Friday, February 11, 2011

Uma visão sobre o social

O processo migratório

No Brasil, assim como em muitos outros paises, se observarmos o sobrenome de cada um de nós, assim como a origem de nossas famílias, constataremos que não somos originários sequer deste continente.

Tais movimentos são em grande parte motivados por crises econômicas e também desastres ecológicos.

Nossos antepassados, oriundos de outros países, chegaram ao Brasil com histórias sempre repletas de dificuldades, perda de patrimônio, fuga a perseguições étnicas ou religiosas, escravidão ou busca de oportunidades.

Esses movimentos migratórios estão presentes em toda a história da humanidade e parecem ser característica do comportamento humano.

Em grande parte das situações, a chegada a um lugar com maiores recursos é problemática, trazendo marginalização e dificuldades muitas vezes superadas apenas em gerações futuras.

O passo seguinte é de inserção fundamentada na força econômica desses grupos e no sucesso de parte dessa população.

O espírito de quem migra é de busca e de enfrentamento, o que faz com que acabem por disputar espaço com a população local, se estabelecendo e prosperando, gerando riquezas e redirecionando a economia, que passa em certo momento a depender dessa população.

No Brasil, esses movimentos hoje apresentam duas características principais: emigrações para países do considerado “primeiro mundo” e migrações internas, de estados com menos recursos em direção aos mais ricos.

Grandes movimentos migratórios ocorreram nas últimas décadas, ocasionando grandes problemas estruturais.

A Mulher Migrante

A condição da mulher, que vem de um ambiente de exclusão sexual, dependente financeiramente do marido, passa por novas perspectivas e possibilidades.

Essa mulher passa a encontrar na cidade grande uma inversão nesses valores, tendo mais oportunidades de emprego e renda pessoal, creches para as crianças, postos de saúde, etc, tornando-as independentes e considerando esse fator uma conquista da qual não abrirão mão.

Com renda própria, algumas vezes arrima da família, cria um perfil mercadológico de grande força, quando analisado quantitativamente.

Pode-se observar que essas mulheres, responsáveis pela qualidade de vida na família, vêm-se focadas na otimização dos recursos que dispõem, mas sem detrimento da qualidade dos produtos que compra.

Pesquisas mostram que famílias das classes D costumam prestigiar marcas consagradas, dissociadas do parâmetro de menores preços.

Mais que isso, essas pesquisas apontam a mulher como detentora do poder de compra e decisão, sobretudo quando se trata de produtos e serviços básicos.

A ação local x lógica capitalista

A população migrante que se estabelece na cidade, vem em busca de oportunidade de renda, assistência social, atendimento médico e escola para os filhos, o que não é oferecido com a qualidade mínima esperada em suas origens.

Ao chegar entretanto, encontram o sub-emprego, o desemprego, além de um custo de vida que não permite a compra ou locação de um imóvel para moradia, condição entre as mais elementares para a sobrevivência humana.

Assim sendo, ocupam espaços públicos ou privados, muitas vezes abandonados por descaso do estado ou especulação imobiliária.

Para isso, a ação individual não é eficaz, forçando a união e organização dos indivíduos numa ação de invasão e posse forçada do que não lhes pertence por direito legal.

Após a conquista do espaço, que envolve até mesmo o enfrentamento ao estado, buscam outras garantias como água, luz, ônibus, postos de saúde, creches etc.

Essas conquistas seguintes continuam dependendo de ações conjuntas e de enfrentamento em grupo.

Ao longo do tempo, as pessoas aprendem que somente pela ação em grupo e pela luta poderão conquistar direitos que são em última análise, garantidos pela constituição federal.

Entretanto, a lógica capitalista tem outro viés: o capital busca a competição e a concentração de renda. Dessa forma, busca o relacionamento individual entre empresa e cliente, onde o agrupamento de pessoas é indesejado, pois força o aumento nos custos operacionais e pode levar ao prejuízo.

O caminho do capitalista é a padronização, o que coloca a relação com essas comunidades numa condição imprópria, gerando conflitos.

O cliente cativo

Serviços como energia e água, são recursos básicos para a saúde e a qualidade de vida.

Não tendo um mercado aberto, o cliente se vê obrigado a aceitar as condições e regras impostas pelo fornecedor, sendo ele estatal ou privado, mas sempre caracterizado como um monopólio.

Como colocado antes, o fornecedor busca a padronização no atendimento e não traz soluções adequadas para esse novo tipo de cliente, que apresenta características distintas e não responde aos modelos impostos por esse fornecedor em algumas situações.

Mais uma vez, a solução que essas famílias buscam é de atenção ao grupo, mas encontram barreiras nesse relacionamento.

Cientes de que o atendimento individual pode trazer insucesso, as comunidades buscam a fórmula que historicamente usaram com sucesso, ou seja: a ação conjunta.

Quando o fornecedor não traz a solução desejada, a comunidade lança mão dos instrumentos que dispõem para seu atendimento, como a apropriação do recurso de forma organizada.

Nesse contexto, ferramentas como paralisação de vias públicas, acampamento ou invasão de prédios públicos ou privados são utilizadas e, por atraírem a imprensa, acabam por trazer resultados mais abrangentes.

Também a classe política se vê tentada a patrocinar movimentações populares, com foco em seu resultado perseguido: o voto.

Mudança de Estratégia

A estagnação da economia mundial verificada nos países tidos como do “primeiro mundo”, baseada na diminuição do crescimento vegetativo, traz os olhos dos grandes investidores para os países emergentes.

Nesses países, um pequeno movimento no sentido da melhor distribuição de renda pode gerar um grande aumento na demanda por produtos ou serviços, movimentando o mercado mundial.

Por essa razão, as empresas se modelam para atenderem a um novo tipo de consumidor, com novas necessidades de satisfação a serem exploradas, mas também com características próprias de consumo, envolvendo acessos alternativos as crédito, formas de venda a prazo, atendimento adequado, etc.

Com o empobrecimento mundial e a concentração de famílias de baixo poder aquisitivo em áreas identificáveis nas cidades, empresários começam a perceber a força de consumo quantitativo desse mercado potencial.

Grandes redes de supermercados desenvolveram lojas voltadas para esse segmento mercadológico, com formato próprio de apresentação, logística e estratégia, obtendo retorno financeiro consistente e sustentável.

Esse remodelamento envolve a ação junto às comunidades onde atuam.

Essa aproximação com a comunidade permite uma convivência segura e abre espaço para ações de sustentabilidade, trazendo então a fórmula para o aumento nas vendas.

A fórmula comumente utilizada e que tem trazido resultados é a seguinte:

negócios com baixo investimento: revisão de estrutura e de gestão

redução dos custos de operacionalização: modelos de apresentação, comunicação, estoque e atendimento revistos

produtos com preços competitivos com o mercado informal: o mercado informal é o grande concorrente nesse negócio, em função dos preços que pratica – a força das grandes redes permite melhores compras pelo ganho de escala para produtos de qualidade reconhecida

apelo a marcas consagradas e com menor oferta de opções

capital humano captado junto às comunidades alvo

Empresas prestadoras de serviços essenciais se aproximam das comunidades com ações sociais e educativas, buscando a melhoria na imagem e maior retorno financeiro, muitas vezes com foco na redução da inadimplência pelo melhor uso dos serviços.

Sustentabilidade

É possível obter resultados melhores se a comunidade se desenvolve, com elevação de renda das famílias.

Entretanto, resolver essa equação é tarefa que envolve políticas governamentais, interesse econômico e intervenção da sociedade organizada.

O modelo brasileiro de reciclagem, com a figura dos catadores de detritos como latinhas de alumínio, embalagens Pet, papelão e outros, trouxe nova atividade à população sem qualificação para o mercado de trabalho formal.

Esse é um exemplo de sustentabilidade aliando a limpeza do meio ambiente, a reciclagem de detritos sólidos e a geração de renda.

As ações de intervenção baseadas em idealismo e filantropia, não se sustentam pelo fato de dependerem de indivíduos e empresas interessadas em valores como o reconhecimento ou a imagem institucional.

As ações do governo são temporárias e de curto prazo, uma vez que grande parte dos políticos não quer dar continuidade a uma ação que traga referência a gestões passadas.

O que move o mundo é o capital, a renda estável e previsível.

Dessa forma, as soluções para a valorização do meio ambiente devem levar em conta o fator econômico.

Não se derrubam árvores por prazer, mas por uma renda: existe quem compra a madeira.

Então, plantar árvores deveria ser algo rentável.

Pensar no meio ambiente inclui pensar no homem e sua qualidade de vida.

O migrante e o meio ambiente

O migrante que chega às grandes cidades, via de regra são originários do norte ou nordeste.

Em muitos casos, as regiões de onde vem são de natureza exuberante.

Entretanto, a falta de políticas de viabilidade econômica torna a vida insustentável, levando a população a buscar melhores oportunidades em outros lugares.

A imagem que têm das cidades é associada a riquezas e oportunidades.

Em contrapartida, a visão da natureza traz a realidade da vida sem oportunidades, da miséria e do sofrimento.

É perceptível como os novos bairros formados por esse tipo de migrante apresentam graves problemas ambientais.

Em muitos casos, as áreas ocupadas são de preservação ambiental.

Os veios d'água são comumente vítimas do lixo doméstico e do esgoto..

As árvores são muitas vezes derrubadas e a paisagem começa a se deteriorar rapidamente.

Quando alcançam a oportunidade de construção de casa em alvenaria, uma das ações visíveis é o cimento no quintal, eliminando qualquer espaço para a vegetação.

O consumo de vegetais, legumes e hortaliças não é ensinado às gerações vindouras, que procuram a alimentação através de produtos industrializados.

É comum encontrar crianças que se alimentam de “salgadinhos” e refrigerantes, mas que não fazem refeições saudáveis baseadas em produtos naturais.

É como se a natureza fosse algo a ser esquecido.

Não percebem a beleza em lagos, riachos ou matas nativas.

Para mudança desse quadro é necessário que as crianças sejam educadas para o reconhecimento da natureza como fator de saúde e preservação das espécies, incluindo o homem.

Mas também é necessário que se desenvolvam modelos de geração de renda voltados à melhoria e preservação ambiental.

O consumismo e a cadeia de valores

Quando estudamos a população de baixa renda, precisamos nos lembrar da pirâmide de necessidades, onde a hierarquia se dá pelo atendimento a necessidades básicas na base, chegando às necessidades mais elaboradas em seu topo.

É claro que alguém com baixa renda terá que pensar, primeiramente, na comida que vai trazer para casa, e se isso for alcançado através da destruição do meio ambiente, não haverá nenhuma razão maior que o deterá.

Assim, não se consegue obter avanços na educação sem que se permita o acesso às necessidades básicas.

Entretanto, a ideologia consumista acaba por criar falsas necessidades no ideário humano, levando a priorização de produtos e serviços que, se analisados à luz da razão, não são importantes para o conforto ou saciedade humana.

Celulares, produtos de marca, sobretudo tenis e roupas, são objeto de consumo por parte dessa população, obtidos com a facilidade do financiamento fácil, mesmo que com juros exacerbados.

Seria mais coerente que se buscasse a educação através da leitura, de cursos ou de eventos culturais.

Mas existem fatores que são determinantes para o consumismo inócuo:

Pelo abandono social em que vivem e pela baixa formação educacional, acreditam não serem capazes de aprender ou ter acesso a escolas, universidades ou cursos profissionalizantes.

Acreditam que, para pertencerem a um grupo social com acesso a oportunidades, devem se parecer como tal. Assim, usam modelos fabricados pela mídia.

A busca por uma identidade que se compare com classes sociais mais elevadas, faz com que rejeitem soluções caseiras, ou desenvolvidas para suas condições aquisitivas.

Usar um produto que seja desenvolvido para classes sociais de menor renda trará uma identidade perceptível e indesejada, que irá reforçar a sua situação de exclusão.

O (des)valor humano

A luta pela sobrevivência e a ideologia corrente transformaram o homem em produto.

Mas esse “produto” o homem, é de um mercado de oferta, com baixa demanda.

Assim sendo, seguindo as leis de mercado, é produto de baixo valor.

Ter renda própria e capaz de atender às necessidades mínimas já é uma conquista difícil.

O comportamento paternalista do estado, que prefere manter programas de sustentação mínima a investir na educação, desenha um cenário onde algumas lógicas são desenvolvidas, como as que relaciono na sequência:

É possível ter acesso a benefícios financeiros quando se tem filhos, como o programa bolsa família, por exemplo.

Esse benefício pode ser a única chance de renda: portanto é preciso ter filhos.

Os filhos crescem: após certo tempo, deixam de garantir esses benefícios – portanto, é preciso ter novos filhos, mas os mais velhos devem trazer renda ou serão descartáveis.

A mulher que tem filhos, tem renda. Se o marido a deixar, terá também pensão. Portanto, quanto mais cedo tiver filhos e quanto maior o número de filhos, de preferência de pais diferentes, maior será a renda pessoal.

Quanto à relação com o mercado de trabalho, outros valores se somam a esse cenário:

O homem deve ser produtivo, do ponto de vista das empresas e suas necessidades.

Somente o homem produtivo tem oportunidade de renda e ascensão.

O homem é considerado produtivo entre 16 e 40 anos de idade.

Sendo a perspectiva de vida prevista no Brasil de 70 anos, então o homem somente será produtivo 36% de sua vida. Isso equivale a dizer que em 66% de sua vida, o homem é considerado improdutivo e não terá acesso ao mercado formal de trabalho.

É fácil entender porque crianças e idosos sejam vítimas de abandono e violência.

Assim como é compreensível o fato de mulheres da baixa renda optarem por muitos filhos, uma vez que reside aí a sua sustentabilidade econômica.

O Tráfico de drogas

Onde o estado está ausente, o tráfico domina.

Essa premissa demonstra com propriedade o que se percebe nas comunidades onde os direitos constitucionais de moradia, segurança, emprego e outras formas de proteção não se verificam.

A assistência do estado, quando ineficaz, faz com que a sociedade busque alternativas, pois são questões relevantes de sobrevivência.

Essa ausência do estado é sentida em todas as classes sociais.

Nas classes mais favorecidas, os mecanismos de assistência são pagos a empresas prestadoras de serviços, tais como convênios de saúde, proteção de segurança particular, seguradoras etc.

Nas comunidades de baixo poder aquisitivo porém, essas alternativas não são acessíveis.

A forma ética de garantia de direitos é a busca por esses serviços de forma organizada e representativa, através de manifestações populares, associações de moradores, entre outras.

Mas existe a forma “não-ética” de garantia desse atendimento.

O tráfico de drogas é uma atividade lucrativa e que traz oportunidade de renda rápida, além de chances de ascensão social.

Entretanto, por se tratar de atividade criminosa, precisa do apoio da comunidade para sobreviver.

Para isso, realiza ações sociais não garantidas pelo estado, como o atendimento nos momentos de emergência, o socorro material e a segurança.

Exemplificando, quando um barraco é destruído por uma chuva forte ou por acidente, o estado não socorre a família dentro do tempo necessário.

O traficante entretanto, levanta o barraco novamente e restabelece as condições mínimas para a família atingida.

Garante assim o apoio da comunidade, agindo também com a garantia da segurança dentro das comunidades.

Via de regra o traficante tem maior renda, ostenta bens desejados, sobretudo pelos jovens, além de demonstrar poder.

Em resumo, acaba se tornando um modelo de alguém que obtém poder e sucesso financeiro.

Resumindo, o trabalho com o tráfico traz renda elevada e em tempo rápido, respeito da comunidade em função do medo, valores que não são alcançados através de outros meios.

É muito fácil entrar para o tráfico e também muito sedutor para os jovens que buscam a realização de seus sonhos materiais e não encontram alternativas.

O difícil é sair.

Muita vezes, a morte é a única porta de saída desse mundo, onde informações não podem ser divulgadas e o controle da inadimplência é feito pela eliminação dos devedores.

O papel da igreja

As igrejas são hoje mais numerosas que os bares nessas comunidades.

A igreja católica exerce força política, mas tem perdido espaço nas últimas décadas para as diversas denominações que se auto intitulam como “evangélicas”.

Essas últimas, cobrando o dízimo dos adeptos, conseguem viabilidade econômica e se proliferam.

Têm importante papel no controle social, o que pode ser positivo, quando se trata do combate às práticas criminosas e ao uso de drogas, incluído o alcoolismo.

Muitas vezes são a única porta de saída para o vício e o crime, agindo como instrumentos de transformação social.

Entretanto, são também mecanismos de alienação e estancam o pensamento criativo e crítico.

Assistência Social

A assistência social oficial é muitas vezes composta por profissionais em número subdimensionado e com recursos limitados.

Incapazes de dar o atendimento necessário, são também limitados por regras e políticas limitadoras.

Quando realizada pela sociedade civil organizada, como as associações, ONGs e OSCIPs, pode ser direcionada e parcial, não garantindo o atendimento a todos, em parte pela limitação de recursos, em parte pelo foco e missão de cada uma delas.

Políticas governamentais elaboradas para o atendimento por modelos padronizados, baseados em pesquisas, não enxergam as especificidades de cada família, o que traz inevitáveis distorções.

Essas distorções poderiam ser mitigadas se houvesse a presença mais efetiva dos assistentes sociais na comunidade.

O comportamento assistencialista

Políticas públicas de socorro social, quando distanciadas de um modelo de educação libertador, acabam se tornando mecanismos de controle social e sendo confundidas como “direito unilateral”.

Muitas pessoas acabam por acreditar que não existe forma de vida viável sem a interferência do estado.

Ficam dependentes dos programas assistenciais para obtenção de renda e alimentação.

Pior que isso, não vêem esses recursos como atendimento temporário e contingencial, mas como obrigação do estado.

Esse pensamento limitador acaba por reforçar a exclusão social, pela apatia de uma população que desistiu de lutar pelo seu crescimento profissional e pessoal.

Esse pensamento acaba contaminando a relação com outros setores da sociedade, como por exemplo, as prestadoras de serviços como água, luz, correios, e transporte, entre outras.

Esses serviços são vistos como “direito devido pelo estado” por grande parte da população

É verdade que o estado tem participação na viabilização desses serviços à população, mas a cobrança pelos serviços por parte das empresas que atuam nesses setores é considerada como “imposto” e, como tal, passível de subsídios.

Por essa mesma razão, o uso racional desses serviços não faz parte do ideário popular, mas a falta deles, ainda que temporária, pode gerar um sentimento de violação de direitos e causar grande reação.

O processo de formação dos bairros

As origens

Falta de estrutura e aniquilamento da esperança movimentam o fluxo migratório para cidades estruturadas.

A escolha do local

Locais públicos ou de especulação imobiliária, abandonados, são alvos das ocupações.

Se for possível um local próximo ao centro, esse será o local escolhido, pois o transporte será conquistado em tempo incalculável.

É comum ouvir comentários sobre áreas negociadas com políticos para ocupação, atendendo a interesses escusos.

Também se contam estórias sobre áreas de interesse para ocupação por parte de empreendedores, pois o estado pode, num processo de regularização, comprar a área ocupada e negociar a venda dos terrenos via Secretarias de Obras, COHABs etc. Essa compra pode ser em valores interessantes aos empreendedores, o que tornaria possível o incentivo às ocupações.

Outra estória que se conta é o interesse no aumento de moradores, futuros eleitores nos municípios, contribuindo para o aumento de cargos públicos nas Câmaras de Vereadores.

Em nenhum momento a questão ambiental é levada em consideração: ocupações são feitas muitas vezes em áreas de preservação ambiental e, em alguns casos, a natureza pode apresentar obstáculos às construções: esses “obstáculos” são removidos como a derrubada de árvores ou destruição de recursos naturais.

A ocupação

A ocupação é feita de forma organizada e em grupo.

As famílias montam barracas e constroem barracos em madeira compensada, utilizando muitas vezes materiais descartados como out doors placas de sinalização, etc.

Os telhados são feitos com telhas de fibrocimento.

Existem as lideranças locais, que organizam a ocupação, definindo ruas e quadras e influenciando os migrantes na escolha dos locais para a montagem dos barracos.

Os recursos básicos

Levantados os barracos, são obtidos recursos mínimos para a vida em sociedade, como a água e a luz, que são desviados de fontes de alimentação próximas.

São os conhecidos “gatos” de água e de luz.

A água é obtida através de mangueiras que são enterradas no solo, simulando uma rede subterrânea clandestina.

A energia elétrica é desviada de transformadores próximos, formando redes clandestinas que alimentam todas as famílias.

Esses serviços são realizados por pessoas no grupo com conhecimentos em hidráulica e elétrica e não são fornecidos gratuitamente: é cobrada taxa aos moradores para a confecção desses “gatos” e, em caso de problemas no fornecimento, o atendimento é feito por essas mesmas pessoas, sendo também cobrado o serviço.

Os custos para permanência

Em alguns casos, grupos se colocam no comando da ocupação, mediante a imposição pela força, com uso de armas e ameaças.

Esses grupos muitas vezes cobram taxas mensais para permanência no bairro e aqueles que se rebelam correm o risco de serem expulsos ou eliminados.

Mudança no perfil dos moradores

O estado muitas vezes é lento na ação de remoção e essa demora acaba por inviabilizar a retirada das famílias, pelo alto custo político envolvido.

Algumas pessoas invadem apenas para garantir um espaço e, uma vez que o tempo discorra sem ação do estado, aumentam as possibilidades de posse dos terrenos, o que permite a “venda” a novos migrantes.

Num segundo momento, aparecem migrantes que compram essas casas, e também existem aqueles que “alugam” os barracos.

Após algum tempo, essas lideranças dão lugar a associações de moradores, em princípio informais, que administram a entrada e saída de famílias, criam taxas de serviços e tornam-se boas plataformas políticas, atraindo pessoas com interesses em carreira pública.

Essas associações se tornam o caminho para negociações com o poder público e mobilizam a população para manifestações populares com o objetivo de trazer melhorias e o reconhecimento da ocupação como “bairro”, pela regularização dos lotes.

A chegada dos primeiros recursos sociais

Em grande parte dos casos, o transporte público é o primeiro benefício a chegar pela ação do poder público.

A atuação de assitentes sociais e de saúde pública também mapeiam e dão atendimento à população.

ONGs chegam para a realização de projetos sociais, como construção de creches, distribuição de alimentos, etc.

O processo de regularização

O poder público inicia o processo de regularização da ocupação.

Nesse ponto, as associações passam a se tornar oficiais, configuradas como pessoas jurídicas.

Dessa forma, negociada a compra da área pelo poder público, a associação passa a ser a interlocutora no processo de organização do bairro, se confundindo muitas vezes com o poder público, pois realiza ações locais como um “braço” da administração.

É então iniciada a medição dos lotes e remoção das famílias em áreas de risco.

O poder público, tendo o mapa definitivo do novo bairro, autoriza a colocação de rede de água e de energia elétrica no bairro.

Os moradores então passam a ser cadastrados para o recebimento desses benefícios em diversos momentos.

É nesse momento que se desenvolve a certeza de que serão proprietários do terreno onde estão.

Ocorre então o aumento no valor dos terrenos e começam então a entrar no bairro novos tipos de famílias.

As que chegam e as que ficam, confiantes na permanência, começam a transformar os barracos de madeira em casas populares em alvenaria básica.

Áreas de comércio são definidas e então se desenvolvem rapidamente.

Alguns começam a construir um segundo andar ou mesmo a construção de casas com perfil diferenciado do contexto local, mudando a paisagem no bairro.

Moradores com menores recursos migram para locais de futura remoção (áreas de risco), ou para quadras menos favorecidas.

Escola e creche são inauguradas pelo poder público.

Ruas onde passa o transporte público são asfaltadas num primeiro momento. Logo depois, todo o bairro é atingido pelo asfalto.

O aumento no custo de vida e o conseqüente choque cultural

Com a chegada dos recursos, os custos para a permanência no bairro começam a aumentar.

Surge a prestação do terreno, o IPTU, as contas de água e de luz.

Esse aumento no custo de vida não tem contrapartida na renda mensal.

O consumo de água e de luz é muitas vezes inadequado, pois as construções são precárias, assim como os equipamentos eletrodomésticos: é possível encontrar famílias com contas altas, superiores às verificadas em bairros mais favorecidos.

O consumo clandestino permanece pelas seguintes razões:

1 – incapacidade de pagamento em função da baixa renda

2 – incapacidade de pagamento em função do consumo inadequado

3 – avaliação desses serviços como “direito a ser garantido pelo estado”, e não passível de cobrança

Ações de cobrança são tidas como violação de direitos e podem gerar conflitos.

Se o bairro estiver em condições geográficas que caracterizem o isolamento, tornando possível o controle sobre a entrada e saída, a situação pode se agravar pelo fortalecimento do tráfico de drogas, que pode então passar a controlar e impor regras de convivência.

Entretanto, a situação pode caminhar para outra solução, com a saída das famílias com menor renda para novas ocupações em estágios anteriores, ou pelo aumento no custo de vida ou pela valorização dos lotes.

O processo de desenvolvimento

Se essa última alternativa ocorre, o bairro então se confunde com outros tantos na cidade, as lideranças perdem gradualmente sua influência e as pessoas perdem o sentido da ação conjunta, tornando-se individualistas, como deseja o modelo capitalista, e buscando soluções de forma isolada.

Parte dessa população crescerá com o bairro e as oportunidades que surgem, tanto pela ação assistencial promovida por O.G.s, O.N.Gs e iniciativa privada, quanto pelo crescimento do comércio.

O poder aquisitivo aumenta e o comércio se desenvolve, chamando a atenção de grupos de empresários de maior influência.

A cidade se transforma pela influência de novas culturas e o comércio passa a depender dessa população e sua força de compra.

Algumas lideranças podem atingir cargos públicos e passarão a exercer influência na cidade.

Outra avaliação possível é de que a evolução local não soluciona os problemas das famílias desasistidas, que acabam por mudar para regiões em estágio de evolução anterior, pois se livram assim do aumento no custo de vida e continuam a depender do estado.

A cidadania e a percepção do estado

O conceito de cidadania pressupõe o acesso aos direitos e o cumprimento de obrigações.

Ocorre que essa balança deve ser equilibrada, o que não se verifica nessa população.

Direitos não são garantidos e nem mesmo são do conhecimento dos que mais necessitam deles.

Entretanto, as obrigações são cobradas e em alguns casos de forma ostensiva.

Assim sendo, o estado é visto como o juiz impiedoso e parcial.

Essa visão é passada através das instituições, como a polícia, o poder judiciário e até mesmo a escola.

Essas instituições estão mais prontas para punir do que para amparar.

Para piorar esse cenário, são muitas vezes corruptas e compõem acordos com o crime organizado.

Em algumas comunidades, há mais temor pela polícia do que pelo tráfico: “ o traficante avisa quando vai agir, dá tempo de recolher as crianças – a polícia já chega atirando e matando gente inocente” (depoimento ouvido no Núcleo Residencial Gênesis, em Campinas/SP, no ano de 2002).

Escolas ou presídios?

A escola tem atuação semelhante, reproduzindo o poder.

O investimento é feito na construção, em uniformes e lancheiras. A educação continua sem atenção, com professores desatualizados, mal remunerados e despreparados para o trabalho com as comunidades.

A direção da escola, via de regra, tem uma postura marcial, se impondo pelo medo.

As mães são chamadas a participar de reuniões de pais e mestres, mas com a finalidade da repreensão por mal comportamento dos filhos ou outras formas de intimidação.

Dessa forma, as famílias se afastam das escolas, quando deveriam ser orientadas para uma ação de responsabilidade compartilhada.

Com grades, câmeras, guardas nas portarias e vigilância policial específica, se parecem mais com presídios.

Além de não conseguirem educar, acabam por afastar os alunos que mais precisam de um acompanhamento do estado.

Isso aliado a um modelo pedagógico desvinculado do despertar da cidadania e do desenvolvimento pessoal, que muitas vezes prepara o jovem para um mercado de trabalho formal, mercado esse que não traz oportunidades.

Ações de protagonismo juvenil são raras e quase sempre trazidas por meio da sociedade civil organizada, que não têm recursos para atingir a todos.

Assim sendo, o conhecimento, quando voltado para o campo profissional, prepara a população para as atividades de menor remuneração e com menores chances de desenvolvimento.

A Lei 10.097/2000, conhecida como a Lei do Aprendiz, além de não ser cumprida em sua totalidade, em função da falta de interesse do governo na fiscalização das empresas, acaba por servir como mecanismo de transformação do jovem em mão de obra barata, o que contraria o próprio princípio da lei.

A bolsa família está aumentando a freqüência escolar, mas pela pressão das famílias que passam a depender da renda correspondente.

Isso aumenta a tensão em jovens em formação pela criação de uma situação sem saída, castradora da criatividade e da livre expressão.

É comum, por exemplo, não permitir a entrada na escola de alunos com bonés. O uso do boné entretanto pode estar ligado à timidês, necessidade de integração e até mesmo vergonha do cabelo (caso verificado em escola pública no ano de 2007, em Campinas, o aluno deixou de frequentar curso profissionalizante do Programa Juventude Cidadã por essa razão).

Formas equivocadas de ajuda

Pessoas de classes sociais mais favorecidas, muitas vezes se organizam em entidades assistenciais, através do trabalho voluntário.

Ocorre que nem sempre estão preparadas para uma intervenção eficaz e acabam por gerar distorções e reforçar o assistencialismo como forma de manter o povo dependente de ações externas.

Algumas motivações levam essas pessoas a esse tipo de atitude, como por exemplo a necessidade de atender a uma inquietação na consciência e da vontade de participar de ações que ajudem a mudar o mundo.

Entretanto, outras situações causam a mesma motivação, como:

Necessidade de reconhecimento: o mundo do trabalho, assim como as relações familiares não têm trazido o reconhecimento profissional e pessoal almejado. Uma forma de obter esse reconhecimento é atuar com pessoas consideradas com “menor informação”. Assim, o desnível educacional pode garantir esse reconhecimento.

Necessidade profissional: hoje, as grandes empresas avaliam melhor funcionários que atuam em trabalhos voluntários, motivando essa busca.

O preconceito

Alguns conceitos tidos como verdadeiros por pessoas desavisadas acabam por trazer posicionamentos equivocados.

Alguns desses pré-conceitos são os seguintes:

Pessoas moradoras em bairros carentes têm menor grau de instrução.

Isso nem sempre é verdadeiro: é bom lembrar que nem todos nasceram na comunidade: alguns foram vítimas de fracassos financeiros e acabaram tendo que optar por esse tipo de local, pela incapacidade de obtenção de renda mensal capaz de suprir recursos para um aluguel, por exemplo.

É mais correto pensar que as pessoas não são da favela, mas estão na favela.

Pessoas moradores em bairros carentes não têm capacidade de evoluir e dependem exclusivamente de alguém como eu.

Ledo engano, que pressupõe uma arrogância inconsciente. Pessoas assim existem aos montes, daquelas que desejam ser vistas como “boas”, ou por razões religiosas ou por busca de auto-afirmação.

Pessoas moradoras em bairros carentes não compreendem a minha linguagem

Mais uma vez a arrogância inconsciente. Muitas pessoas estudam as palavras para se comunicar com as famílias nessas comunidades. Eu creio que existe sempre uma forma de se comunicar universal.

É possível ter uma linguagem objetiva que possa ser compreendida por qualquer pessoa.

Não quero dizer com isso que se possa falar sobre assuntos técnicos e específicos, mas pense um pouco: você precisa disso? Você discute com a sua mãe sobre a fusão a frio?

Quando se tenta mudar a forma de falar com pessoas moradoras nessas comunidades, o que ocorre é que se assume um “personagem”, baseado em muitos pre-conceitos e perceptível pelo receptor da mensagem, mesmo que seja alguém com pouca ou nenhuma formação educacional.

Meu conhecimento será útil, seja ele qual for.

É preciso ter conhecimento sobre as reais necessidades das comunidades e competência compatível para uma ação voluntária. Mais que isso, qualquer ação, para ser eficaz, precisa ser planejada e considerar alianças com O.G.s, ONGs, associações de moradores, igrejas e outras lideranças locais.

Por conta desses erros de avaliação, já ouvi frases como as seguintes:

“As pessoas pensam que pobre não tem dentes” - Parque Oziel – Gleba B, Campinas/SP - ano de 2004, proferida por morador que comentava sobre a sopa trazida diariamente por uma ONG com atuação no local.

“Tem gente que trata a gente como se fosse idiota” - Jdim São Marcos – Campinas/SP – ano de 2002, proferida por morador em relação a forma de tratamento usada por voluntária de uma conhecida ONG com atuação no local.

Projetos questionáveis

Algumas instituições realizam ações com a finalidade de arrebanhar pessoas para a composição de seu grupo de influência.

Assim se vêm igrejas, que se proliferam e acabam por implantar conceitos que não dão espaço ao questionamento e à crítica, uma vez que considerados como “verdades absolutas”, aniquilando assim o poder de crítica e, portanto, o desenvolvimento intelectual.

Outra situação é aplicar um projeto sem avaliação de suas reais consequências, como por exemplo, as “escolas de circo”.

A consequência da difusão desse conhecimento contribuiu para a criação dos malabaristas de semáforos, o que reforçou a posição de exclusão social.

Vivendo os “medos”

Se é verdade que existe o medo de nos aproximarmos de bairros menos assistidos, é igualmente verdadeiro o medo dessas comunidades com relação a quem chega.

A polícia age de forma diferente ao entrar nesses bairros, motivada pelo medo, sendo mais agressiva e menos cuidadosa com o morador comum, confundindo-o muitas vezes com o delinqüente.

Pessoas mal intencionadas fazem muitas vezes vítimas em comunidades formadas por famílias com baixa instrução: é difícil entender, mas é muito fácil entrar num bairro desses e levar o dinheiro guardado para o almoço do dia seguinte de muitas famílias.

A estratégia de defesa adotada nas comunidades menos favorecidas é muitas vezes a transformação do espaço em “condomínio fechado”, com regras rígidas de conduta e acessibilidade.

Assim, pipas colocadas no ar por crianças, olheiros transeuntes e outras formas de comunicação são frequentemente adotadas como forma de preservar o negócio do tráfico e também para a segurança das famílias.

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