Saturday, October 25, 2014

O que é a “Cultura Surda”?



 “temos o direito de ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza, e o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza.” Santos (1995)[1]


A resposta não é rápida, muito menos simples.

O texto a seguir, extraído de página virtual do Curso EAD de Graduação em Pedagogia-Licenciatura da UFRGS, traz algumas definições:

Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo    a fim de se torná-lo acessível e habitável ajustando-os com as suas     percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas             e das “almas” das comunidades surdas. Isto significa que abrange a língua,     as idéias, as crenças, os costumes e os hábitos de povo surdo. Descreve a       pesquisadora surda:

      [...] As identidades surdas são construídas dentro das representações  possíveis da cultura               surda, elas moldam-se de acordo com maior ou  menor receptividade cultural assumida pelo sujeito. E dentro dessa  receptividade cultural, também surge aquela luta política ou  consciência oposicional pela qual o individuo representa a si mesmo,  se defende da homogeneização, dos aspectos que o tornam corpo                                      menos habitável, da sensação de invalidez, de inclusão entre os  deficientes, de menos valia social.

(PERLIN, 2004, p. 77-78)
Fonte: STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis. Editora UFSC. 2008. (p.24)


O entendimento sobre o tema requer uma construção de conceitos, baseados em pesquisa e vivências.
No texto citado, o termo “homogeneização” nos dá a primeira “dica” sobre o universo da Cultura Surda e a Revista Virtual de Cultura Surda e Diversidade – RVCSD, traz-nos reflexões  que nos ajudam a compreender melhor esse cenário.
SÍLVIA ANDREIS WITKOSKI, a autora do artigo “PROBLEMATIZANDO A IDEOLOGIA ORALISTA”, publicada pela RVCSD, contextualiza o tema no ambiente excludente de nossa sociedade, incluindo as instituições escolares como lugares não “neutros”, ou seja, reprodutores dessa lógica.



Cita a autora:  

O domínio da ética liberal, centrada no lema de que sem competição não há    progresso, implica uma perspectiva individualizante e egocentrada da sociedade, que         pressupõe a aceitação de que os naturalmente capazes serão os vencedores, enquanto         que os que não alcançam sucesso em suas perspectivas são culpados por seu fracasso           (CRUCES, 2005). Esta ótica que aponta para uma aparente igualdade de oportunidades           no sistema de ensino, subtrai o princípio básico apontado por Bourdieu e Passeron         (1964) de que o universo escolar não é neutro, e sim autentica práticas escolares da       classe dominante, legitimando privilégios sociais e eliminando os deserdados.

Sendo a escola um dos primeiros e mais importantes lugares de construção da sociabilidade, tem assumido também a condição de reprodutora do “ideário de homogeneidade”, promovendo a exclusão de crianças pela condição de “pobreza, raça, religião, gênero e características distintivas individuais, sendo que o preconceito e a discriminação “se expressam na forma de fracasso escolar” (ANACHE, 2005, p.115).

Prosseguindo a leitura, encontramos o trecho em que a autora, de forma muito apropriada descreve: "Encontrar formas de sociabilidade, que conjuguem as relações entre diferença e          igualdade, se constitui em um processo complexo de mudança, para o qual o discurso          de Santos (1995) parece apontar um caminho quando afirma que: “temos o direito de           ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza, e o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza.”

Acrescenta, então, que as tentativas de desenvolvimento de uma proposta pedagógica “bilíngue”[2], apoiam-se em ações de “tolerância”, “sem empreender qualquer ação no sentido de transformar as relações sociais, culturais e institucionais” (Sá, 2002, p.358). Deste modo, nas grandes narrativas sobre a surdez, prevalecem as representações sociais subordinadas ao estereótipo da incapacidade e da deficiência do surdo.”

A hoje denominada “inclusão”, no campo da educação não tem demonstrado eficiente, pois os surdos são levados a concluir o ensino médio sem que tenham domínio de seus conteúdos programáticos, imperando o preconceito sobre a suposta (indevidamente suposta) incapacidade do surdo em aprender. São assim, levados à progressão baseada numa condescendência, que se fundamenta na falsa prerrogativa da “caridade” para com “incapazes” – efeito comprobatório da submissão imposta pelo modelo homogênico.

Prossegue o texto: “A própria forma com a qual muitos ainda denominam os surdos como “surdos-mudos” ou “mudinhos” explicita como predomina o preconceito em relação aos mesmos. Tais denominações também revelam total ignorância sobre o que é surdez, uma vez que os consideram naturalmente incapazes de aprender a falar através da expressão oral, quando se sabe que, na verdade, a ausência da audição que facilita a integração da criança ouvinte na comunidade ouvinte, tornando a aprendizagem da expressão oral um processo de familiarização nas trocas sociais naturais da criança, no caso da criança surda inexiste, e por isso a dificuldade desta de aprender a falar. A sua percepção da fala se dá por meio visual, o que necessariamente implica em um programa especializado para que possa aprender (FERNANDES, 2005).”

Essa atitude homogênica classifica o surdo como incapaz, deficiente, o que se configura numa visão distorcida e não científica. Em síntese, são pessoas que não ouvem e que, para que se relacionem com o mundo, com o conhecimento, para que possam exercer seu direito à cidadania, utilizam-se uma Língua própria, que pode ser aprendida pelos ouvintes. A ponte entre os dois mundos (dos surdos e dos ouvintes), já fora construída.

Sobre essa língua, que no Brasil é conhecida como  a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), escreve a autora: “...é uma língua visuo-gestual, com características e estrutura gramatical próprias, tão rica quanto qualquer outra.”  Não se trata, portanto, de um amontoado de gestos ou mímicas, como os menos informados possam vir a pensar sê-lo. As raízes históricas dessa exclusão encontram-se, como já foi mencionado, na submissão dos surdos imposta pela cultura que se quer homogênea. 

Os conceitos formulados com interesses ligados a grupos de poder, alimentam a abordagem científica voltada para a “cura” da surdez. Dessa forma, o surdo é visto como “doente”, e , portanto, objeto de “tratamento”.
Nesse sentido, prossegue a autora: “Por tal, este tem de ser “tratado”, a fim de aproximar-se do “normal”, com uma série de procedimentos que vão desde o processo de medicalização da surdez até a imposição da língua majoritária oral-auditiva, não reconhecendo a Língua de Sinais, como o meio de comunicação legítimo dos surdos (FERNANDES, 2003).

No ano de 1880, ocorreu o Congresso Internacional de Educadores de Surdos, na Itália, ficando conhecido como o “Congresso de Milão”. Até então, algumas conquistas haviam sido alcançadas, mas, liderados pelos ouvintes de maior influência no meio científico na época, forçou-se a decisão de proibição do uso das línguas de sinais, com o argumento da opção pela oralização como método de educação para os surdos. Os surdos presentes não foram considerados, tendo sido excluídos da votação que lhes traria um cenário futuro de grande desalento.

Relata o texto que “O Congresso significou a luta entre especialistas pela produção simbólica, os defensores da Língua de Sinais e os oralistas.” O conflito simbólico legitimou, através da votação, a violência simbólica contra os surdos, mascarando o jogo de poder, por meio do qual os oralistas detinham o capital econômico e defendiam os interesses da classe dominante com tal força, que conseguiram impedir os surdos de participar da votação, impondo instrumentos de conhecimento e expressão arbitrários, como se correspondessem a interesses universais, naturalizando-os.”

Estava abolida a Língua de Sinais, assim como a Cultura Surda. O surdo pode falar, portanto, deve se manifestar dessa forma. O fato do Surdo conseguir emitir sons e chegar a falar não muda a sua condição de surdez: os sons que emite não são por ele ouvidos e atendem apenas a uma conveniência social, mantendo o surdo excluído da sua própria socialização.

Mas a história, como sempre, mostra que não se extinguem manifestações legítimas por meio compulsório: apenas adia-se seu reconhecimento. O texto revela: “Numa relação autoritária, marcada por imensos abusos físicos e simbólicos, os surdos por muito tempo foram proibidos de se comunicar através desta, levando-a à clandestinidade, para numa atitude de resistência mantê-la viva às escondidas, em espaços privados como os banheiros e os dormitórios das escolas para surdos .”

Mesmo com o uso “clandestino” do direito de se comunicarem, os surdos viveriam um grande retrocesso, e, mesmo no momento presente, tendo sido vencidas essas proibições, os efeitos ainda se verificam. Na educação, segue a autora: “O descrédito social da Língua de Sinais, que se estende também dentro de muitos espaços institucionais de ensino, explica porque inúmeros professores de alunos surdos continuam no exercício da docência sem ter a proficiência na mesma.”

O peso atribuído à língua portuguesa é superior ao depositado na  de Libras, sendo esta última considerada como acessória, secundária. A escola a “tolera”. Os efeitos na auto-estima e nos resultados alcançados pelos surdos são claramente prejudicados por essa visão excludente.

A autora alerta: “É importante lembrar que a atitude de tolerância implica uma ideia de superioridade por parte de quem é tolerante (SILVA, 2007). ... A incredibilidade em suas potencialidades, sustentada pela ideologia oralista, explica porque os alunos surdos são “poupados dos conteúdos escolares mais complexos, “empurrados” de uma série para outra” (STROBEL 2006, p.6), sem os requisitos necessários exigidos de um ouvinte. O que sustenta este tipo de prática, mesmo que não seja verbalizada, é a percepção de vê-lo como um sujeito “retardado”, um coitado, que por piedade recebe uma “ajudinha” para ir passando de ano.”

CONCLUSÕES

Os surdos fazem parte daqueles que são considerados como “deficientes”, doentes e até mesmo incapazes. A sociedade idealizada como “normal”, baseada em conceitos ligados a interesses do poder instituído, já apostou na “cura” desses indivíduos, investindo em ações voltadas às ciências médicas e terapêuticas.

Os estudos científicos com o viés da anatomia, prova que os surdos podem falar e, portanto, devem ser incentivados a fazê-lo, complementando a compreensão com a leitura labial e a escrita.

Entretanto, a história tem registrado a luta de surdos pelo direito de uso de sua própria Língua de Sinais, que é a forma mais adequada e eficiente de eliminação da barreira comunicacional. E essa barreira não se limita aos surdos, podendo ser compartilhada pelo aprendizado dos ouvintes. Um mundo “bilíngue” seria, de fato, o mundo ideal onde os surdos poderiam exercer seu direito a cidadania, ainda negado por mecanismos subliminares de controle social.

A Cultura Surda envolve todo um contexto comportamental, comunicacional e de fortalecimento dos surdos na luta pela sua cidadania. Assim como, ao aprendermos um idioma estrangeiro, precisamos entender mais sobre a sua cultura local, para não praticarmos uma tradução literal e com sentidos equivocados, também com os surdos esse fator ocorre, o que reforça a Libras como “Língua”, produto de uma cultura onde os seus indivíduos diferem-se por um fator apenas: a forma de comunicação e percepção do mundo que os cerca.  

O respeito e o reconhecimento dessa luta por parte da comunidade é de grande importância, e somente o conhecimento nos leva à correta interpretação do contexto social em que se inserem os surdos.




Fonte: http://editora-arara-azul.com.br/novoeaa/revista/?p=400





[1] SANTOS, Boaventura de Souza. A construção multicultural da igualdade e da diferença. Palestra proferida no VII Congresso Brasileiro de Sociologia. Rio de Janeiro, setembro de 1995.
[2] Modelo que seja transmitido na língua portuguesa simultaneamente com LIBRAS.

Wednesday, October 15, 2014

A INSUSTENTÁVEL VOLATILIDADE DO SER


Na contemporaneidade, vivemos um carrossel de conceitos e, por conseguinte, temos reações e comportamentos nem sempre previsíveis. As recentes pesquisas eleitorais podem ter sido vítimas desse comportamento volátil.

Mas, quais seriam as bases dessa volatilidade?

Coloco aqui meu pensamento, que não tem nenhum fundamento científico, mas apenas as minhas percepções.

Minha geração assistiu a decida do primeiro astronauta na Lua: me lembro de ter visto numa TV em preto e branco. Sonhávamos com o ano 2000, quando a ciência certamente teria descoberto a cura para todas as doenças, nossos passeios de férias seriam interplanetários e os automóveis sairiam do chão, tornando-se semelhantes a discos-voadores (alguém se lembra dos Jetsons, desenho animado futurista que era exibido na TV nos programas infantis das décadas de 70 a 80?).

Minha geração encontrou um ano 2000 de ameaças de destruição global, de doenças novas ameaçadoras e incuráveis, de crise social, desemprego. A ciência caiu do Olimpo ao entrar na era da “incerteza”, na descoberta dos fenômenos que ocorrem no universo, assim como no nível sub-atômico, que colocaram a física tradicional em cheque. Se fomos educados pelos nossos pais na esperança de um mundo melhor, educamos nossos filhos para um mundo catastrófico, de possibilidades de guerras atômicas, colapso ambiental e de futuro incerto.

Nossos jovens, portanto, podem ter desenvolvido uma “couraça” protetora para encontrarem sentido maior para sua existência: esquecer o futuro – viver o presente. “Carpe diem”, mais uma vez, nada mais atual.

Nesse jogo incluimos a revolução da tecnologia direcionada às comunicações, tornando o conhecimento acessível universalmente. A comunicação voltada para um sistema econômico que se baseia no consumo e que manipula a população, implantando necessidades superfluas, oferecendo a satisfação efêmera mas imediata, criando padrões de comportamento que nos torna cada vez mais iguais.

A questão política, que deveria ser de maior interesse, é vista como inútil. É crença que a política não existe para o bem público, mas para o benefício de grupos econômicos e criminosos. Não se espera nada dela, ao contrário: despreza-se tudo a ela relacionada. O resultado é a alienação, a indiferença e a não participação nas decisões e investimentos públicos.

Assim sendo, a adminstração do que é, ou ao menos deveria ser, “público”, fica nas mãos de pessoas dissociadas dos interesses dos cidadãos, comprometidas com o poder econômico.

A questão ambiental entra nesse contexto como resultante de um modelo político e econômico exploratório, que se fundamenta na ideia de um mundo infinito, onde se consome e se descarta, sem culpas e sem consequências. Mais uma vez, a descrença no futuro esvazia qualquer atitude que possa mudar esse cenário.

Talvez ainda existam mais razões, como, por exemplo, o medo do futuro ameaçador, mais um argumento para que se pense no presente, uma defesa contra o desesperador e insuportável caos que se anuncia. A corrente pela fuga da realidade encontra novas drogas, entre as quais, a que nos remete ao mundo virtual. Redes sociais são vitrines de avatares onde se constroi uma imagem positiva, criada e mantida com muito zelo, intocável e perfeita. Nossos avatares têm a obrigação da apresentar-nos sempre felizes, bem sucedidos e, em muitos casos, mensageiros de “lições de vida”. São a fuga da realidade. Aliás, o que se divulga nas redes sociais não tem a obrigação do realismo, nem mesmo tem essa intenção.

Vivemos um mundo novo, próximos, como nunca, de uma “Matrix”, onde fechamos os olhos para a realidade e para o futuro, rimos diariamente de mensagens cômicas e satíricas, numa busca permanente pela diversão imediata. Aríetes nas mãos da entidade inabalável e adorada à qual chamamos “mercado”. O “mercado” dita as regras, cria a moda – sempre mutante – justifica a exclusão e insufla a vaidade de cada um de nós.

A lógica do mercado é a seguinte: todos devem seguir o modelo vendido pelas midias, vestindo-se, comendo, divertindo-se e, principalmente, comprando produtos e serviços, muitos deles sem qualquer utilidade lógica para a humanidade, mas isso nos dá o ingresso para o aceitável. Até mesmo a tão em alta “inclusão” fundamenta-se nessa lógica: não se trata de entender a liberdade de cada um em ser e se apresentar da maneira que lhe convenha, mas de “incluir” a todos no que se estabelece como “modelo”. Modelo, aliás, que é ditado, paradoxalmente, por ídolos que se diferem do todo, pois, não são os iguais que se destacam, mas os diferentes.

Como a lógica do mercado é a lógica do consumo e descarte, assim também as mentes se ajustam: como prever o pensamento de alguém num modelo cultural instável, pela necessidade de compra e recompra, pela obsolescência insana dos produtos e pela substituição constante dos padrões?

Somos voláteis como os produtos, como nossos ídolos, irresponsáveis como os seus produtores e dirigidos por uma entidade que nos diz o que consumir, mas não se interessa pelo que pensamos – aliás, implanta necessidades e conceitos através da mídia, moldando nossa forma de pensar e aniquilando nossa capacidade crítica. Voltamos, gradativamente, à lógica cartesiana, do “certo” e do “errado”. É mais fácil assim, exige pouca reflexão e nos traz de volta ao smartphone.

O que fazer diante desse cenário? Qual seria a saída possível?

Eu sugiro o rompimento com o consumismo, com a moda imposta e com o comportamento classificado como socialmente sofisticado. Sugiro o repensar, a desconstrução dos paradigmas. O aumento da capacidade crítica através da leitura, mas tendo como compromisso o conhecimento, explorando as diversas formas de visão de um mesmo fato. Sugiro que nosso conhecimento não seja limitado a “definições” ou “posicionamentos”, que não se diga “isso é assim ou assado”, mas que se avaliem – e se respeitem – as diversas possibilidades. Sobretudo, que se consulte mais de uma fonte, de preferência antagônicas, antes de se anunciar um “veredicto”. Aliás, que não existam “veredictos”, mas a humildade de menção de uma visão pessoal sobre um determinado assunto.

Romper os laços com a “Matrix” é tornar-se próximo da liberdade e da construção de um mundo mais sustentável e justo.