O Tempo e o Vento

 

"Eu, por exemplo, já pensei muito sobre o que pediria ao Diabo em troca da minha alma. Já que não quero nem poder, nem glória, nem, na minha idade, loiras ilimitadas. O que seria? Não, não pediria Sabedoria, nem o domínio sobre o Tempo e o Espaço. Pediria, para começar, que a minha mala fosse sempre a primeira a aparecer na esteira, no aeroporto."

Luís Fernando Veríssimo (O Melhor das Comédias da Vida Privada, editora Objetiva, edição de 2004, página 277)

 


Selecionei esse trecho do conto “O que eu pediria ao Diabo”, do Veríssimo, como ponto de reflexão sobre o tempo e sua influência em nossos desejos.

Assim como o vento varre as folhas verdes, levando-as ao solo, o tempo tem essa ação com relação aos nossos desejos.

Iniciamos a vida ávidos em alcançar o topo: queremos, quando crianças, ser super-heróis. Voar, ser forte o bastante para acabar com o mal e lutar até o limite.

Na adolescência, reduzimos esse poder: desejamos ser diferentes, destacar-nos, sermos capazes de mudar o mundo.

Na idade adulta, queremos reconhecimento profissional e pessoal, alcançar uma gerência, diretoria e, quem sabe, sermos um empresário de sucesso.

Mas, aí chegamos à terceira idade, quando começamos a ser mais humildes, quando queremos apenas que nossos feitos sejam lembrados e reconhecidos, que sejamos procurados para aconselhamento.

Como a pá-de-cal em nossas ambições, somos muitas vezes colocados de lado, chamados de “velhos”. Nossa experiência é chamada de ideias de museu, que já não servem, não se encaixam.

Chega, então, o momento em que tomamos a consciência de que somos mais um, entre tantos. Que não alcançamos as ambições que alimentamos nos primórdios da vida. Que não mudamos o mundo – ao menos no sentido que imaginávamos conseguir – que muitas ideias antigas ressurgem com nomes e rótulos diferentes, mas, repetem os mesmos padrões.

Chega o tempo em que queremos apenas acordar no dia seguinte: é quando entendemos que a vida é o maior milagre, estarmos vivos o maior desafio e recompensa e que não mais nos importa o reconhecimento, que não vem, mas, apenas ouvir os pássaros pela manhã.

 

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