Monday, April 30, 2012

Resenha do livro "Pelas Tramas de Uma Cidade Migrante"

 COELHO, Ilanil. - Joinville: Ed. Univille, 2011.



Graduada em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos(UFSCar) e Doutora em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Professora no Curso História e no Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade da Univille, Coordenadora do grupo de pesquisa Cidade, Cultura e Diferença, Ilanil Coelho aborda no livro “Pelas tramas de uma cidade migrante” a evolução da cidade de Joinville a partir dos anos de 1980, do ponto de vista das correntes migratórias que colocam então em cheque a pretensa hegemonia histórica teuto-brasileira, a qual também problematiza.

Tema de sua tese de doutorado, a autora percorre as festas etnográficas e desenvolve, através de um olhar isento e científico, resultante de sua formação e de ser ela própria uma migrante, uma profunda análise sobre o multiculturalismo observado no tempo presente, suas raízes e suas dimensões.

Tive a grata oportunidade de dialogar com a professora llanil Coelho, como aluno no curso de mestrado na Univille, quando obtive algumas observações que complementam esta resenha.

A autora insere o leitor em sua pesquisa, colocando claramente os objetivos centrais de seu trabalho:

[...] busquei discutir os fluxos contemporâneos que passaram a atravessar a cidade a partir da década de 1980. As festas que estudei constituíram uma opção de trajeto que me levou a analisar, entre outras questões, as formas de apropriação e de criações que exprimiram diferentes práticas e sentimentos de pertencimento sobre o urbano. (P.115)

Revela que sua intenção foi procurar quem seriam as pessoas que teriam organizado o evento, quais as suas intenções, o que desejavam expor daquela tradição.

Coelho esclarece ainda seu objetivo de contextualizar o seu problema: identidades e identificações urbanas, perguntando-se sobre os movimentos migratórios -, como é que essas pessoas se apropriam da cidade (de Joinville)?

Escreve a autora que:

[...] a “paisagem” da minha pesquisa engloba a busca e a indicação de alguns pontos de referência para explicar Joinville como lugar praticado pelos joinvillenses, migrantes ou não. (P.19)

A Festa das Tradições em 2006, foi escolhida como primeira entrada no tema proposto.

Coelho relata que tinha um projeto de doutorado, onde a questão era obter as lembranças, as transformações urbanas a partir da década de 80, relacionadas com os movimentos migratórios e as formas como esses migrantes estavam produzindo as suas identidades, os seus vínculos de pertencimento com a cidade.

Quando chegou em Joinville (vinda de São Paulo), a representação que a cidade oferecia era de que era uma cidade alemã, o que era desmentido pelos jornais, que exaltavam a Festa das Tradições como demonstração de que Joinville se trata de uma cidade de diversidade cultural, uma cidade cosmopolita.

Evoluindo de festas anteriores, como a Fenachopp, (tentativa de reproduzir em Joinville o sucesso da Oxtoberfest de Blumenau), trata-se de um momento de espetacularização da cultura e a autora percebe na Festa das Tradições, observando os estandes expostos, uma comunidade imaginada.

Nos diversos estandes, o que se apresentava era um misto de memórias de outras nações apresentados como objetos de consumo, sem alusão à migração interna.

A autora explica que: sou paulista, mas, no contexto desse discurso, sou identificada como descendente de italianos. Prossegue a autora: parece que Joinville não consegue se olhar sem os óculos da etnização.

As manifestações etnográficas apresentadas na Festa das Tradições tentam atravessar e interconectar fronteiras territoriais, culturais e históricas, produzindo culturas híbridas, sob roupagem e impulso unificadores.(P.35)

O típico era digerido como fast-food.(P.82) coloca a autora, identificando a forma como são apresentadas as tradições.

Revendo a história, revisita a década de 80, quando os migrantes, antes vistos como solução para a mão de obra na indústria, passam a serem vistos como problema, quando a indústria reduz suas vagas em função de novas tecnologias.

O desemprego, aliado à chegada de novos migrantes em busca de uma realidade já não mais sustentada, leva a ocupação de bairros periféricos, causando a desestruturação no espaço urbano que ocupam, uma vez que a cidade não oferece meios para receber esse novo tipo de morador.

Nos anos 90, o desafio é inserir Joinville nos círculos globais, no mercado mundial das cidades.

É preciso criar empregos no setor de serviços, no comércio e o turismo pode ser a solução para a inclusão social.

O turismo, entretanto exige que a cidade tenha a sua identidade, que seja atrativa pela sua diferença, e essa identidade deve ser trazida do passado, de sua história, ainda que essa “história” seja idealizada.

A busca pela identidade, entretanto, revela conflitos e tensões expressos nos discursos colhidos e pela literatura histórica existente: Se para Ternes- (Apolinário Ternes, historiador)- era impossível desvincular a história da cidade da saga dos imigrantes alemães e seus descendentes, para Souza – Wilmar de Souza, presidente da Fundação Turística de Joinville (Promotur), entrevistado por Coelho na Festa da Tradições em 2008 – bastava “olhar” para essa história e constatar que “nunca foi alemã de fato”. (P.38)

Na Festa das Tradições, as entrevistas realizadas em cada estande revelam as tensões identitárias, a busca do pertencimento de cada grupo presente através de seus discursos e leituras feitas da história de Joinville.

A autora pesquisou também outras manifestações culturais como a Festa do Arroz e a Festa da Polenta, onde a configuração se diferencia da Festa das Tradições pelo fato de envolver leituras locais nas expressões populares em contrapartida à intencionalidade de fixar ideais multiculturais desta última.

Coelho prossegue sua pesquisa propondo um diálogo com os historiadores locais, como, por exemplo, Durval Muniz de Albuquerque e Apolinário Ternes, que relatam, cada qual de seu momento histórico e posição política, as origens da cidade.

Revela nos trabalhos realizados por esses historiadores e em dissertações sobre o tema da migração, as tensões existentes entre aqueles que atribuem às origens étnicas germânicas a criação de uma cidade pungente, aqueles que creditam essa visão ao pensamento elitista que reforça a dominação política na cidade e aqueles que por fim questionam a imagem étnica considerando o multiculturalismo presente desde a fundação da cidade.

As diversas tensões identitárias são verificadas na história oral dos moradores que se apropriam da história dos bairros, movimentos sociais, etnográficos e de opção sexual.

Essas tensões demonstram em certos momentos, a visão do migrante interno que, diferentemente do migrante trans-oceânico (aliado ao mito fundador), carrega a imagem de pobre, de pouca cultura e ligado à violência e transtornos sociais.

As tramas as quais sustentam o tecido social na cidade, revelam uma Joinville em constante movimento migratório, oriundo não mais de países europeus, mas de diversos pontos do Brasil, mudando rapidamente a paisagem e criando tensões que com as correntes políticas e mercadológicas que buscam por uma identidade imaginada, uma Joinville que talvez nunca tenha existido, mas que venha a alimentar sua sustentabilidade futura.

Estudos trazem cenários de uma nova e crescente população excluída, alijada dos benefícios e belezas da cidade somente desfrutadas pela população situada nas zonas nobres e tradicionais.

No capítulo III, a autora revela em números o movimento migratório e suas origens, a partir de 1980 até o ano 2000.

Nesse período, a maior parte da população é de origem do Sul, mas, em segundo lugar e em números crescentes, aparece a região Sudeste, que triplicou no período estudado.

Dentro da população do Sul, em primeiro lugar aparecem os Catarinenses, mas em segundo lugar vêm os Paranaenses, com expressivo crescimento no período, tendo quintuplicado a sua população em Joinville.

Desenrolam-se nesse capítulo entrevistas com migrantes, onde se obtém um rico material capaz de dialogar com os cientistas sociais com influência no pensamento contemporâneo.

Os discursos se mostram não somente como relatos de pertencimento às origens, mas também os de pertencimento aos bairros e lugares de vivência na cidade.

Impressões, estranhamentos e percepções são colhidas dos diferentes atores sociais e com as diversas esferas de contexto social, envolvendo migrantes, moradores locais, lideranças políticas entre outros.

Ao referir-se à migração nordestina, conclui brilhantemente que “o narrador, ao explicitar os sentidos e os sentimentos de pertencimento, quer que a sua narrativa traia um ordenamento territorial urbano imposto (preestabelecido). Insinua que as suas distintividades e os seus trajetos (lugares praticados) são dotados de força o suficiente para propor uma nova referência de colonização do espaço – um novo mapa -, no qual almeja subsumir outros trajetos, outros lugares e outras práticas cotidianas daqueles que pensa serem seus semelhantes e seus diferentes.” (P.111)

Diferenças são abordadas, como a questão do homossexualismo, narrado em entrevista com Charles Narloch, filiado da Associação Arco Iris, sempre do ponto de observação da construção das diferentes identidades na sociedade Joinvillense, muitas vezes mediante processos de grande sofrimento e enfrentamento.

Em entrevista com Silvestre Ferreira, migrante, criador e dirigente da Companhia Dionisos de Teatro, no momento em que se encenava na cidade a peça “Migrantes”, discorre sobre a importância do tema que, segundo Silvestre, é trabalhado sobre as memórias pessoais, consideradas como “O esqueleto”, que nos mantém em pé. (P. 245).

Silvestre demonstra a intenção de provocar a sociedade sem, entretanto, assumir o compromisso de um posicionamento histórico, colocando em sua entrevista que “o papel da arte é deslocar”, deixando que as conexões sejam feitas (ou não) livremente por parte dos seus espectadores.

Em suas conclusões, após o longo percurso de sua tese, a autora propõe que a Festa das Tradições, início de sua incursão no tema da migração em Joinville, demonstra que “a invenção de tradições fundada na invenção de passados étnicos consistia numa operação articulada aos processos de produção global da localização” (P.255)

As tramas as quais sustentam o tecido social na cidade, revelam uma Joinville em constante movimento migratório, oriundo não mais de países europeus, mas de diversos pontos do Brasil.

Mudando rapidamente a paisagem e criando tensões que, com as correntes políticas e mercadológicas que buscam por uma identidade imaginada, tentam expor uma Joinville que talvez nunca tenha existido, mas que se pretende que venha a alimentar sua sustentabilidade futura.

Ao encontrar hibridismos, interpretações de subjetividades, sentimentos de pertencimento e diferenças culturais, defende Joinville como essencialmente migrante, mas esclarece que a deslizante teia que envolve essas manifestações, formam tramas que deixam abertas portas para novos estudos.

Leitura obrigatória para aqueles que desejam se aprofundar nos movimentos sociais e históricos em Joinville, o livro consegue também proporcionar uma leitura agradável e picante, deixando no leitor o que entendo como maior característica da autora: o desconforto das incertezas e o sentimento da necessidade de ampliar as discussões.

Trabalho elaborado por João Abeid Fillho

Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade - Turma IV

Univille

24/04/2012

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