Sunday, November 13, 2005

Conto "Partida", publicado pela Editora Edicon em 1989

Partida
O sol está a pino.
Maria Lúcia traz a toalha e cobre a mesa de tábuas.
Meu estômago está me avisando que um bom prato de comida será bem vindo.
Lembro de minha infância quando corria pelo imenso quintal da casa de meus pais, puxando um carrinho de madeira pelo barbante, indiferente aos apelos de minha mãe: “Quinzinho! Venha almoçar!”...
Depois de muito procurar, mamãe me pegava pelo braço e me arrastava para a cozinha, vociferando lamúrias.
No almoço eu não podia falar. Meu pai se sentava à mesa com tom severo e punha-se a comer, fazendo, de vez em quando, um comentário sobre política ou sua manhã de trabalho na repartição.
- Papai, pode se sentar – disse Maria Lúcia, apontando a cadeira de espaldar alto.
Jorge, meu genro, já estava sentado esperando ser servido.
- Você viu como está ventando hoje? Se não tivesse ido lá fora pela manhã, os passarinhos teriam morrido de frio – disse eu, percebendo que não fui ouvido.
- Me passe o limão querida – disse Jorge com a boca cheia.
Se fosse no meu tempo, pensei, seria severamente censurado.
Meu pai era um homem rude, que só se dirigia a mim para dar “broncas”.
Meu melhor amigo, na infância, fora o “Toquinho”, um “vira-latas” sem rabo, que corria atrás de mim o dia todo.
Interessante o fato das crianças se apegarem aos animais. Talvez o motivo seja o fato de que são criaturinhas simples, sem falsidades ou mal-humor. Autênticos, comem quando têm fome, dormem quando têm sono, latem quando estão bravos e estão sempre em volta da gente, mostrando uma alegria sincera ao nos ver.
Eu conversava hoara a fio com o Toquinho. Ele parecia me entender.
Quantas vezes eu tentava me aproximar de mamãe, contando histórias, coisas de criança. Tudo o que conseguia fazer era arrancar dela um “Vá brincar Quinzinho, me deixe arrumar esta casa!”.
Quando alcancei os onze anos, fui estudar na Escola Rural, onde me tornei interno e só via meus pais nos finais de semana.
Toquinho morreu um tempo depois, levando consigo o sabor de minha infância.
- Papai! Papai! Já lhe chamei duas vezes e o senhor não me responde- disse Maria Lúcia irritada.
- Vai ficar o dia inteiro nessa mesa? Eu preciso arrumar a cozinha!
Acostumado com a maneira rude de tratamento, dirigi-me à varanda de casa com o jornal na mão, como faço todos os dias, pretexto para um cochilo.
Gosto de observar o movimento das pessoas na rua, sempre acontece algo diferente, o que torna menos pesado o fardo da rotina diária.
Da varando consigo ver uma grande região, pois a nossa casa encontra-se no alto de uma colina, o ponto mais alto da cidade.
As pessoas, como formigas, apressadas, me levam à lembrança os tempos em que comecei minha vida profissional. Recém casado, com a maleta embaixo do braço, corria pelas ruas da cidade atrás da “jardineira”. Chegava sempre cedo ao escritório, mas o medo de um atraso me fazia correr sempre.
Trabalhava o dia inteiro, saía cedo e só voltava, exausto, ao anoitecer.
Muitas vezes não conseguia sequer ver Maria Lúcia acordada.
Entrava em casa devagar, para não fazer barulho, dava-lhe um beijo na testa e ia, sussurrando, contar as novidades à minha querida Laura, que o tempo cruelse encarregou de levar, numa noite triste, meses após o casamento de nossa filha.
- Papai! È hora de se banhar!
O tempo é capaz de esculpir as pessoas, tornando-as amargas à medida que envelhecemos.
Hoje ninguém me dirige a palavra a não ser para me avisar que horas são e o que deveria estar fazendo.
Mas as coisas não foram sempre assim.
- Dr. Joaquim, o senhor está muito elegante hoje – me dizia Dona Marilda, minha secretária.
Participava de coquetéis e era sempre lembrado nas festas das famílias tradicionais da cidade.
Apesar de todo o aparato, sempre consegui ser popular. Um dia, numa entrevista, me perguntaram qual o segredo de minha humildade, ao que respondi: “Na vida desempenhamos determinados papéis. Hoje meu papel é o de um político influente. Amanhã, quando não mais puder atuar, voltarei a ser eu: simples, pequenino, indefeso, com todos os erros humanos e sem qualquer tipo de ilustração.
Espero ser lembrado então, pelas pessoas sinceras que hoje me cercam, pelo que sou e não pelo papel que represento.”
Ironia da vida. Quem dera viesse a ser lembrado.
Hoje não encontro nenhum daqueles que outrora viviam em minha casa, trazendo presentes e me chamando de amigo.
As pessoas nos vêem pela máscara que usamos.
Quando encontramo-nos despojados de maquilagens, com nossas fraquezas à vista, nus como quando crianças, deixamos de merecer atenção e nos tornamos alvo de toda a sorte de censura ou críticas.
À noite, após o jantar, sentei-me diante da televisão.
Os jovens vivem dizendo que a TV é uma “máquina alienadora”, cuja programação não tem outro objetivo senão o de nos induzir ao consumo e às ideologias reinantes.
Para mim é a única coisa capaz de despertar interesse. Mão faz perguntas nem críticas, trata a todos da mesma forma sem relevo, mas também sem desprezo.
Dá-nos a oportunidade de participarmos de shows, viagens, coisas que jamais poderia pensar, na situação em que me encontro.
Maria Lúcia entra na sala com uma expressão no olhar que nunca havia percebido em outras ocasiões.
Senta-se no sofá, que encontra-se ao lado da poltrona em que estou, continua a me olhar.
- Algum problema minha filha? – pergunto.
- Não,...quer dizer,...estou preocupada. As coisas estão difíceis papai.
- Como assim?
- Bem,...estamos numa crise...as despesas estão muito altas...creio que terei que arrumar um emprego.
- Maria Lúcia, creio que você acharpa uma saída. Você é uma moça inteligente, não terá problemas em arrumar serviço.
Ela me olhou novamente e, sem dizer mais nada, levantou-se e dirigiu-se ao quarto.
Havia algo que ela não disse, pensei. Algo importante e que tem a ver comigo.
Maria Lúcia sempre se comporta dessa forma quando está diante de uma decisão importante. Mas, qual seria a decisão e por que olhou-me daquela maneira?
Preciso falar-lhe, mas vou arrumar um motivo para a procurar e, aí, sutilmente procurar arrancar a verdade que a inquieta.
Corri os olhos pela sala em busca de algo que me trouxesse à mente alguma idéia e percebi que ela havia deixado sua bolsa em cima do bufê.
Levantei-me e peguei a pequena bolsa de couro vermelho, mas não percebi que o fecho estava aberto e acabei derrubando seus pertences no chão.
Ao abaixar-me, percebi um folheto publicitário, com uma bonita paisagem na capa, intitulado “Recanto das Andorinhas”. Peguei-o e descobri que se tratava de uma casa de repouso, um asilo de idosos.
Levei um choque tão forte que pensei que fosse ter um enfarto.
Então era isso! Maria Lúcia vai trabalhar fora e por isso não mais terá condições de cuidar de mim, o qiue a fez procurar um asilo para me internar. Por isso não teve coragem de falar comigo.
Um forte nó surgiu em minha garganta.
Fui para a cama para não deixar transparecer minha angústia, mas não consegui dormir.
A noite foi longa.
Conheço os asilos, locais onde serei obrigado a conviver com pessoas esclerosadas e que urinam nas camas.
Ficarei esquecido, pois ninguém se lembra de visitar um parente numa casa de repouso.
Maria Lúcia aparecerá uma vez ou outra, quando sua consciência a acusar.
Não quero isso, não quero esse fim.
Não posso admitir esse tipo de tratamento a alguém que já ajudou a tantos.
Como pode um ser humano lutar toda uma vida e, de uma hora para a outra, se tornar um empecilho, um objeto indesejado? Aonde está a memória das pessoas? Aonde foram meus feitos, minhas proezas, minhas qualidades, minha elegância?
Será que o tempo carregou com tudo e me deixou somente as máculas?
A manhã chegou após uma exaustiva espera, após medidos e analisados todos os minutos.
Alguns raios de sol penetraram em meu quarto, pelas frestas da janela a manhã chegou radiante, cheia de energia, indiferente aos meus lamentos.
Levantei-me cedo e decidir sair, me despedir do mundo.
Ver o mar, as pessoas, as crianças correndo, as mulheres se bronzeando.
Tomar um caldo de cana bem gelado, mesmo sabendo que estou proibido de faze-lo, por culpa de meu diabetes.
Mas não posso sair simplesmente. Terei que sair escondido de Maria Lúcia. Esperar um descuido dela.
Fico aguardando o momento.
Peguei minha carteira com um pouco de dinheiro, o suficiente para o caldo de cana e alguma outra aventura barata, mas com um significado todo especial para mim.
Esperei uma hora e quinze minutos, até que ela resolveu ir ao banheiro.
Assim que fechou a porta do banheiro, dirigi-me pé-ante-pé até a rua.
Num instante eu estava no meio do povo.
Não sabia bem aonde ir. Apenas caminhava sem destino.
Cheguei à praia após uma longa caminhada, pois decidira não tomar ônibus, queria andar livre, talvez fosse a última vez.
Era quarta-feira e a praia tinha pouca gente. Corri ao garapeiro e sorvi o caldo de cana de um só gole – aos diabos a taxa de açúcar!
Não sou mais velho, sou criança!
Estou livre!
Posso correr se quiser, posso sentar-me e dormir sem ser admoestado.
Decidi andar pela praia. Vou andar até cair de cansaço!
Vejo à minha frente crianças brincando na areia, jovens de olhos nas meninas – belas meninas.
O tempo perdeu o sentido para mim. Esse carrasco que corre sempre contra a nossa vontade se transformou numa marionete obediente aos meus comandos.
Quantas vezes, criança, sonhava atingir a maioridade para poder participar das conversas, trabalhar, ter o respeito e a atenção de todos, poder exprimir minhas opiniões sem um “isso não é assunto para criança Quinzinho”.
Naquela época o tempo era lento e cruel.
Depism quando enfim me vi nessa situação, com idade, vigor e independência para viver a minha vida, o mesmo tempo me foi por demais rápido, não me permitindo realizar todos os projetos e me colocando rapidamente de lado, como um fardo pesado e indesejável.
Agora não. Agora sou o que quiser e tenho a idade que sonhar ter.
O sol está muito quente, mas eu posso encostar numa sombra por algum tempo e beber mais caldo de cana gelado, para recobrar o ânimo e tornar à marcha.
Já passei por mais de quatro praias e a noite começa a chamar o sol para o poente.
Os raios luminosos mergulham no mar transformando a paisagem num espetáculo de cores, que vão do laranja ao vermelho.
Nesse momento me sinto cansado. Apesar de toda a fantasia, a noite traz consigo as suas seqüelas.
O dia parece nos ensinar o ciclo vital e, apesar de observa-lo com tanta freqüência, não nos damos conta de suas lições.
As manhãs nos trazem do sono, são coloridas, perfumadas, mas ainda agimos com sonolência nas primeiras horas do dia.
Ao meio dia, nosso metabolismo está a plena carga, juntamente com o sol em nossas cabeças.
Quando a noite cai, lembramo-nos de nosso dia, estamos já cansados e sabemos que em breve voltaremos ao sono.
Assim me sinto, o cansaço do dia se une ao cansaço da vida e a espera do sono noturno passa a representar a espera pelo fim da vida.
Não quero saber que horas são.
Sento-me na calçada e percebo que algo estranho se processa.
Sinto-me partindo, morrendo. Escuto um ruído e vejo, na escuridão, um vulto a se aproximar rapidamente. É um cão – seria o Toquinho? Sim, só pode ser ele, ou será que estou sonhando?
- Venha meu caro Toquinho. Sente-se aqui. Vamos conversar, tenho muito a lhe contar...
No céu vejo as estrelas, uma noite muito bonita. A lua cheia, brilhante.
- Cá estou eu, destino! Não me cobre mais nada. Meu tempo já se foi.

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