Tuesday, September 20, 2011

Ensaio - Junto e Misturado – ou a história de “Ju” e “Mel”



Nome dos Professores:

Euler Renato Westphal
Nadja de Carvalho Lamas
Sueli de Souza Cagneti

Matéria: Pensamento Contemporâneo

Nome da Faculdade: Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE

Nome do Curso: Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade

Turma IV

Nome do Aluno: João Abeid Filho

Data: 29 de setembro de 2011



Resumo
Através de uma menina (“Ju”) e seu cãozinho (“Mel”), discorre-se a narrativa de um extraterrestre que teria vindo para estudar o ser humano e seu comportamento neste momento histórico.
“Ju”, uma adolescente de 14 anos típica, apresenta a visão do ser humano e seus meios atuais de comunicação e entendimento do mundo, enquanto “Mel”, o cãozinho que, na verdade, é um extraterrestre metamorfoseado, tenta compreender esse fenômeno.
Através de narrativas do dia-a-dia desses personagens, procura-se tipificar os conceitos que norteiam a pós-modernidade.

Palavras Chave
Pós-modernidade, internet, literatura.

Introdução
“Mel” é um extraterrestre.
Veio num cometa a caiu num terreno vazio, num bairro brasileiro de classe média.
Não tinha uma aparência definida, pois seu corpo é constituído de ondas apenas.
Mas sua missão é investigar o comportamento dos seres humanos.
“Mel” já estivera antes, por diversos momentos, na Terra.
Afinal, ele é um historiador interplanetário e sua pesquisa de doutorado universal é sobre a evolução dos seres humanos através dos tempos.
Em sua primeira viagem, “Mel” encontrou hominídeos que se comunicavam por uma linguagem primitiva e faziam pinturas rupestres.
Voltou mais tarde, dessa vez numa época em que se construíam pirâmides.
Viu também a proliferação dos livros, depois da descoberta da imprensa, e o seu uso pelos homens.
Da última vez que esteve na Terra, ficou extasiado com as pinturas e estátuas feitas por grandes artistas, alguns deles reconhecidos, outros totalmente ignorados pela história dos homens.
Mas, depois de algum tempo ausente, “Mel” decidiu voltar e conhecer o ser humano de hoje.
Como disse antes, veio sem uma forma definida, mas teve que adotar um modelo visual (ele pode se transformar), que lhe facilitasse a pesquisa.
Mas, como resolver esse problema?
Em outros tempos, podia adotar a forma de um mercador, pois os fenômenos humanos se discorriam em locais públicos como igrejas ou praças.
Mas soube que o homem de hoje se comunica através de computadores e que as grandes interações ocorrem dentro de suas casas, onde acessam o que denominam de “internet”.
Como então ser aceito para poder entrar numa residência e observar sem ser percebido?
- Já sei – pensou – adotarei a imagem de um cãozinho, daqueles bem, bem,... como é mesmo que eles (os humanos) definem? – ah, já me lembrei: “fofinho”.
Foi assim que “Mel” apareceu então na frente de uma casa de classe média brasileira, como um cãozinho da raça Yorkshire.
Latiu, latiu e foi recebido por uma menina, adolescente, de 14 anos, chamada Jú.
Assim começa a nossa história da “Ju” e seu cãozinho “Mel”.

Contextualização: A Pós Modernidade
A escolha desse título (“Junto e Misturado”) deveu-se à constatação de que o jargão parece definir de maneira lúdica e, portanto, didática, o universo temporal da pós-modernidade.
Trata-se de um momento na história em que o ser humano parece revolver a areia de uma praia improvável, em busca de um tesouro inexistente, pois que não pretende encontrá-lo na forma como tradicionalmente se conceberia.
Essa busca desnorteada pelo desconhecido, através, entretanto, do passado, é um dos paradoxos da pós-modernidade.
No modernismo, o homem se desconectou do passado e tentou trazer o futuro para o momento presente. Mas o futuro, simbolizado pelos avanços científicos, prometia trazer a paz, o progresso, o sucesso das sociedades e o prolongamento da vida.
O passado representava os grilhões, as amarras, o fracasso de uma era em que ora a igreja ora o estado manipulavam a vida e a mente da população, com o objetivo do poder e da riqueza de poucos.
Mas também o modernismo fracassou em suas expectativas.
A ciência não trouxe a solução para a fome, a miséria e a qualidade de vida que se esperava. Ao contrário, trouxe às guerras o potencial de destruição do próprio planeta.
Trouxe novas doenças e uma nova forma de escravidão, praticada nas fábricas, onde até mesmo crianças foram submetidas a jornadas de trabalho desumanas.
Trouxe ainda outra ameaça à destruição da vida através de substâncias químicas tóxicas, sistematicamente despejadas nos rios e na atmosfera.
O homem então, desconectado da igreja, desconecta-se agora também da ciência. Não que a ciência não esteja avançando, mas pela sua incompetência na construção de um mundo desejado.
Nas comunicações, a ciência trouxe também a velocidade e o acúmulo do conhecimento.

“É graças à nossa confiança na comunidade científica que acreditamos piamente ser verdade que a raiz quadrada de 2 é 1,41421356237309504880116887242096980785696718753768480717667973799073 (não sei de cor, consultei no meu laptop).” – Umberto Eco - Não contem com o fim do livro – Editora Record - 2010

O conhecimento derruba fronteiras e dissemina as informações, mas torna impossível a sua compreensão em profundidade. Exige do homem a especialização, gerando um processo contínuo de fragmentação.
Assim, as profissões se fragmentam: o médico não consegue trabalhar se não tiver uma especialização, assim como o engenheiro, o advogado, etc.
As verdades também são temporárias: com a mesma velocidade em que são estabelecidas, são superadas e substituídas com a fluidez de um rio cujas águas correm em ritmo acelerado.
Os modelos políticos numa lógica dual – capitalismo x comunismo, situação x oposição – apresentam-se incompetentes em ambas as opções, trazendo comunismos autoritários e capitalismos excludentes.
Em ambas a polaridades, a fome e a morte ainda são presentes em grande parte do mundo.
A globalização impõe modelos baseados na lógica capitalista, fazendo uso da tecnologia para seu próprio proveito, levando a população à alienação, esvaziando o indivíduo.
É possível estar na internet conectado com o mundo, mas esse mesmo universo lhe reduz a uma fração numérica.
O homem pós-moderno carece de identidade, não sabe mais qual a sua missão no mundo – a ele só interessa o presente, o prazer imediato e fluido.
A arte e a literatura, como ferramentas de discussão social, traem então essa incoerência e instabilidade, mas reflete também a busca pela identidade.

“Uma coisa que se revela nos mitos é que, no fundo do abismo, desponta a salvação. O momento crucial é aquele em que a verdadeira mensagem de transformação está prestes a surgir. No momento mais sombrio surge a luz.” – Joseph Campbell – O Poder do Mito – com Bill Moyers – Editora Palas Athena - 2008

É na busca do passado que ocorre a jornada em busca dessa identidade, mas o passado re-visto, relido e re-significado.
Porque até mesmo o passado, da forma como é transmitido nas escolas e nas instituições, passa a ser altamente questionado e discutido.
A arte e a literatura então trazem o passado e “zombam” dele, mostrando uma identidade flutuante, signo da angústia humana.
Escancaram uma mensagem crítica cáustica e provocativa, na tentativa de provocar mudanças e de acordar o homem para o seu valor intrínseco e particular – acordar enfim o indivíduo.

“Ju”    e “Mel”  – o dia-a-dia
 “Ju”   e “Mel”  tornaram-se inseparáveis.
“Mel” precisa da “Ju”  para se alimentar e se aproximar do computador, um lap top que vive no colo da “Ju”   , enquanto que esta não consegue viver sem o seu cãozinho de estimação.
“Mel” se aconchega a “Ju”   no sofá de sua casa, onde ela acessa e tecla sem parar o Orkut, MSN e alguns sites sobre assuntos da cultura popular.
“Mel” se lembra que a literatura surgiu para transmitir histórias para as gerações futuras, como crítica à sociedade e também para tentar solucionar os mistérios da vida e da morte.
Mas, observando “Ju”  , “Mel” encontra ícones na telinha o Laptop que lembram a comunicação visual medieval.
Esses ícones são acessados rapidamente, levando a outros pontos, outros assuntos, outros contatos, outras pessoas – a essa mágica dá-se o nome de hyperlink.
As telas se desenrolam como os antigos papiros, mais de um espaço virtual é observado pela “Ju”  , que tecla sem parar, num ritmo frenético, enquanto ri às gargalhadas com o que lê, muitas vezes frases no Twiter ou um vídeo enviado por uma colega da escola onde estuda.
O vídeo pode ser uma cena filmada no outro lado do mundo, alguém que cai, coisas divertidas do ponto de vista, é claro, de quem assiste.
“Mel” nunca imaginou que uma garota de 14 anos pudesse acessar tanta informação ao mesmo tempo.
Mas percebe também que as informações não são sempre confiáveis.
Além disso, são apenas informações rápidas, mostrando apenas os apelos mais chocantes – “Ju”   não vai além dos títulos e algumas linhas – rapidamente pula para outra informação, nada pode ser aprofundado.
Uma possível razão seria o tempo: há tanta informação que não seria possível se ater em profundidade em todos os assuntos.
“Mel” percebe que mais importante que se aprofundar é estar em dia com as notícias mais atuais, pois isso a coloca “dentro” do mundo.
Além do grande volume de informações que acessa, existe também o fator da simultaneidade: são todas lidas rapidamente, junto com conversas on-line com mais de uma pessoa.
A questão da possibilidade que “Ju”   tem em acessar a informação que lhe interessa traz uma situação nunca antes vista em suas viagens passadas a Terra: uma adolescente de 14 anos pode selecionar (e o faz com intensidade e freqüência), qual o assunto, site e pessoas com quem deseja contatar.
Ela também se comporta e se apresenta de uma forma padronizada nesse novo momento da Terra.

“A partir dos anos 1903-1905, forma-se uma nova linguagem do cinema, que convém absolutamente conhecer. Muitos romancistas acham que podem passar da escrita de um romance para a de um roteiro. Estão enganados. Não vêem que esses dois objetos escritos – um romance e um roteiro – utilizam na realidade duas escritas diferentes. A técnica não é de forma alguma uma facilidade. É uma exigência. Nada mais complicado que fazer uma peça de teatro para o rádio.” – Jean Claude Carrière - Não contem com o fim do livro – Editora Record - 2010

A constante evolução dos meios de comunicação exige o esforço na criação de novas linguagens.
Por exemplo: a “Ju” não escreve como antes se escreviam as cartas, mas existe uma linguagem própria e que os “internautas” estipularam como um código e inclusão digital. Então, uma frase como “eaê... quer tc.. tem Orkut?” é muito coerente nesse novo mundo.
Ah o Orkut... Um álbum obrigatório onde se colocam frases de apresentação pessoal e fotos, se possível feitas em estúdio. A apresentação no Orkut é mais importante que a realidade – vale tudo para se apresentar bela no Orkut.
O imaginário mundo virtual é mais importante que o chato mundo real. No real, “Ju” precisa estudar ir à escola, ajudar a mãe na faxina doméstica, coisas muito chatas, mas no virtual, ah, é possível encontrar pessoas, divertir-se muito, enfim, é esse o mundo interessante.



Outra coisa interessante e intrigante para “Mel”: o Youtube.
“Ju” entra no Youtube e assiste cenas incoerentes, como alguém cantando uma música com letra errada e desafinando ao ponto do ridículo. A reação: uma longa e alta gargalhada e rápido repasse do link para suas colegas “on line” no MSN.


Não existem histórias coerentes, o que vale é o bizarro, pois é engraçado.
Outra coisa importante: rir não basta – é preciso gargalhar e em tom alto – não só as colegas no MSN têm que ouvir, mas o som deve ecoar na casa toda.
Seria uma forma de comunicação com a sua mãe, que estaria em outro cômodo da casa e alheia ao que ocorre na telinha?
Mas tem também o rádio, que tem que estar na FM onde passa um programa denominado “Pânico”.
Nessa emissora, que tem que ser ouvida toda vez que a “Ju” é levada de carro pela mãe à sua escola, existem personagens estranhos, como o Fred Mercury Prateado, o Silvio Santos do Pânico, enfim, personagens descontextualizados, que se apropriam de outros conhecidos historicamente, mas com outro tipo de comportamento.
Existem também os personagens de rápidas histórias da rádio como o super-herói Homem Cueca, casado com a Mulher Calcinha e pai do Menino Frauda e o Doutor Pimpolho, um chefe tirano e sádico.
“Ju” não ri das histórias – quem tem que se segurar é ”Mel”, pois elas são de fato engraçadas, mas não conseguem atrair a atenção da “Ju” – apesar disso, é preciso manter a rádio ligada e nessa emissora - sempre.
“Mel” percebe que, fazendo uma síntese do dia-a-dia de “Ju”, é possível dizer que ela acorda tarde, vai para o Laptop e liga a TV – muitas vezes faz isso enquanto atende o celular.
Na TV existem os programas certos, vídeo clips e séries adolescentes – sempre os mesmos.
Perto do meio dia ela toma banho, almoça e vai para a escola.
No caminho, o rádio tem que estar ligado na FM de sempre.
Na volta da escola, no final da tarde, novamente liga a TV e põe o Laptop no colo.
Ah, ia me esquecendo: sempre com “Mel” ao seu lado.
A enorme autonomia conferida a uma menina tão jovem é, ao mesmo tempo, relevada pela tirania da cultura globalizante: é possível escolher, mas desde que sejam os mesmos canais mediáticos considerados atuais pelos seus colegas e amigos.
“Mel” imagina se a Terra fosse vítima de uma erupção solar, por exemplo, em que todos os sinais magnéticos e ondas fossem paralisados: o que aconteceria com a “Ju”?



O Oráculo
Ah, sim, como poderia me esquecer !!!! Existe um super oráculo.
Esse oráculo é fonte de toda pesquisa, responde de pronto todas as questões.
“Ju” recorre a ele sempre que precisa de alguma informação.
O nome desse oráculo é “Google”.
Mas ele não é sempre fiel: muitas vezes as informações vêm em um número tão grande de endereços de consulta na telinha do Laptop que fica impossível saber em qual informação se poderia confiar.
Mas isso é irrelevante: se está no “Google”, está respondido.
Simples assim e rápido como se requer na contemporaneidade.




Mas o volume de informações é extremo, assim como as fontes nem sempre confiáveis, criando milhares de páginas no “Google” para a pesquisa.

“JCC: Mas agora que dispomos de tudo sobre tudo, sem filtragem, de uma soma ilimitada de informações acessíveis em nossos monitores, o que significa a memória? Quando tivermos ao nosso lado um criado eletrônico capaz de responder a todas as nossas perguntas, mas também àquelas que não podemos sequer formular, o que nos restará para conhecer? Quando a nossa prótese souber tudo, absolutamente tudo, o que devemos aprender ainda?
UE: A arte da síntese.
JCC: Sim, e o próprio ato de aprender. Pois aprendemos a aprender.” Jean Claude Carrière e Umberto Eco - Não contem com o fim do livro – Editora Record - 2010

A Velocidade
“... E cada nova tecnologia implica a aquisição de um novo sistema de reflexos, o qual exige novos esforços, e isso num prazo cada vez mais curto. Foi preciso quase um século para as galinhas aprenderem a não atravessar a rua. A espécie terminou por se adaptar Às novas condições de circulação. Mas não dispomos desse tempo.” – Umberto Eco - Não contem com o fim do livro – Editora Record - 2010

O tempo em que uma forma de comunicação de mantém atual é cada vez menor.
Os computadores se multiplicaram, existindo hoje os de mesa, os Laptops, os Netbooks, os e-riders, os I-phones, os Tablets, os smartphones, etc...
Todos com acesso às redes sociais.
Mas até mesmo os formatos de comunicação são mutáveis: os e-mails são cada vez menos utilizados pelos jovens, que se valem das redes sociais, do Twiter e do MSN para se comunicarem.



Conclusão: Relatório de “Mel” aos seus alunos intergalácticos
“Mel” relata suas conclusões sobre o momento presente na Terra.
O homem parece ter chegado a um momento em que o conhecimento supera e muito sua capacidade de absorção.
O novo desafio é a escolha de uma parte do conhecimento humano e se desenvolver nele.
Assim, o conhecimento se fragmenta.
O modelo capitalista impõe uma homogeneização no comportamento, influenciando na maneira de falar, de comportar-se, de vestir-se e os gostos musicais e literários
Até mesmo a alimentação é padronizada.
Mas esse cenário cria o esvaziamento do indivíduo, que, igualado às massas, busca uma identidade perdida em sua história esquecida.
A dessacralização e a morte da cultura local, como o folclore, eliminam a culpa e o medo, dando ao homem uma autonomia nunca antes experimentada.
A alteridade é igualmente eliminada, pois que os outros são todos iguais (massificados), tornando o homem frio, egoísta e voltado para o prazer imediato – o prazer pelo prazer.
Não se espera nada do futuro.
O passado é a última fonte de identidade, mas precisa ser revisto e re-significado, pois que é constantemente questionado pelos cientistas especializados.
Também as novas descobertas exigem novos esforços na iniciação a uma nova linguagem, numa velocidade alucinante.
O que se espera da ciência é a eternidade juvenil e a beleza física – o corpo é a fonte do poder.
A morte do sagrado traz suas conseqüências e ameaça o homem à deriva, mas esse desconforto o obriga a buscar em suas raízes a real razão de sua existência.
Assim, Junto e Misturado torna-se a melhor descrição para a Pós Modernidade terrestre. O medieval servindo de fonte para a comunicação iconográfica, a tecnologia revirando o passado para atenuar a amnésia que esvazia o indivíduo, o presente servindo como objetivo último da existência humana.  


Referências
Campbell, Joseph – O Poder do Mito com Bill Moyers - Editora Palas Athena – 2008
Eco, Umberto – Carrière, Jean Claude – Não contem com o fim do livro – Editora Record - 2010