MEU ENCONTRO COM UM “GRIOT”


No dia 7 de janeiro deste ano de 2026, assumi a missão de visitar uma comunidade recentemente reconhecida como um “quilombo” (2020): a Comunidade Ribeirão do Cubatão. 

Localizada na zona rural do município de Joinville, a comunidade é composta por 12 residências, todas elas ocupadas por pessoas da mesma família. 

O líder dessa comunidade, Sr. Olívio, recebeu-nos, a mim e a minha colega de trabalho Samanta, com muita hospitalidade e gentileza. 

Apresentamo-nos e logo o Sr. Olívio começou, espontaneamente, a relatar sobre sua vida, suas origens e sobre a comunidade. 

Existem duas comunidades em Joinville que foram reconhecidas pela Fundação Palmares, como quilombo. A outra comunidade, denominada Beco do Caminho Curto, já era de meu conhecimento e conta com mais de 20 famílias, espremidas em um pequeno espaço cercado em meio a uma propriedade rural. 

Em ambas as situações, o reconhecimento veio pela ação de estudiosos interessados, entre eles a Alessandra Bernardino, que conheci há alguns anos. Foram feitos levantamentos históricos que revelaram o destino de comunidades formadas por escravos na região. 

As pessoas que habitam essas comunidades não tinham conhecimento de suas origens, mas, no caso do Sr. Olívio, por exemplo, comprovou-se ser neto de um escravo, Antonio  Naro, alforriado em 1879 por ter contribuído para a cura de doentes com febre amarela. 

Conta o Sr. Olívio, que o conhecimento herdado pelo avô quando ainda vivia na África, sobre remédios naturais obtidos de plantas e ervas, foi com certeza determinante para o sucesso nas curas para uma doença que, à época, a ciência não dispunha de recursos para seu tratamento. 

Ao longo da conversa, o Sr. Olívio foi nos revelando seu conhecimento, apesar da baixa escolaridade, acumulado em sua vida e suas experiências em diversas formas de trabalho e relacionamentos com pessoas relevantes na história da cidade. 

Foram horas de conversa que em ficamos, eu e a minha colega, quietos – decidimos ouvir apenas, uma vez que as histórias eram muitas, diversificadas e muito interessantes. 

Quando eu comecei a me preocupar com o horário de retorno, ele perguntou se poderia cantar algumas músicas de sua autoria, ao que decidimos aceitar com curiosidade e admiração. 

A primeira música ele nos dedicou, por tratar-se da “amizade”: “ofereço a vocês essa música, porque acredito ter conhecido agora dois novos amigos”. 

Cantou ainda mais duas músicas, uma delas relatando a questão da escravidão e da ancestralidade da população negra. 

Em algum momento, ele disse que talvez já tivesse me conhecido no passado, mas, o problema é que nossas histórias e lugares percorridos são por demais divergentes. 

Argumentei que talvez nos conheçamos de vidas passadas, caso isso seja possível, pois senti também essa sensação de estar reencontrando um amigo. 

Sr. Olívio lamentou o não reconhecimento de sua família e de sua comunidade pela sua história comum. Disse-nos que tem sido convidado para palestrar em universidades, escolas e instituições públicas e privadas, mas, não é ouvido pelos seus. 

Existem dois aspectos que me chamaram à atenção. Um deles é a semelhança da personalidade do Sr. Olívio com os “Griots”.  

Griots eram os guardiões do conhecimento na África antiga. Todo o conhecimento era levado às gerações mais novas por um Griot, que instruía, aconselhava e educava a comunidade, uma vez que não havia o acesso aos registros pelos meios atuais, como livros e materiais impressos ou digitais. 

Passavam aos jovens os ensinamentos culturais, as tradições e crenças, sendo os responsáveis pela tradição oral para os povos africanos. 

Existem relatos que ensinavam à sombra dos baobás, uma conhecida árvore de origem africana pela sua importância conferida na cultura daqueles povos. 

Quando um Griot morria, era enterrado com honras na base de um baobá. 

O Sr. Olívio, tendo ultrapassado os 70 anos de idade, resume toda a essência de um Griot, sendo um deles no momento presente e tentando se fazer ouvir para uma comunidade que esqueceu o seu passado e a importância de sua ancestralidade. 

Um Griot, contador de histórias, reconhecido por interessados e estudiosos de fora de sua família. 

Eu percebi esse seu ressentimento e disse a ele que eu também vivo com essa realidade, não por ser um Griot, mas por ter vivido muito e acumular conhecimentos que não são reconhecidos pelos mais próximos. Esse seja talvez o resultado da perda do respeito e reconhecimento pelos mais idosos, marca de nossa sociedade que cultiva a cultura dos mais jovens, como se a juventude fosse eterna. 

Ou talvez seja mais um exemplo do que começo a acreditar, que “os afetos se alimentam de distâncias”, uma outra forma de reforçar o antigo ditado popular que diz que “santo de casa não faz milagres” 

Posso dizer que conheci um novo amigo: um verdadeiro Griot da atualidade. 

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