Friday, October 14, 2011

E Deus criou o homem à sua imagem...

Resenha sobre o livro: "Ciência e Bioética – Um olhar teológico”, Prof. Doutor Euler R. Westphal

No livro “Ciência e Bioética – Um olhar teológico”, o Professor Doutor Euler R. Westphal discorre sobre o tema da ética no momento em que a biotecnologia nos traz novos desafios que parecem insuperáveis, provocando no leitor uma reflexão incômoda, mas necessária.
A linha de pensamento traz a visão cristã, que serviu de base para nossa cultura e valores éticos até a Idade Média. Observando a Bíblia, no livro do Gênesis, é descrita a criação da seguinte maneira: “E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”
Se homem e mulher foram criados por Deus à sua imagem, então a humanidade é fruto do sagrado, pensamento presente em toda era cristã até o final da Idade Média.
Entretanto, a partir da Idade Moderna, essa visão teria sido substituída por um modelo conceitual utilitarista segundo o professor Euler, passando o ser humano e os demais seres da criação sendo vistos como “coisa”, cujo valor é atribuído pelo mercado, como objeto de consumo.
A reforma protestante potencializou a visão judaico-cristã, em que o ser humano passa a ser sujeito de seu destino, não mais dependente dos desígnios divinos, sendo que o caminho para a evolução espiritual viria agora através do trabalho, da conquista pessoal, esta então abençoada por Deus.
O desdobramento dessa diferente visão de mundo rendeu mudanças filosóficas que atingiram a ciência e a cultura.
A ciência atual seguindo um modelo com base no pensamento desenvolvido por René Descartes (1596-1650) passaria a separar o ser humano em dois elementos básicos e independentes: o corpo e a mente, res cogitans e res extensa.  Especializando-se então no “corpo”, deixando de considerar a “mente”, afastou-se dos aspectos psicológicos, sociais, ambientais e espirituais.
Assim, o homem-máquina deixa de ser um “sujeito” nas pesquisas e intervenções científicas, passando a ser tratado como um “objeto”.
O corpo visto como uma máquina que deve ser analisada em partes cada vez menores e específicas.
Da mesma maneira a natureza passa a ser vista como um recurso para exploração irresponsável, território de domínio do homem e passível de abusos em nome da evolução da ciência.
Retornando à Bíblia, temos ainda em Gênesis, sobre a criação do homem: “e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.
E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.
E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.”
Esse trecho parece reforçar a relação utilitarista bíblica da relação homem-natureza.
Entretanto, a visão bíblica de sujeição da natureza pelo homem fundamenta-se na sua serventia como mantimento, o que teria influenciado, segundo o professor Euler, o tratamento da Terra como organismo vivo, o que serviu por um longo tempo como limitação para as ações agressivas contra o meio ambiente, e complementa: “Agora o objetivo do conhecimento científico passou a ser o domínio e o controle da natureza, impondo-se uma visão profundamente inimiga da vida humana e da natureza”.
Mas então, como o homem, a partir da Idade Moderna, supre a perda do status de ser sagrado, sujeito e não objeto da ciência?
A tese do professor Euler é de que a ciência teria então ocupado o lugar da religião, desenvolvendo-se nas áreas de maior impacto no desejo humano: a salvação e a vida eterna.
 A salvação através da saúde e a vida eterna a partir do desenvolvimento da biotecnologia.
Cabe agora à ciência a resposta a essas questões, antes vindas de Deus, agora dos laboratórios, dos cientistas e dos genes.
Nessa busca da ciência, entretanto, a descoberta da possibilidade de manipulação genética coloca-nos em uma encruzilhada histórica sem precedentes, pois já se torna realidade a criação de seres, inclusive humanos, manipulados pelos cientistas.
A questão central dessa discussão ética é sobre a alteridade dos seres manipulados. Sobretudo quando essa manipulação tem objetivos mercantis, de maximização do lucro.
O poder de manipulação desperta a eugenia (purificação das raças, incluindo a humana), além de colocar a decisão sobe a vida nas mãos da visão utilitarista, que acaba por decidir por soluções como o aborto, a eutanásia e a distanásia (prolongamento inútil e sofrível da vida através de equipamentos).
A evolução científica já permite inclusive a procriação sem o contato homem-mulher, até mesmo sem a presença do espermatozóide.
“A noção de procriação é substituída pela prática da “re-produção”, como sendo um processo industrial”, ressalta o autor.
A decisão sobre questões desse tipo estão sendo depositadas nos interessados, como às mães, com relação ao aborto, que, segundo o autor, deveria ser tratado como a decisão sobre a vida, o que considera como patrimônio da humanidade, assim como os órgãos e o sangue, que não são vendidos, mas doados.
A questão colocada com destaque nessa análise é o reconhecimento da “dignidade” humana, de animais e de plantas, ou seja, se todo o ser vivente, incluindo o planeta e o meio ambiente.
Mas a “dignidade” é um conceito ligado à mente, à religião, ambos descartados pela visão utilitarista da ciência moderna e pós-moderna.
A noção de “dignidade” é uma confissão de fé, segundo o autor.
Mas a própria igreja, que não se posicionou contra a inseminação artificial, agora se vê em cheque na questão da utilização das células-tronco embrionárias, resultantes de experimentos inseminativos.
A ciência, entretanto, conta com pensadores que defendem a dignidade humana, como citado pelo autor, com  Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, que considera que “o ser humano não pode ser transformado em um meio, pois precisa ser visto como um fim em si mesmo”.
Mas essa lógica não é a tônica da modernidade e pós-modernidade, como relatada nesse livro.
O ser humano, sem poder recorrer ao sagrado, recorre à ciência, transformando o cientista em um ser mitológico, depositário de toda a verdade e senhor sobre a vida e a morte – esse é o ponto em que, segundo o Professor Euler, a ciência se transformou em religião.
Ocorre que, na visão do autor, a ciência não tem a possibilidade de assumir esse status e essa questão se agrava com o desenvolvimento da física quântica, que traz ao cientista o princípio da incerteza: a ciência não dá mais conta de si mesma, já não consegue enxergar a verdade, mas tem a consciência de que seus postulados passaram a ser apenas temporários.
Questões que se colocam cujo pensamento mecanicista não mais dá conta, envolvem a necessidade da visão orgânica, holística, da ecologia e das inter-relações do objeto, que agora clama por ser observado como sujeito em seu meio ambiente.
A ciência, assim como o cientista, entra então em crise.
A saída para essa crise seria, segundo o Professor Euler, a visita da ciência ao campo do religioso, do holístico, sobretudo o respeito à sabedoria dos povos, que tornou possível a sobrevivência da espécie humana até os dias presentes.
Por fim, conclui o autor que a “Ciência somente é possível na visão de pontos opostos. Excluir os opostos como possibilidade de trabalho científico empobrece a ciência e a coloca nas amarras da estreiteza analítica. Os pontos distintos para ver a realidade não são excludentes, mas são condição e possibilidade para que se tenha acesso à complexidade da realidade.”
E nesse ponto eu recorro à filosofia oriental, onde o TAO  “ que simboliza a oposição e combinação dos dois princípios básicos - yin e yang - do Universo, é uma grande parte da filosofia básica. Algumas das associações comuns com yang e yin, respectivamente, são: masculino e feminino, luz e sombra, ativo e passivo, movimento e quietude. Os taoistas acreditam que nenhum dos dois é mais importante ou melhor que o outro, na verdade, nenhum pode existir sem o outro, porque eles são aspectos equiparados do todo. São em última análise uma distinção artificial baseada em nossa percepção...”. (Wikipédia).
“Um dos principais ensinamentos do Taoísmo é o do velho dualismo, a competição dos opostos Yin e Yang que seriam duas energias encontradas em todas as coisas e que devem ser mantidas em equilíbrio. O excesso de qualquer uma destas duas energias é por eles considerado danoso. O Taoísmo ensina que quando estas duas forças (Yin e Yang) estão em equilíbrio na personalidade humana, então o perfeito humano ideal existirá” (http://intellectus-site.com).
Com essa visão Taoista, percebe-se que a compreensão do mundo, como o momento requer, não se restringe ao pensamento cristão, mas também se encontra no pensamento oriental Taoista e isso torna o assunto ainda mais interessante para uma futura análise, sendo que registro aqui minha sugestão ao Professor Euler.
Enfim, a leitura é instigante, assim como as polêmicas levantadas, por serem atuais e provocantes.
Cabe ao leitor a análise e a reflexão sobe o tema da ética na visão do religioso e tenho a certeza de que a sua interpretação tornar-se-á mais rica, embora o livro venha com certeza a incomodá-lo.

João Abeid Filho
Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade – Turma IV
Univille
14/10/2011