A ILUSÃO DA LIDERANÇA
Somos bombardeados constantemente com publicações, palestras, cursos e eventos sobre “liderança”.
Isso começou a me incomodar há algum tempo.
Por que devemos buscar ser “líderes”?
A pergunta surge após a constatação óbvia de que o mundo tem muito mais liderados do que líderes.
“O levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego, com dados do IBGE até o quarto trimestre de 2024, mostra esse grupo na ordem de alguns milhões de trabalhadores, aproximadamente 4% a 5% da população ocupada.”
Então, em cada 100 empregos, apenas 5 serão ocupados por cargos de liderança, o que equivale a dizer que 95 serão ocupados por liderados.
Seria, portanto, muito mais interessante que houvesse esforço maior no preparo de pessoas para o trabalho em equipe.
A raiz dessa lógica, do incentivo à liderança, pode estar no modelo competitivo em que estamos inseridos.
Isso faz com que as pessoas disputem vagas e apenas algumas as alcancem.
É verdade que toda a lógica capitalista se fundamenta na competição, o que não justifica que, dentro das empresas, essa lógica se estabeleça entre os colaboradores. Aliás, seria muito melhor se os colaboradores tivessem uma visão coletiva sobre as missões das empresas, pois, assim sendo, haveria maior empenho e um ambiente mais criativo, o que não ocorre quando, para se conseguir um salário melhor, o colaborador tenha que lutar contra seus colegas na disputa por um cargo de liderança.
É igualmente lógico pensar que, se todos adquirirem conhecimentos sobre liderança, seguindo os dados apresentados, 95% serão frustrados.
Essa parece a fórmula social da competitividade, onde poucos alcançam o desejo de todos e quase todos se frustram. Um modelo onde a maioria perde.
Onde trabalho atualmente, tenho colegas com formações e talentos incríveis, que não são aproveitados. Alguns com Mestrado e até Doutorado, sem que possam usar seus conhecimentos em favor da empresa e muito menos serem justamente remunerados pelo simples fato que estarem presos a uma hierarquia rígida.
Então por que tanta oferta e, quase uma doutrinação, sobre a importância em adquirir conhecimentos sobre liderança?
No ano de 2013, estive em um evento em São Paulo, que ocorre anualmente, cuja temática é sobre Recursos Humanos.
Conheci, naquela ocasião, uma empresa que decidiu eliminar os cargos de liderança: a “Vagas.com”. As decisões eram tomadas em reuniões envolvendo toda a equipe. Nas entrevistas de emprego, eram escolhidas pessoas com perfil de trabalho em equipe. Esse modelo traz, ao mesmo tempo, um maior comprometimento sobre as decisões tomadas por todos, melhor distribuição dos recursos pagos em salários e na participação nos lucros, beneficiando a todos de forma mais equitativa, além de deixar a competitividade para a empresa como um todo, contra seus concorrentes. Essa empresa atua ainda neste momento e com esse modelo de gestão.
Existem mais empresas no país que eliminaram os cargos gerenciais.
É importante verificar, entretanto, que podem haver líderes em determinados momentos, mas, essa liderança é sobre processos e recai sobre aqueles que, naquele momento, têm maior conhecimento específico, podendo, assim, orientar os demais nos caminhos corretos.
Existem formas de gestão sem cargos de liderança, e são conhecidos como:
- Gestão sem Chefia (Empresa Mercur - Santa Cruz do Sul/RS área da Saúde, Educação e Mobilidade)
- Gestão Horizontal (Empresa Vagas.com - recolocação profissional base virtual)
- Autogestão (Empresa CPI Tegus, fabricante de fitas de borda e revstimentos metamínicos)
- Holacracia e Sociocracia (Empresa EPPO, saneamento e serviços ambientais)
- Gestão Compartilhada (Empresa Verte, tecnologia para cidades resilientes e infraestruturas críticas)
Em um mundo onde a população humana aumenta constantemente, aliado ao fato de que o consumo por pessoa aumenta com o avanço das tecnologias, colocando a disponibilidade de recursos naturais planetários em situação crítica, é preciso repensar os modelos econômicos e de gestão como um todo.
O capitalismo fundamenta-se no crescimento constante e na competição, o que não converge com nosso cenário atual de limite planetário.
Essa afirmação pode levar alguns a pensar que não existe modelo melhor ou outros a apresentar o comunismo como melhor modelo, mas, o que quero questionar é a antiguidade desses modelos.
O Manifesto Comunista é de 1848 e o capitalismo se consolidou quando da Revolução Industrial, no século XIX.
Do tempo de suas criações até o momento presente, o mundo evolui numa rapidez exponencial e essa velocidade está em aceleração com o advento da inteligência artificial.
Como podemos pensar num mundo tão diferente com as mesmas fórmulas que moldaram os anos 1800?
Não seria a hora de questionarmos essa lógica de “liderança” e criar novos modelos de gestão?

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