Friday, December 06, 2013

Quero um mundo mais sagrado e menos mercado...


Quero poder sair de casa e me encantar com o caminho, com os pássaros, as plantas e as pessoas. Mesmo que estejam ofuscadas por letreiros, outdoors e placas de trânsito. Quero pensar que o destino é só um ponto para onde me dirijo, mas que pode ser mudado, se aprender com o caminho.

Quero um mundo onde as crianças sejam vistas com encanto, que sejam consideradas como anjos, e que, por essa razão, não sejam vistas nos sinais pedindo esmolas.

Um mundo em que os idosos sejam considerados sábios, que possamos nos aconselhar com eles, ao invés de serem jogados em asilos ou nas ruas das cidades.

Quero olhar no espelho e ver alguém que pode ser um entre tantos outros seres neste planeta, mas entender que, apesar disso, é único e, portanto, sagrado.

Não quero mais ver pessoas tentando serem outras, querendo ter a aparência que o mercado definiu como bela, mas quero ver pessoas se admirando com pequenas coisas, como, por exemplo, uma borboleta. Um mundo mais Mandela, menos Bill Gates.

Quero sonhar com um passeio descalço nas areias da praia e não com um novo modelo de automóvel ou tablet.

Um mundo onde a gente se sinta feliz em estar com os outros e não pensemos nesses outros como pessoas a serem superadas, numa competição frenética em que apenas uns vencem e a maioria fica para trás.

Quero, enfim, ver a luz muitas vezes ofuscada pela maquiagem artificial das metrópoles, nos olhos das pessoas quem passam nas ruas e senti-las, assim, em sua essência. Um mundo mais sagrado e menos mercado, porque o sagrado é único e exige reverência, além de libertador e leve, enquanto o mercado é fútil, volátil e descartável, além de pesado e aprisionador.

Wednesday, November 20, 2013

CIDADANIA



Uma rápida consulta na literatura, hoje facilmente disponibilizada pela internet, leva-nos ao conceito de cidadania como “o conjunto de direitos e deveres ao qual um indivíduo está sujeito em relação à sociedade em que vive”.
O historiador José Murilo de Carvalho relata, entretanto, que a cidadania plena é utópica , uma vez que não existem sociedades ideais, onde o exercício pleno dos direitos políticos, civis e sociais, ou seja, uma liberdade completa, sejam atingidos ou praticados por todos os seus cidadãos. A cidadania seria, então, um ideal a ser conquistado, através da participação do cidadão nas decisões e ações da cidade. Carvalho conclui que a cidadania não combina com o individualismo e a omissão quanto aos acontecimentos sociais.
A criação de leis e estatutos de proteção à mulher, aos negros, aos deficientes, idosos, crianças jovens e adolescentes traduzem ações em direção a uma cidadania ainda não atingida, e são resultado de anos de lutas e mobilizações populares. As notícias que vemos diariamente nos jornais demonstram o longo caminho que ainda temos que trilhar para a conquista da cidadania. O desrespeito às leis e aos direitos dos cidadãos é uma constante, assim como a forma de atuação do Estado se mostra diferenciada para cada classe social ideologica e/ou financeiramente estratificada.
Ao pensarmos na cidadania como o conjunto de direitos e deveres do cidadão, podemos perceber em quanto essa balança se apresenta em desequilíbrio. O cidadão pobre, negro, por exemplo, é invariavelmente cobrado severamente pelos seus deveres para com o Estado, enquanto seus direitos são constantemente violados impunemente. Do outro lado do estrato social, cidadãos influentes não se obrigam a cumprir com seus deveres e, quando o fazem, têm acesso a excelentes mecanismos para defendê-los, muitas vezes não sofrendo as punições cabíveis, ao mesmo tempo que são atendidos prontamente quando buscam seus direitos, muitas vezes em foros privilegiados.
Em resumo, cidadania é um conceito, um valor, e somente através de mobilização, com muita luta e persistência pode ser conquistada. Sendo a sociedade um processo em constante evolução, ainda que se pudesse alcançar a utópica cidadania plena, isso ocorreria num momento, passando a surgir novos cenários que trariam novos desafios e novos direitos e deveres a serem desenvolvidos e praticados. Exemplificando, não haviam questões de cidadania a serem observadas quanto ao trânsito, antes da invenção do automóvel, assim como questões éticas sobre a manipulação genética trazem-nos hoje novos desafios conceituais e éticos, assim como novos direitos e deveres a serem observados e conquistados. O cidadão é, por todas essas razões, aquele que pensa no bem da sociedade como um todo, que não conhece o egoismo e que se informa sobre as ações e omissões do Estado, estando sempre pronto a lutar pela conquista da cidadania.
Uma sociedade alienada, sujeita a baixos níveis de educação e pouca informação de qualidade não desenvolve senso crítico tornando-se, assim, sujeita a todo o tipo de manipulação por parte de minorias, como se constata na história presente e passada. A educação para a criação de cidadãos deve levar em conta o acesso à informação isenta de preconceitos, o desenvolvimento do senso crítico e despertar o interesse pela participação politica e social do educando. A informação deve ser socializada, não manipulada. De que adianta termos acesso a decisões sem que tenhamos informações suficientes para que possamos tomá-las de maneira refletida? O país se propõe democrata, mas, ao sercear grande parcela da população de uma educação com qualidade, não pratica essa democracia anunciada. Ao contrário, submete essa população ao controle de grupos privilegiados.
Cidadania requer inclusão, educação, saúde, segurança e liberdade de expressão, o mesmo que se exige das democracias, e que estamos sempre a ver desrespeitados.
Numa sociedade alienada, o que se manifesta é uma forte corrente de controle social, criada pelos meios de comunicação que têm como objetivo o lucro e não a cidadania. É preciso ter um padrão de beleza estabelecido pelos meios de comunicação, acesso a bens e serviços ditados pela “moda” e tudo isso baseado no consumo e consequente lucro para poucos. É mais fácil hoje um jovem ser punido pelos seus pares por ser “gordo”, “feio” ou por qualquer forma diferenciada de um padrão estabelecido do que ser cobrado a agir pela cidadania.
A construção da cidadania parte de indivíduos livres, informados, críticos e interessados pela causa coletiva: é esse o principal papel do educador, formar cidadãos.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidadania, visitada em 20/11/2013

Thursday, November 14, 2013

A Rota dos Pássaros: quem ainda pode vê-los?

Às vezes me pego a pensar sobre como será a cidade dentro de algumas décadas. Esse pensamento me vem quando vejo certas manifestações humanas que me deixam reflexivo.
É fácil perceber que as pessoas hoje andam conversando nas ruas, mas sem qualquer companhia. A conversa se dá pelo telefone celular, muitas vezes conectado a fones de ouvido imperceptíveis, o que aumenta a sensação de que a conversa se dirige a ninguém.
Mas aumenta o número de pessoas que nem falam mais, apenas correm os dedos rapidamente em seus smartphones, tablets ou coisas similares, dando a impressão de que caminham sem olhar para  frente.
São pessoas que se comunicam sim, mas não com o meio presente. Estão constantemente ligados a outras pessoas que se encontram em diversos lugares diferentes na cidade ou fora dela. O que parece ser um sinal de isolamento, na realidade trata- se de uma nova maneira de sociabilização nas cidades.
Como a tecnologia se autodesenvolve numa velocidade crescente e sem precedentes históricos, imagino que em poucas décadas poderá existir uma cidade onde as pessoas não sejam mais vistas nas ruas. Trabalharão em suas casas, assim como frequentarão lojas virtuais e terão muitos produtos entregues e materializados através de impressoras 3D.
As ruas ficariam vazias e as pessoas poderiam perder o contato com o mundo exterior.
Hoje já são poucas as pessoas que se encantam com o canto matinal dos pássaros, que percebem flores em jardins no caminho de sua casa até o trabalho, enfim, que percebem outros cidadãos nas calçadas estendendo suas mãos em busca de esmolas.
O sol não mais fascina todas as pessoas e a lua não mais provoca o romantismo nos casais.
Como sou “velho” e vim de uma realidade até pouco tempo diferente, tenho o hábito de ouvir os pássaros, a viver o caminho e seus ensinamentos, o que me fez descobrir um fato interessante em Joinville.
Ao sair do trabalho, no centro, dirijo-me ao bairro Iririu em horário próximo às 18 horas todos os dias úteis. Nesse caminho observei que, nesse horário, pássaros cortam os céus da cidade numa linha diagonal às ruas por onde passo, sempre no mesmo sentido. Em revoada, em formação em “V”, são pontuais nessa jornada. Percebi que são de diversas espécies e tamanhos, mas todos rumando na mesma direção e no mesmo horário.
Uma questão me tomou de curiosidade: para onde vão?

A resposta não foi de difícil solução: busquei no Google Maps a rua onde passo, tracei uma linha diagonal no sentido em que os vejo nessa rua e constatei que o final dessa linha é a Baia da Babitonga.



Então é isso: todos os dias, às 18 horas, os pássaros voam dos morros para a Baia da Babitonga. Não sei dizer a razão disso, mas posso concluir que passam o dia nos morros e as noites próximos ao mar.
Alguém poderia dizer: que bobagem, “cultura inútil”, ou outro comentário igualmente jocoso. Entretanto, apenas a observação desse fato me trouxe algum conhecimento, além da agradável sensação da companhia desses pássaros que povoam os céus enquanto eu me desloco em meio ao trânsito ainda caótico em Joinville. Torcendo para que mais pessoas possam "ver" esse espetáculo diário, mesmo que apenas em alguns minutos de interrupção em suas socializações virtuais.

Monday, September 23, 2013

Joinville realiza projeto piloto e entrega contas individualizadas de água para moradores de condomínio vertical.


Após quatro meses de desenvolvimento, a Companhia Águas de Joinville entregou em 18 de setembro de 2013 as primeiras contas de água individualizadas para cada família dos Condomínios Trentino 1 e Trentino 2. Ação inédita, uma vez que tratam-se de condomínios verticais, que, historicamente, sempre receberam faturas centralizadas, cabendo aos síndicos a partilha dos valores incluídos nas taxas de condomínio.

No sábado, dia 21 de setembro de 2012, a Rede Globo exibiu uma matéria no programa Globo Ecologia, no qual relatou como fato notório, a experiência de um condomínio que decidiu colocar hidrômetros individualizados para que o síndico possa distribuir corretamente os valores devidos em função do consumo de cada família. Entretanto, o que se fez em Joinville foi mais do que isso: a empresa de saneamento agora passou a entregar as contas a cada família, livrando o síndico dessa missão. Além da leitura ser feita por profissionais da empresa, foi possível oferecer a Tarifa Social às famílias com perfil para receberem esse benefício.

Conquista e Apoio

Esse projeto que pretende-se seja oferecido a outros condomínios populares, foi resultado da mobilização dos moradores dos dois condomínios, que se organizaram e trouxeram essa modalidade de faturamento como proposta de solução para redução das taxas de condomínio, que carregavam o excedente de consumo de famílias com hábitos inadequados, penalizando injustamente os consumidores conscientes. 

Nesses quatro meses de projeto, a empresa ajudou na localização de vazamentos, renegociou dívidas e possibilitou, com isso, que os condomínios reduzissem o consumo mensal e se tornassem adimplentes. As famílias foram cadastradas dentro dos condomínios, sem a necessidade de se deslocarem. A tarifa social foi igualmente concedida a moradores com perfil, após consulta ao Cadastro Único da Caixa Econômica, em site disponibilizado para essa finalidade. Pretende-se replicar essa experiência em novos condomínios populares na cidade.

Participei pessoalmente desse projeto, mantive contato com as famílias e tenho em mente a continuidade dessa aproximação.



Thursday, May 16, 2013

O MUSEU DE CADA UM DE NÓS.



Moro atualmente distante de meus pais, o que torna minhas visitas raras. Nessas condições, tenho a visão da passagem do tempo, as mudanças que se tornam imperceptíveis aos que convivem diariamente, ganham forma ao ponto de manifestarem surpresas.

Em especial, o que me chama atenção é a profusão de fotografias, antigas e atuais, que começaram a tomar conta dos ambientes na casa de meus pais. Não existe um cômodo esquecido: sala de estar, sala de jantar, quartos. As salas comportam retratos e pôsteres atuais, com as crianças da família que não param de chegar. Os quartos expõem fotos mais antigas, pessoas que não mais se encontram neste plano, mortos que nos olham sorridentes e nos remetem aos tempos que agora habitam nossas boas e más lembranças. Numa rápida leitura interpretativa, sou tentado a pensar numa lógica nessa distribuição, levando aos quartos, ambientes reservados, os registros de um passado que deve ser preservado e às salas a mensagem que a família se renova.

Cada vez que os visito, duas vezes ao ano, percebo que as fotografias aumentaram em número e ocupam cada vez mais os interstícios ainda presentes, mas que, nesse processo contínuo, tendem a desaparecer.
A casa de meus pais se transforma em um museu, expondo entes vivos e mortos, classificados e dispostos em ambientes específicos. Andar pela casa torna-se um aprendizado. Mas quais seriam as motivações para essa museificação da casa de meus pais?  Algumas propostas emergem de minha mente. Talvez a consciência da finitude que se aproxima e a necessidade de deixar registros que invoquem uma forma de eternidade.  Talvez um último movimento na tentativa de fixar-se na história.

Mas não é somente na casa de meus pais que esse fenômeno ocorre. Nem mesmo apenas dessa forma se apresenta essa necessidade de registro histórico pessoal e familiar. Um passeio pela internet e veremos pessoas de diversas gerações, principalmente os mais jovens, colocando fotografias nas paredes de sua casa virtual, registrando frases, compartilhando pensamentos.

Será que cada um de nós busca criar seu museu pessoal?  Seria essa uma necessidade humana?
A velocidade das mudanças que ocorrem no mundo no momento presente estariam nos levando-nos a buscar uma forma alternativa de nos tornarmos eternos?  Numa sociedade capitalista, onde agimos pelo consumo e descartamos o que não mais nos atende, ( incluindo o ser humano, que tem sido objeto de descarte ),  seria a busca pelo museu pessoal uma forma desesperada de tornarmo-nos indescartáveis, insubstituíveis?
O museu então poderia ser visto como uma forma de marcarmos nossa individualidade,  através de uma luta constante para nos convencermos de que somos únicos e insubstituíveis, portanto, não queremos ser objetos de descarte e esquecimento.

Não escapo dessa análise, pois, ao postar textos neste meu blog, crio aqui o meu museu pessoal, onde as fotografias não são a principal atração, mas os pensamentos expressos que luto para que sejam eternizados. Afinal, existem museus com diferentes temáticas.

Talvez venhamos a ser conhecidos como a geração que se tornou museu, pela incapacidade de reação a um mundo alheio aos valores eternos.

Monday, May 13, 2013

A FALÁCIA SOBRE "LIDERANÇA"


campo da administração, assim como em outros campos da ciência, sempre existem modismos que se iniciam com algum bom trabalho mas que passam a ser repetidos através de "consultores" por um longo tempo. Esse tipo de divulgação prolongada aos poucos se fixa como um tedioso "clichê" mas, curiosamente, continuam a alimentar consultores que, através de palestras e cursos algumas vezes criativos, outras nem tanto, garantem seu mercado aquecido. A questão da "liderança" me parece um desses casos. Existem livros, cursos e palestras sobre liderança. Uma pergunta simples me acomete, sempre que penso nesse tema: a maior parte das pessoas não terá a oportunidade de atingir cargos de liderança, por mais que se empenhem nisso - por que, então, a preocupação em formar líderes ganha tanta importância? Não seria mais prudente pensar na maioria e criar profissionais que se alinhem às metas organizacionais? 

Para que exista um lider, é preciso que exista um grupo a ser liderado, o que torna reduzido o número de líderes necessários no mercado de trabalho. Divulgar conceitos sobre liderança me parece, portanto, inócuo.  Pior: é um potencial investimento em situações de frustração para a maior parte daqueles que receberem tal orientação.

Outra questão é a circunstancialidade da situação de liderança. Muito embora algumas pessoas possam assumir posições gerenciais em organizações, a condição de liderança nem sempre é alcançada. É mesmo possível que um lider não ocupe posição de gestor na organização em que trabalha, assim como um gestor não consiga se situar como lider. Essa última situação faz com que alguns gestores sejam levados a agir com postura autoritária para manutenção de sua posição, o que invariavelmente resulta em insucesso. 

Um lider é criado quando colocamos nossa confiança em alguém, pela sua história e reputação, pelo seu conhecimento sobre o problema que estamos enfrentando, pela junção dessas situações citadas ou ainda pela facilidade em organizar o grupo em momentos de tensão. Assim sendo, liderança é algo circunstancial e, por essa razão, transitória.

Um  exemplo simples: um executivo pode liderar uma reunião de negócios até que um incêndio venha a acometer o prédio onde se encontra. Nessa situação, a liderança mudará para a pessoa que pertença a brigada de incêndio que estiver mais próxima a esse grupo. Isso porque essa pessoa estaria, em tese, habilitada a tirar as demais do prédio em segurança - no momento de crise, o tema central trará um lider, que poderá tornar-se desnecessário em situações futuras.

Em resumo, a vida nos trará situações em que, eventualmente, assumiremos a liderança de algum grupo mas, na maior parte do tempo, é muito provável que sejamos liderados por alguém. Assim sendo, é melhor que façamos investimentos em conhecimentos e habilidades que nos tornem melhores naquilo que fazemos. Afinal, existem mais empregos para bons profissionais do que para líderes mas, sendo bons no que fazemos, as chances de sermos colocados na condição de liderança aumentam.


Tuesday, March 19, 2013

UMA RUA EM DISPUTA: RUA DO PRÍNCIPE, JOINVILLE, SANTA CATARINA – 1986 / 2004

No ano de 1986, um calçadão foi construído na Rua do Príncipe em Joinville/SC. Artesãos se mobilizaram e, através da Associação Joinvilense de Artesãos - Ajart, reivindicaram e conseguiram da prefeitura a permissão para ocuparem o espaço revitalizado, para a realização da Feira de Artesanato. Iniciada nos anos 70, a Feira ganhava, então,  um espaço enobrecido. Em 2004, numa ação violenta, a Feira de Artesanato foi removida do calcadão e o mesmo foi totalmente destruído para abertura ao trânsito de veículos. A Câmera de Dirigentes Lojistas - CDL, aliada ao poder público, foi a protagonista desse episódio.

O fato de ter havido um calçadão em um projeto de intervenção num momento da história e depois esse mesmo calçadão ter sido removido nos traz um interesse maior.

Como isso pode ocorrer?

Em que discursos o poder público se apoiou para realizar as intervenções que se mostraram contraditórias em dois momentos distintos?

Esse foi o tema da dissertação apresentada em 18 de março de 2013, na Universidade da Região de Joinville - Univille. Seguem os estudos realizados e algumas propostas de explicação para fatos que parecem não ter explicações lógicas.


 A Rua do Príncipe concentra o maior número de imóveis tombados na cidade de Joinville e tem sua história ligada à colonização.
O grande volume de pessoas que circula por ela diariamente provoca disputas pelo seu uso.
Historiadores e jornalistas atribuem valores históricos a essa rua, um grande número de comerciantes ocupam os prédios históricos e o poder público investe em constantes intervenções com a finalidade discursiva da sustentabilidade. A preservação do patrimônio histórico faz com que prédios sejam tombados, para que não se percam as referências históricas e, com isso, uma suposta identidade local. 

As intervenções ocorridas têm em comum o patrimônio, sua preservação e sua utilização para o consumo. 

Como foi a intervenção que destruiu o calçadão? Quais os atores sociais envolvidos? Quais as tensões em jogo? 

O episódio da destruição do calçadão em 2004 revela uma desproporcionalidade de forças entre os gestores públicos, que agiram com força policial fortemente armada contra artesãos desarmados e atônitos. Buscou-se pela fundamentação teórica que poderia nos trazer pistas sobre o modelo de intervenção adotado nos anos de 1986 e 2004, mas nos levantamentos sobre as definições de modelos de intervenção urbana categorizadas em literatura específica, constatou-se a incapacidade das definições teóricas em explicar os fenômenos ocorridos de maneira completa.

Para Certeau, espaço é um lugar praticado (CERTEAU, 1994, p. 199 – 217).

Um espaço existe em função de suas vivências. O lugar praticado, na visão de Certeau, seria uma apropriação e, assim sendo, o espaço a ser controlado não pode ser pensado para mais de um tipo de uso: assim, um ponto de ônibus não pode ser utilizado para outro fim e, caso isso ocorra, isso seria tido como “transgressão”.

Seria então a Feira de Artesanato uma "transgressão" pelo uso não desejado pelos gestores públicos?

Do ponto de vista da gestão urbana, como estudar as intervenções paradoxais ocorridas no calçadão da Rua do Príncipe? 

Chaves Analíticas de Fraya Frehse

O modelo teórico desenvolvido por Frehse nos fornece elementos para o estudo sobre os fatos ocorridos, através de chaves analíticas, sendo elas:

interação : comportamentos e as relações sempre em negociação entre os indivíduos com os espaços na rua. 

A negociação entre os grupos interessados nos espaços na Rua do Príncipe sempre foi tensa, sendo os dois eventos contraditórios movidos pela força e organização desses grupos, no caso Ajart e CDL.

função: adequação da rua aos indivíduos que dela fazem uso, sendo a arquitetura uma ferramenta para a definição de suas funções.

A construção e posterior demolição do calçadão é a prova dessa adequação arquitetônica aos interesses desses grupos.

contexto: forma em que a rua é praticada, sob as dinâmicas sociopolíticas em jogo e em processo. 

Esse é um tema de atenção, pois a forma como a Rua do Príncipe é praticada na contemporaneidade é múltipla e mutante, ao sabor dos interesses e forças em jogo.

Ultramari e Rezende descrevem o fenômeno da instabilidade nas ações governamentais brasileiras nas décadas de 1970 a 2000, ressaltando uma:

alternância de instrumentos e entendimentos que se observa ao longo das décadas relativamente à gestão urbana brasileira, ora valorizando ora relegando prioridades e agentes executores do processo de construção da cidade. Um fenômeno que surpreende pela constante revalorização de problemas, soluções e prioridades necessárias; que temporalmente inverte os papéis da teoria e da prática; que não permite o sonho de a teoria encapsular a realidade. (ULTRAMARI E REZENDE, 2006).

Esse efeito é traduzido como Inflexão Urbana.

Se então o comportamento do poder público se mostra inconstante e oscilante, é preciso verificar os cenários históricos em curso à época desses dois episódios.

Mapearam-se os seguintes cenários:

O primeiro cenário pode ser descrito como o fluxo migratório ascendente nas décadas de 1970 e 1980. 
Entre 1970 e 1990, a população de Joinville duplicou, o que significa que um grande número de migrantes chega à cidade em busca de emprego. 

O segundo cenário pode ser definido como a falta de estrutura para receber esses migrantes. Esse fator gera grande tensão social, obrigando o poder público a encontrar soluções para a alocação dessa população dilatada.  

O terceiro e último cenário seria o desenvolvimento de um Estado Gestor. Esse período entre os anos 1980 e 2000 foi marcado pela grande profusão de leis de proteção patrimonial, o que demonstra a preocupação do poder público em agir como "gestor" do município, num formato semelhante ao verificado na iniciativa privada. A cidade passa a ser vista como atração para o consumo global, através do turismo. A cidade vira produto consumível. 

Os discursos do poder público, nos dois momentos (1986 e 2004) basearam-se nos mesmos parâmetros: a organização do espaço, a tentativa de disciplinar os usos da rua, a preservação do patrimônio edificado, o desenvolvimento comercial do centro e a promoção da cidade para o turismo. Mas em 1986, a Ajart força o poder público a ceder espaço na Rua do Príncipe para a realização da Feira de Artesanato, com o argumento da inclusão social de uma população em busca de sua sustentabilidade. Em 2004 a CDL entretanto se organiza e patrocina o poder público a retirar a Feira de Artesanato, sob o argumento do citimarketing, do discurso das cidades globais. A sustentabilidade agora é seletiva e não mais atinge os artesãos. 

Percebe-se que quando cenários trazem tensões sociais, grupos podem se organizar e criar inflexões na gestão pública, levando as práticas para interesses próprios e distorcendo os discursos através de ações que podem se tornar paradoxais.

 Conclusões

Os conceitos postulados  mostram-se insuficientes para explicar as práticas adotadas nas intervenções estudadas. 


O estudo mostra que, em momentos históricos geradores de tensões sociais, a pressão sobre o poder público pode abrir espaço para a formação ou fortalecimento desses grupos, que terão então o poder de inflexionar a gestão dos urbanistas sobre os usos dos espaços de interesse de preservação patrimonial.



O governo gestor, que tenta disciplinar, definir lugares e controlar seus usos pode, em determinados momentos, entrar em confronto com a pressão daqueles que disputam um espaço não autorizado nessa rua.


O Desafio lançado: 


permitir que a cidade se movimente de maneira a 
garantir o equilíbrio entre a proteção de seu patrimônio 

histórico e de sua cultura, a atratividade para investimentos 

externos e a sustentabilidade assumida em todas as suas 

instâncias e públicos.


Primeiro de março de 2004 - imagens do dia da destruição do calçadão.



A pesquisa utiliza uma metodologia não convencional, intitulada de "Um Passeio pela Rua do Príncipe". Nesse modelo, são feitas diversas visitas à Rua do Príncipe, com olhar atento para as questões urbanas, tendo como paralela, a pesquisa de documentação e relatos publicados nos meios de comunicação que, juntamente com pesquisa teórica, nos trouxeram respostas e também problemas a serem solucionados no decorrer do trabalho.

Agradecimentos especiais:

Peninha Machado, um dos primeiros artesãos nos anos 1970, cedeu fotos exclusivas e trouxe valiosas informações que fundamentaram esse trabalho.

Charles França, pela sua matéria sobre a retirada dos artesãos em 2004, o que me trouxe novo rumo às investigações sobre os movimentos de gestão pública na Rua do Principe.

Professora e Doutora Ilanil Coelho, minha orientadora nesta produção.









Thursday, February 28, 2013

Projeto Pró-Acessibilidade - um passo à frente da sustentabilidade

                                        Com os idosos podemos aprender a ser sábios e com os deficientes a perseverar.
                                        É prudente pensar que o dia de amanhã pode nos reservar um desses papéis.
                                                                                                                                                        Abeid


O Grupo de Circulo Contínuo de Qualidade - CCQ denominado Reservatório de Idéias (R-I), da Companhia Águas de Joinville,  criou o Projeto Pró-Acessibilidade para atendimento preferencial de idosos, pessoas deficientes, Gestantes, Lactantes e pessoas com crianças de colo, proporcionando a acessibilidade, através de um atendimento especializado e diferenciado.

O título “Pró-Acessibilidade” advém da nova perspectiva de olhar para o tema da acessibilidade, considerando o acesso a partir do fato gerador da necessidade do deslocamento do cliente: não basta mais saber receber o cliente nos postos de atendimento, mas criar alternativas de atendimento que evitem o deslocamento desnecessário. Afinal, o próprio deslocamento impõe barreiras.

Esse novo olhar para a acessibilidade impõe mudanças em fluxos de trabalho e nos impele a partir em busca de parcerias com instituições que atuam junto a esses públicos. Essas instituições participam do projeto realizando palestras, visitando as unidades de atendimento e interferindo no discurso de nossos atendentes e no layout dos prédios da empresa. Essa parceria com entidades representativas nos permite já o atendimento à distância, via e-mail, atendendo a um dos desafios de criar mecanismos que nos permitam o atendimento mais próximo ao cliente, em casos especiais, irmos até o cliente e, assim sendo, evitar o desconforto do deslocamento dessas pessoas.



O sentido , portanto, deixa de ter um caráter de atendimento receptivo, passando à condição de atendimento ativo. Casos em que o cliente tenha dificuldades em se locomover, a Unidade Móvel é acionada. O olhar pró-acessível requer, sobretudo, pensar que aquela pessoa que veio com dificuldades ao posto de atendimento tenha a solução de seu serviço nessa única viagem - se a empresa não permitir essa solução no primeiro contato, ela então assumirá o retorno, indo até o cliente. 

São atividades em implantação:

 - Definição de Guichês e Senhas preferenciais para o atendimento central;
 - Destinação de cadeiras preferenciais nos locais de atendimento;
 - Benchmarking com instituições representativas;
 - Criação de um Fórum permanente, composto por entidades representativas, que passam a opinar e influenciar nossas ações de atendimento;
 - Cursos e capacitações;

Projeto para cursos de LIBRAS, contrato de serviços em BRAILE, faixas para baixa visão, piso tátil e direcional, são etapas futuras já previstas.

O Grupo CCQ RI é formado por:

Daisy Luza
João Abeid Filho
Julia Rech Sincero
Leonardo Kleczewski
Schirlei Oliveira
Wagner Marques Goeten

Coordenador: Marcos Pires


Contatos para maiores informações com: João Abeid Filho, pelo e-mail: rotadovento@yahoo.com.br .