da cultura e da diversidade cultural na perspectiva do desenvolvimento sustentável abre três possíveis vias de interpretação: A emergência de uma cultura ecológica; (...) A integração da cultura às condições gerais da produção (...); Como um princípio ético-produtivo do desenvolvimento e das forças produtivas em um paradigma alternativo de produção.



É interessante verificar que as origens dos problemas ambientais, em grande parte relacionadas com ações culturais resultantes de sistemas econômicos predatórios, requerem agora, segundo o autor citado, que as sociedades redefinam os modelos de economia de maneira a estabelecer novos interesses e formas de sobrevivência que respeitem paradigmas de valores sustentáveis.

Leff conclui que:

A preservação de identidades étnicas e dos novos valores tradicionais das culturas, o arraigamento a suas terras e seus territórios étnicos constituem suportes para a conservação da biodiversidade – do equilíbrio, da resiliência e da complexidade dos ecossistemas -, estabelecendo-se como condição de sustentabilidade da sua produtividade. (LEFF, Racionalidade Ambiental, pag. 429)

A cultura ecológica emerge na narrativa da globalização como uma consciência conservacionista diante da racionalidade econômica produtivista e perdulária. O discurso da sustentabilidade tende a atribuir à cultura – e às culturas – uma vontade e uma capacidade intrínseca de preservação do meio ambiente em que habitam como uma experiência vivida de conservação cultural, como uma faculdade e um mecanismo adquirido no processo de evolução ecocultural. E, no entanto, a cultura funciona como uma ‘superestrutura’ da base orgânica da vida que assegura sua reprodução através de processos de adaptação e transformação, onde as leis de conservação e evolução se refletem nas cosmovisões e práticas culturais do uso da natureza. (LEFF, Racionalidade Ambiental, pag. 435).

.

Como seria possível estabelecer esses paradigmas culturais uma vez que o atual sistema é sustentado pelo poder econômico nos mercados globais?

Sobre esta questão Canclini (O papel da cultura em cidades pouco sustentáveis, pág. 185) nos traz a seguinte reflexão:

[...]os recursos culturais, a atenção à diversidade de culturas presentes em cada urbe e a promoção da arte, os espetáculos e os meios de comunicação podem contribuir decisivamente para o desenvolvimento e a sustentabilidade das cidades.



Sobre a desconstrução/degradação das cidades da América Latina, Canclini (LATOUCHE, 1989 Apud CANCLINI, O papel da cultura em cidades pouco sustentáveis, pág. 186 e 187) atribui a “informalidade”, como o mecanismo desintegrador, entendida como “o provisório tende a se tornar definitivo”.

A insustentabilidade nesse texto é vista como a incapacidade de inclusão social nas cidades, gerando multidões de excluídos que se estabelecem em atividades irregulares com tendências ao crime e à corrupção política.

CONCLUSÕES


A exploração do planeta como forma de desenvolvimento humano é questão histórica e marca das civilizações até os dias de hoje.

Entretanto, a superpopulação e os efeitos nocivos dessa cultura, aliados à globalização, chegam a um limite para a sobrevivência humana no planeta.

Não há como garantir a vida humana para as próximas gerações, no modelo atual de produção, voltada a exploração irresponsável.

As soluções, segundo as leituras realizadas neste estudo, passam por:

- A emergência de uma cultura ecológica;

- Educação;

- Conscientização;

- Integrar a natureza dentro da racionalidade econômica e social;

- Integração da cultura às condições gerais da produção;

- Busca de uma racionalidade ambiental – natureza integrada com a lógica produtiva:

- Eco tecnologia;

- Produção para satisfação de necessidades básicas;

- Racionalidade social: re-apropriação social da natureza, a gestão direta dos recursos naturais estaria baseada em práticas tradicionais resultantes das cosmovisões e culturas que têm um comportamento mais harmônico (sustentável) com a natureza;

- Mitigação dos impactos;

- Ecologia política;

- Mudança de paradigmas;

-Fim das cidades-espetáculo, emblemas de globalização e do consumismo;

-Fim das cidades paranóicas, símbolos da exclusão social, da informalidade e da corrupção;

- Surgimento das cidades de racionalidade sócio ambiental;

O mundo atual defronta-se com uma situação nova, em que todo o esforço histórico pelo desenvolvimento e geração de riquezas se vê incompetente para seguir em frente – os modelos econômicos, culturais e sociais não conseguem dar conta da saúde e sobrevivência da humanidade.

O grande problema é cultural e econômico. No modelo atual, pensamos em desenvolvimento social aliado ao acesso ao consumo. As classes sociais são definidas pelas suas posses, ou seja, pela sua capacidade de consumir.

Da mesma forma, o sucesso econômico está associado diretamente à capacidade produtiva. Então temos de um lado as pressões produtivas pelo consumo e por outro lado o desejo de inclusão de uma população seduzida por esse mesmo consumo. Numa sociedade hedonista, voltada ao conforto pessoal, essa situação torna-se de difícil solução.

Vencer o desafio de melhor distribuir renda através de um novo modelo econômico voltado para a sustentabilidade parece ser uma tarefa hercúlea.

Somente a construção de novos valores culturais, sociais e uma nova lógica mercadológica seriam capazes de redirecionar nosso futuro para um modelo sustentável.

Neste momento porém, as ações positivas são desconectadas das ações em contrário, estas últimas ligadas à luta dos países ricos em manter as suas posições de poder econômico.

Seria a natureza, através de suas manifestações e reações às agressões infringidas pelo homem, a última agente histórica a investir na tentativa de construção de uma sociedade mais justa e igualitária, respeitosa às manifestações locais e sustentável? Ou estaríamos todos condenados a enfrentar novas catástrofes que venham a aniquilar grande parte da população mundial, ou até mesmo o desaparecimento da espécie humana?

O mais curioso de tudo parece ser o fato cada vez mais incontestável de que a natureza e o homem são parte de um mesmo equilíbrio e que o desrespeito a esse equilíbrio pode levar ambos ao caos.

REFERÊNCIAS

CANCLINI, Néstor Garcia - O papel da cultura em cidades pouco sustentáveis.

 

LEFF Enrique, Racionalidade Ambiental.

Guillermo Foladori, Professor Visitante no Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da UFPR, faz resenha de leitura sobre Leff (Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-753X2000000100010)


Saturday, March 03, 2012

A CARTA DO CHEFE DE SEATLE E A RACIONALIDADE AMBIENTAL, NA VISÃO DE ENRIQUE LEFF


por: João Abeid Filho


RESUMO


“Em 1854, "O Grande Chefe Branco" em Washington fez uma oferta por uma grande área de território indígena e prometeu uma "reserva" para os índios. “

Assim começa a carta que teria sido escrita por um índio ao presidente dos EUA, onde é colocada a questão ambiental e social sob um prisma atual e que sensibiliza-nos ainda hoje pela sua poesia e ideologia que a acompanham.

Existem controvérsias a respeito de sua autenticidade, as quais citaremos neste estudo, mas o foco recai sobre as similaridades dos argumentos textuais com os postulados de Enrique Leff sobre a “racionalidade social” e sobre a (in)sustentabilidade das cidades contemporâneas,

Tentaremos expor o pensamento de Leff e os tópicos apontados na Carta, traçando assim um paralelo entre essas duas fontes de pensamento sobre as cidades e suas relações com o meio ambiente e com a sociedade.


PALAVRAS CHAVE: Racionalidade ambiental, Meio Ambiente, Sustentabilidade.


1. INTRODUÇÃO

Enrique Leff, Economista mexicano, doutor em Economia do Desenvolvimento pela Sorbonne (1975), é professor de Ecologia Política e Políticas Ambientais na Pós-Graduação da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e, desde 1986, coordenador da Rede de Formação Ambiental para a América Latina e Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA .

Leff traz o conceito da racionalidade ambiental, como solução para a crise ambiental e social que ameaça o planeta.

Crítico ácido dos modelos econômicos como o capitalismo e mesmo o socialismo em prática na contemporaneidade, Leff aponta as distorções que seriam a causa da degradação sócio ambiental e suscita-nos a pensar num novo modelo, onde a natureza integre o modelo econômico, como maneira única de preservação da espécie humana.

Com o olhar voltado para sua teoria, analisaremos a “Carta do chefe de Seatle”, que teria sido escrita no ano de 1854 ao então presidente dos Estados Unidos, em resposta a uma suposta manifestação de interesse pela compra das terras ocupadas pelos índios.

Essa Carta tem sido muito divulgada pelos meios de comunicação e pode ser considerada como uma “bandeira” da causa ambientalista muitas vezes exposta como argumentação para ações de preservação e consciência ecológica.

Observando possíveis pontos de convergência ideológica entre a Carta e o pensamento contemporâneo, expresso por Leff, aprofundaremos o tema da sustentabilidade sócio ambiental.

Os resultados esperados serão uma compreensão maior sobre os problemas ambientais criados pelas cidades, pelos modelos econômicos, suas consequências as propostas apontadas nessas leituras para a sua solução.

2. DESENVOLVIMENTO

Enrique Leff considera que as sociedades sejam elas socialistas ou capitalistas, não consideram a natureza em sua racionalidade e, por essa razão, são insustentáveis.

Não estão preparadas para pensar as futuras gerações e muito menos seriam capazes de preservar o planeta e sua biodiversidade.

“”Como você pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? A idéia é estranha para nós.

Se nós não somos donos da frescura do ar e do brilho da água, como você pode comprá-los?

Cada parte da Terra é sagrada para o meu povo. “

Esse trecho da Carta do Chefe de Seatle, traz o conceito da sacralidade da terra na cultura de sua tribo.

O sentimento do sagrado, que não parece pertencer mais a contemporaneidade, pode explicar o respeito e o cuidado com a terra e sua criação daquela nação indígena, a ponto de causar estranhamento a “compra” dessa terra, proposta pelo presidente dos EUA.

Seria talvez uma fórmula para integrar a natureza na cultura e criar um modelo econômico sustentável : sacralizar o planeta?

“A energia que flui pelas árvores traz consigo a memória

e a experiência do meu povo.

A energia que flui pelas árvores traz consigo as memórias

do homem vermelho. “

Aqui , a memória do povo, patrimônio cultural na lógica política nacionalista, flui dos elementos naturais: a Terra seria o patrimônio que abrigaria a história do povo e, portanto, a maior expressão de pertencimento social .

“Os mortos do homem branco se esquecem da sua pátria quando

vão caminhar entre as estrelas.

Nossos mortos nunca se esquecem desta bela Terra,

pois ela é a mãe do homem vermelho.

Somos parte da Terra e ela é parte de nós.

As flores perfumadas são nossas irmãs, os cervos, o cavalo,

a grande águia, estes são nossos irmãos.

Os picos rochosos, as seivas nas campinas, o calor do corpo do pônei,

e o homem, todos pertencem à mesma família. “

Esse texto parece coincidir com o que Leff sugere, quando diz que:

“A busca de uma racionalidade ambiental tem como objetivo detectar aqueles elementos que possam se constituir em base de uma estratégia produtiva alternativa, onde a natureza se integre à lógica produtiva.”

Seriam os índios Seatle, vivenciadores dessa lógica já em 1854?

Vivendo um modelo de cultura de consumo pelas suas necessidades básicas e respeitando a natureza como parte de sua “família”, os índios estariam então nos mostrando uma forma de civilização sustentável,

Leff postula que a Racionalidade Social teria como um de seus pilares, uma produção destinada à satisfação das necessidades básicas, a qual seria contrária a lógica do mercado.

Na sequência, a Carta revela:

“A água brilhante que se move nos riachos e rios não é

simplesmente água, mas o sangue de nossos ancestrais.

Se vendermos a terra para vocês, vocês devem se lembrar de que

ela é o sangue sagrado de nossos ancestrais.

Se nós vendermos a terra para vocês, vocês devem se lembrar de que

ela é sagrada, e vocês devem ensinar a seus filhos que ela é sagrada

e que cada reflexo do além na água clara dos lagos fala de coisas

da vida de meu povo.

O murmúrio da água é a voz do pai de meu pai.”

A cultura indígena expressa aqui a estreita ligação dos seus indivíduos com a natureza, interpretando suas manifestações como meios de comunicação dos ancestrais.

Leff cita mais um pilar da defendida Racionalidade Ambiental: “uma racionalidade social diferente da mercantil- produtivista. Essa nova racionalidade deveria basear-se numa reapropriação social da natureza, a partir de formas de democracia participativa direta —não a tradicional democracia representativa.”

Aqui se percebe uma diferença de interpretações culturais.

Na tribo de Seatle, a natureza é a representação do sagrado e a sustentabilidade advém de uma relação mítica e de interpenetração, onde o homem se integra a ela através da vós dos antepassados e das manifestações dos animais.

Na lógica de Leff entretanto, a relação do homem com a natureza é política, propondo que a sustentabilidade adviria da participação de todos nas decisões e nas propostas de vida sustentável.

“Os rios nossos irmãos saciam nossa sede.

Os rios levam nossas canoas e alimentam nossas crianças.

Se vendermos nossa terra para vocês, vocês devem lembrar-se de

ensinar a seus filhos que os rios são irmãos nossos, e de vocês,

e consequentemente vocês devem ter para com os rios o mesmo

carinho que têm para com seus irmãos. “

Aqui os índios demonstram que a relação harmônica com a natureza deve ser passada , como cultura, às gerações futuras.

Nesse ponto, a educação demonstra seu papel importante no processo de sustentabilidade.

“O túmulo de seu pai, e o direito de primogenitura de seus filhos

são esquecidos.

Ele ameaça sua mãe, a Terra, e seu irmão, do mesmo modo, como

coisas que comprou, roubou, vendeu como carneiros ou contas brilhantes.

Seu apetite devorará a Terra e deixará atrás de si apenas um deserto.

Não sei.

Nossas maneiras são diferentes das suas.

A visão de suas cidades aflige os olhos do homem vermelho.

Mas talvez seja porque o homem vermelho é selvagem e não entende. “

Apesar de ter sido escrito num tempo tão distante, as palavras parecem profetizar os problemas atuais causados pela degradação do meio ambiente.

Segundo Leff, “A racionalidade econômica gerou uma concepção do desenvolvimento das forças produtivas que privilegiou o capital, o trabalho e o progresso técnico como fatores fundamentais da produção, desterrando de seu campo a cultura e a natureza.”. (LEFF Enrique, Racionalidade Ambiental, pag. 405)

Leff expõe os resultados nefastos para a sociedade e para o meio ambiente, originados dessa postura racional, que aumentou a miséria e exclusão social no mundo e a degradação do meio ambiente em níveis ameaçadores.

Escreve Leff: “A construção de uma racionalidade ambiental encontra, assim, suas raízes mais profundas na cultura, entendida como a ordem que entretece o real e o simbólico, o material e o ideal, nas diferentes formas de organização social dos grupos humanos em comunidades e nações, nas formas diversas em que suas linguagens e suas falas dão significado aos territórios que habitam e à natureza com a qual convivem e coevoluem.”. (LEFF Enrique, Racionalidade Ambiental, pag. 408)

“O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas

compartilham o mesmo hálito – a fera, a árvore, o homem,

todos compartilham o mesmo hálito.

O homem branco parece não perceber o ar que respira.

Como um moribundo há dias esperando a morte,

ele é insensível ao mau cheiro. “

“Mas se vendermos nossa terra, vocês devem se lembrar de que o ar

é precioso para nós, que o ar compartilha seus espíritos

com toda a vida que ele sustenta. “

Esse relato denuncia os efeitos nocivos da poluição nas cidades , que seriam efeito de uma postura dissociada da cultura “branca” com o meio ambiente.

Leff conclui que “A preservação de identidades étnicas e dos novos valores tradicionais das culturas, o arraigamento a suas terras e seus territórios étnicos constituem suportes para a conservação da biodiversidade – do equilíbrio, da resiliência e da complexidade dos ecossistemas - , estabelecendo-se como condição de sustentabilidade da sua produtividade.” (LEFF Enrique, Racionalidade Ambiental, pag. 429)... “A cultura ecológica emerge na narrativa da globalização como uma consciência conservacionista diante da racionalidade econômica produtivista e perdulária. O discurso da sustentabilidade tende a atribuir à cultura – e às culturas – uma vontade e uma capacidade intrínseca de preservação do meio ambiente em que habitam como uma experiência vivida de conservação cultural, como uma faculdade e um mecanismo adquirido no processo de evolução ecocultural. E, no entanto, a cultura funciona como uma ‘superestrutura’ da base orgânica da vida que assegura sua reprodução através de processos de adaptação e transformação, onde as leis de conservação e evolução se refletem nas cosmovisões e práticas culturais do uso da natureza.” (LEFF Enrique, Racionalidade Ambiental, pag. 435).

É interessante verificar que as origens dos problemas ambientais, estando em grande parte relacionadas com ações culturais resultantes de sistemas econômicos predatórios, requerem agora, segundo os autores citados, que as sociedades redefinam os modelos de economia de maneira a estabelecer novos interesses e maneiras de sobrevivência que respeitem novos paradigmas de valores sustentáveis.

Mais interessante ainda é o conceito de que a solução estaria numa visão contrária à globalização cultural, mas direcionada às soluções locais.

Mas como seria possível estabelecer esses novos paradigmas culturais uma vez que o atual sistema é sustentado pelo poder econômico nos mercados globais?

“O que é o homem sem os animais?

Se todos os animais acabassem, o homem morreria

de uma grande solidão do espírito.

Pois tudo o que acontece aos animais, logo acontece ao homem.

Todas as coisas estão ligadas. “

O Chefe d e Seatle revela a associação que sua cultura faz com os animais, considerando-os como “irmãos” e vendo em sua preservação, a garantia de preservação da própria humanidade.

“Vocês devem ensinar a seus filhos que o chão sob seus pés

é as cinzas de nossos avós.

Para que eles respeitem a terra, digam a seus filhos que a Terra

é rica com as vidas de nossos parentes.

Ensinem as seus filhos o que ensinamos aos nossos,

que a Terra é nossa mãe.

Tudo o que acontece à Terra, acontece aos filhos da Terra.

Se os homens cospem no chão, eles cospem em si mesmos.

Isto nós sabemos – a Terra não pertence ao homem –

o homem pertence à Terra.

Isto nós sabemos.

Todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família.

Todas as coisas estão ligadas.

Tudo o que acontece à Terra – acontece aos filhos da Terra.

O homem não teceu a teia da vida – ele é meramente um fio dela.

O que quer que ele faça à teia, ele faz a si mesmo. “

Mais uma vez, a educação e a íntima relação observada entre a humanidade e a Terra e sua biodiversidade são relatadas como postura cultural dos índios de Seatle.

“De uma coisa nós sabemos, que o homem branco pode um dia

descobrir – nosso Deus é o mesmo Deus.

Vocês podem pensar agora que vocês O possuem como desejam

possuir nossa terra, mas vocês não podem fazê-lo.

Ele é Deus do homem, e Sua compaixão é igual tanto para com

o homem vermelho quanto para com o branco.

A Terra é preciosa para Ele, e danificar a Terra é acumular desprezo

por seu criador.

Os brancos também passarão, talvez antes de todas as outras tribos. “

A percepção de um Deus comum, mas intrinsecamente ligado a Terra, oferece um caminho para a compreensão da sacralização do planeta e de seus elementos.

Leff explica a Racionalidade Social em contraposição à racionalidade mercantil-produtivista.

Uma gestão direta, onde as comunidades locais se relacionam com os recursos naturais de forma direta e responsável, baseada em práticas tradicionais resultantes das cosmovisões e culturas que têm um comportamento mais harmônico (sustentável) com a natureza.

O autor discorre sobre o conceito de “Localismo”, onde

“... a preocupação de que a economia se regule segundo as necessidades, as possibilidades e a participação local”.

“O eixo estaria dado pela ideia central das comunidades, das regiões e das nações — nessa ordem, do menor ao maior— lograrem recuperar o controle sobre a economia. A prioridade seria a auto-suficiência. Tudo o que pode ser produzido no local deve sê-lo. Quando não houver condições locais, o regional tem prioridade, depois o nacional e, em última instância, o internacional.”

É interessante verificar que as origens dos problemas ambientais, estando em grande parte relacionadas com ações culturais resultantes de sistemas econômicos predatórios, requerem agora que as sociedades redefinam os modelos de economia de maneira a estabelecer novos interesses e maneiras de sobrevivência que respeitem novos paradigmas de valores sustentáveis.

Mais interessante ainda é o conceito de que a solução estaria numa visão contrária à globalização cultural, mas direcionada às soluções locais.

Mas como seria possível estabelecer esses novos paradigmas culturais uma vez que o atual sistema é sustentado pelo poder econômico nos mercados globais?

Mas, seria a Carta do Chefe de Seatle verdadeira?

“O CONTO DA CARTA DO CHEFE SEATTLE”, Artigo original publicado sob o título «El Cuento de la Carta del Jefe Seattle « no blogue El retorno de los Charlatanes em 06-02-2010 obra de Mauricio-José Schwarz .

O autor do texto com o título acima, é acido crítico à veracidade da Carta.

Alega o autor que no século XIX, a extinção das espécimes por ação humana não era conhecida, assim como seria improvável a grande consciência ecológica do suposto chefe de Seatle.

O autor revela que o verdadeiro “Chefe de Seatle” seria conhecido como “Si’ahl, a quem os brancos que colonizaram os Estados Unidos chamaram «Seattle»”...” era um índio duwamish nascido ao redor de 1780 e morrido o 7 de junho de 1866, que foi chefe da sua tribo e dos squamish.

Prossegue o relato: “Si’ahl, homem do seu tempo e de seu povo, isto é, representante da sua cultura e nom da dos ocidentais pseudoecologistas, possuía escravos produto de suas vitórias na guerra, e tomou várias esposas, como correspondia a um chefe. Nada disto é criticável, pois era o normal no seu mundo, e julga-lo com as normas do nosso é, quando menos, jogar sujo. Como o é desvirtuar-lo para o ajustar às ideias próprias.”

Segundo a história, na perspectiva do autor, “... provavelmente Si’ahl nom viu um bisom na sua vida, era chefe de umha tribo de mariscadores sitos no extremo norte da Costa Leste dos Estados Unidos, de modo que a frase da suposta carta «Vi mil bisons apodrecer na chaira» é literalmente impossível.”

Prossegue a narrativa: “O caso é que, expulsado das suas terras, Si’ahl conheceu a David Swinson «Doc» Maynard, médico e pioneiro que chegou à zona como empresário madeireiro, e em 1852 construiu ali a sua chouça de madeira fundando, de facto, a cidade de Seattle.”

O texto revela que Si’ahl seria conhecido por ser um grande orador e teria participado de uma reunião com o então, o governador Isaac Ingalls Stevens – “acredita-se que foi o 11 de Março de 1854” – que teria como finalidade discutir a rendição ou venda das terras dos índios aos colonos brancos.

Relatou-se que Si’ahl teria então feito um pronunciamento no idioma lushootseed.

“Si’ahl falou, alguém traduziu desse idioma à fala chinook, umha língua franca do oeste de Estados Unidos formada por diversas línguas ameríndias, inglês e francês, e alguém mais traduziu ao inglês para que Stevens se inteirasse do que tinha dito Si’ahl.”

Em 29 de Outubro de 1887 o “doutor Henry A. Smith, médico, poeta, legislador e colono, que compartilhava a simpatia de Maynard polos índios, e que assegurava ter estado presente durante o discurso de Si’ahl, publicava no Seattle Sunday Star umha peça intitulada «Scraps from a diary» (Retalhos dum diário) que, dixo, se baseava nas notas que tomou do discurso do chefe Seattle e, afirmou, era só um fragmento do discurso. Nele, o chefe Si’ahl agradecia os brancos a sua generosidade, exigia que qualquer tratado garantisse o acesso dos índios a seus antigos cemitérios e fazia umha comparaçom entre o deus dos brancos e seus deuses.”

Em 22 de Abril de 1970 “o jovem professor de cinema da Universidade de Texas em Austin, Ted Perry, assiste à primeira celebraçom do «Dia da terra» no campus. Eram as primeiras auroras do ecologismo e a consciência planetária, e o académico clássico William Arrowsmith lê ante o público umha versom do discurso escrito por Smith actualizada por ele para a adaptar ao estilo combativo e as preocupaçons de elogio à década dos 60. A peça impacta nos presentes.”

“Pouco depois, Ted Perry, como roteirista da Southern Baptist Radio and Television Commission, Comissom de Rádio e Televisom Bautista do Sur, umha empresa da Convençom Bautista do Sur, a maior igreja protestante dos Estados Unidos, afronta o repto de escrever um filme sobre a contaminaçom e a ecologia, chamada Home (Lar). Pede-lhe permissom a Arrowsmith para empregar a sua peça como base de seu roteiro e procede a escrever o que hoje conhecemos como «A carta do chefe Seattle».”

“Em 1992, a já poderosa organizaçom Dia da Terra, EUA (Earth Day, USA) enviou por correio a espurea carta a 6500 líderes religiosos. O autoproclamado dandy da ecologia, Al Gore, citou a carta no seu livro Earth in the balance.”

“Hoje, felizmente, de procurarmos em Google «chief seattle letter», acharemos que a maioria das ligaçons que aparecem primeiro mencionam a fraude, destacam a verdadeira personalidade do líder duwamish e referenciam a Ted Perry.”

O autor do texto: “ em palavras de Ted Perry: Por que estamos tam dispostos a aceitar um texto como este se se lhe atribui a um nativo americano? É outro caso de pôr os nativos americanos num pedestal e nom nos responsabilizar de nossas próprias acçons?”

Como ficamos então?

Sem a comprovação histórica da veracidade da referida Carta, fica-nos a sensação de desejo que que ela fosse real, para que pudéssemos então utilizar, mais uma vez, a história como forma de reconhecimento, pertencimento e receita para nossa crise atual.

Seja como for, houve um discurso do referido índio que causou impacto aos que estavam presentes, o que causou a imortalidade da intenção e alimentou a fantasia de tantos leitores posteriores, que se ampararam na Carta (e ainda o fazem), como um pilar romântico para uma nova era desejada por todos.



3. CONCLUSÕES


A visão de Leff de uma civilização sustentável traz o conceito de que uma nova ordem político econômica deveria se desenvolver, partindo do princípio que nem capitalismo e nem socialismo deram ou dão conta dessa questão.

Na nova lógica, a natureza deixaria de ser vista como “meio” de extração para a produção, para se incluir na lógica produtiva.

Assim sendo, questões como o consumo responsável e a sustentabilidade seriam naturalmente incorporadas.

Leff sugere que as sociedades devem se tornar auto-sustentáveis, num movimento contrário à globalização – que seria lógica mercantil utilitarista e permissiva com a natureza – partindo do local para o global.

Os conhecimentos locais, aliados à tecnologia, num diálogo inclusivo, acessível a todos os individuos e atores sociais, seriam, na visão de Leff, criadores de soluções para os problemas ambientais.

A Carta de Seatle traz em seu texto uma visão semelhante, mostrando uma cultura onde a lógica produtiva incorpora a natureza e a biodiversidade.

Na Carta, o suposto “Chefe de Seatle” demonstra um profundo respeito ao planeta e aos animais, assim como aos elementos naturais, tais como as árvores, os rios, o vento, etc.

A fórmula para essa lógica sustentável entretanto parece estar centralizada no carater do sagrado: a terra é sagrada, assim como os animais e todos os elementos naturais.

Esse tipo de raciocínio se encaixa melhor com o discurso do teólogo Albert Schweitzer (1875 – 1965).

Citado no livro “Ciência e Bioética – Uma Visão Teológica” (Professor Doutor Euler R.Westphal), relata-se que Schweitzer “tiinha consciência de que todas as formas de vida devem ser vistas sob a perspectiva do temor respeitoso”.

Prosegue Westphal: “Sob a ótica evangélica, a vida não é propriedade como o quer o mercado, mas ela é dádiva de Deus. E esse deveria ser o ponto de partida para uma ciência responsável.” (Pag. 27).

A maior questão que se coloca é a urgência de mudanças comportamentais diante das mudanças climáticas e suas já atuais catástrofes em curso – seria a humanidade capaz de mudar sua lógica mercantil e social a tempo?

A história parece mostrar que são necessárias crises para que se mudem os sistemas políticos e sociais.

Talvez desta vez a humanidade deva inverter essa ordem, sob pena de não resisitir à próxima crise com dimensões planetárias.

Veja a Carta de Seatle em sua versão atual na página:
http://www.culturabrasil.org/seattle1.htm