Saturday, February 13, 2016

MOMENTOS MÁGICOS



Existem momentos que vivemos em que algo mágico, inesperado e surpreendente ocorre e que, além de mexer com nossa sensibilidade, fica raízes em nossas memórias e nos faz refletir.
Se aperfeiçoarmos essa sensibilidade, creio que possamos nos tornar pessoas melhores.
Vou contar alguns desses momentos que vivi recentemente.

O primeiro deles foi uma viagem que fiz ao Parque Vila Velha, no município paranaense de Ponta Grossa.
Existem três locais de visitação: os arenitos gigantes, as furnas e a lagoa dourada.
Os arenitos são a principal atração do lugar: tratam-se de rochas gigantes em formatos diversos e que se formaram em eras anteriores à existência humana.

foto do autor

As furnas são formações surpreendentes, formadas por infiltração de água ao longo de muito tempo e que cria um fosso natural, como se fossem buracos circulares com água no fundo.

http://www.edestinos.com.br/blog/2013/08/conheca-o-ecoturismo-nos-campos-gerais/ 


A lagoa dourada tem esse nome por adquirir essa cor em algumas horas da tarde, mas isso não ocorre sempre: apenas em certas épocas do ano.
Foi o primeiro local que visitei. Como fui pela manhã, a visão dessa lagoa não trazia nenhuma peculiaridade, apenas uma lagoa comum, possível de ser vista em muitos lugares.
Entretanto, repentinamente, fomos surpreendidos por uma revoada de “andorinhões”, um pássaro que faz ninhos nas furnas mas que, naquele momento, por alguma razão desconhecida, saíram dessas furnas e decidiram sobrevoar a lagoa. Esses pássaros compuseram uma nuvem e desciam na lagoa, raspando suas barrigas na água e tornando a levantar voo, circulando sobre nossas cabeças, como um lindo espetáculo de balé, que durou cerca de vinte minutos.
O guia nos contou que, em quatro anos de trabalho diário naquele local, nunca ocorrera esse fenômeno.

http://www.recantodasletras.com.br/prosapoetica/3622977

O que prometia ser uma visita a uma lagoa comum tornou-se um momento mágico que sei que jamais esquecerei.


O segundo ocorreu no dia 10 de fevereiro (2016), em Joinville, na esquina da rua Dona Francisca com a rua Princesa Isabel. Existe um semáforo nessa esquina, que fica no centro da cidade, onde um músico toca um instrumento de sopro, creio que um “pistão” (sou leigo sobre instrumentos musicais), em troca de doações dos inquietos motoristas que aguardam o sinal verde, para chegarem aos seus destinos.
Nesse dia especifico, às 17h10, eu passava de bicicleta pelo local quando me deparei com um momento mágico: esse artista tocava seu instrumento enquanto um jovem e uma menina, ambos portadores da Síndrome de Down, dançavam na calçada. Uma mulher, pedestre que atravessava essa esquina naquele momento, também parou e começou a dançar.
Foi um espetáculo de sensibilidade e beleza, despertando um sentimento de infância, ingenuidade e alegria genuína.


Indo mais longe no tempo, nos anos entre 2002 e 2004, vivi também duas experiências semelhantes.
Estava eu na comunidade Jardim Monte Cristo, em Campinas, São Paulo, trabalhando num programa social e, por volta das 17h00, já começando a descer o sol, o bairro foi tomado por uma luminosidade cor laranja. Percebi  algo de diferente, um lapso de segundos em que intui alguma alteração quase imperceptível.  É como os segundo que antecedem um grande acontecimento, quando o tempo parece parar e um silêncio estranho povoa nossa mente, deixando-nos numa sensação de câmera lenta e em estado de alerta.
Uma nuvem de insetos invadiu o local: tanajuras voando tomaram conta da rua onde eu estava. Atrás delas, crianças corriam alegres e gritando, capturando-as aos montes.
Após a passada dessa nuvem, as crianças trouxeram os insetos capturados: eles foram preparados e fritos. Foi acrescentado açúcar e canela, formando uma farofa doce que tive a oportunidade de provar. Apesar de parecer bizarro, o sabor é muito bom.
A manifestação daqueles insetos, fechando uma tarde de calor em um bairro habitado por famílias pobres, dificilmente seria vista em outros locais. Foi como um presente para aquele local, um momento em que provei da alegria de crianças que ainda se encantam com as manifestações naturais, num mundo tão artificial.


Em Jundiaí, dois anos após, caminhava numa comunidade igualmente pobre, com o mesmo programa social, subindo ladeiras improváveis nos morros que eram tomados pelas construções rudimentares das famílias.
Numa dessas caminhadas, subi uma rua e, para chegar a outro local, a única forma possível era entrar nos quintais de certas casas, atravessando até quatro casas até chegar ao local desejado, o que era considerado comum para as famílias do lugar. O meu destino foi o topo de um morro e, ao chegar lá, fiquei estarrecido com a vista que tive: diante de mim, descortinava-se um vale rodeado por montanhas, nas quais não se viam áreas vazias, mas, todas elas pontilhadas de construções precárias. O espetáculo dessa visão se dava pelas dimensões e pela semelhança com um Coliseu romano formado por barracos, alguns sobrepostos sobre os outros.
É difícil descrever o que senti, mas, até hoje essa visão ocupa minha memória. Havia algo de mágico naquela visão, naquele momento. As construções precárias, juntas naquelas montanhas, com um vale, no formato de um Coliseu, ornavam como uma paisagem exótica, como se fosse uma obra de arte viva e compartilhada.




Mário Sérgio Cortella[1] nos relata a seguinte história:

Em 1974, dois caciques da nação Xavante vieram visitar a cidade de São Paulo. Na época, os xavantes não usavam o dinheiro como meio de qualidade de vida. Para eles, qualidade de vida era alimento, porque era o jeito de garantir sobrevivência.
Nós os levamos também a um lugar magnífico, o Mercado Municipal, na área central. Aquilo é uma espécie de entreposto comercial, imenso, projetado por Ramos de Azevedo, grande arquiteto que fez o Teatro Municipal e a Faculdade de Saúde Pública. E no Mercado Municipal é comida para todo lado. Eles deram dois passos e ficaram pasmos. Pilhas de alface, de tomates, de cenoura, de laranja. Ficaram com o olhar talvez como o nosso olhar ficaria se entrássemos no cofre de um banco. Em certo momento, um deles viu uma coisa que nenhum e nenhuma de nós veria. Ele cutucou e perguntou: "O que ele está fazendo?" E apontou no chão um menino negro, pobre (a gente sabia que era pobre por causa da roupa, ele não saberia) pegando alface pisada, tomate estragado, batata já moída e colocando num saquinho. Nenhum e nenhuma de nós veria aquilo, pois para nós era normal. Normal? Cuidado com o conceito de normal. 

Fiz questão de trazer esse texto para mostrar que existem situações em que momentos mágicos ocorrem , mas, assim como ocorreu com os caciques, muitos de nós não conseguem mais enxergar, distantes que estamos com nossos pensamentos de ansiedade, mergulhados nas redes sociais, enfim, ou talvez por não suportarmos admitir que estamos errados em muitas situações.


A pergunta que eu me faço é: será que esses momentos mágicos, que tanta importância têm em nos fazer refletir e que parecem nos tornarem melhores, estariam ocorrendo, por acaso, aqui e ali, a todo o momento, mas distantes de nosso olhar sensível?

Seriam eles expressões de amor, divinas, para nos lembrar que somos humanos?

Fica a questão para sua meditação.






[1] Mario Sérgio Cortella, filósofo, escritor, educador, palestrante e professor universitário brasileiro.

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