CONTEMPORANEIDADE E O MUNDO INVERTIDO
Sucesso no streaming “Stranger Things”, o termo cunhado
“mundo invertido” traz uma reflexão necessária para a contemporaneidade.
Arrisco a acrescentar que também para outros períodos históricos.
Vivemos um mundo que se apresenta como “dual” – Deus e
Demônio/Bom e Ruim/Certo e Errado/Conservador e Progressista/Direita e
Esquerda.
Mas essa dualidade não passa de uma abstração baseada no
senso comum e que a ciência a todo momento desconstrói através de experimentos,
pesquisas e descobertas.
Dualidade cultural que só se justifica na manutenção de
poder e de sistemas voltados à concentração de renda.
A observação cuidadosa e isenta (se a isenção de fato for
possível), nos leva a conhecer um mundo ilusório em que vivemos e isso me leva
ao conceito de “mundo invertido”.
Esse mundo invertido se revela através de contradições,
sendo que estas, nos permitem conhecer melhor o que seria a realidade, a saída
da Caverna de Platão, ou, se preferirem, da Matrix.
Basta analisar o cenário atual das guerras em curso, cujos
objetivos declarados são o combate ao narcotráfico, ao crime organizado, às
ameaças de ataques nucleares e à expansão da democracia no mundo, diante de
ameaças de regimes comunistas.
O mundo invertido nos mostra que esses discursos nada têm a
ver com a realidade, mas, alimentam a ilusão e contribuem para o apoio e no
engajamento popular: afinal, alguém colocaria a própria vida em risco e
aceitaria matar civis inocentes sem uma crença implantada de confirmação de
suas ações?
Basta observar os interesses internacionais de países que
desejam ampliar seu poderio, influência e acesso a riquezas através de
processos colonizadores para perceber que existe um “mundo invertido”.
Da mesma forma, percebo isso em outros níveis, como nos
discursos políticos que pregam conceitos populistas quando, de fato, desejam o
poder a qualquer custo.
Ao mesmo tempo que a educação é apontada como o caminho para
a melhoria da condição de vida das pessoas, o investimento é feito em obras,
exploração privada, mas, nunca na qualidade dessa educação. Um sistema que não
promove a curiosidade científica, mas, que lida com seleção severa ao acesso às
universidades, à precarização da educação básica e o direcionamento do
conhecimento para as necessidades de mercado, o que pode parecer lógico, mas,
que atende aos interesses de empresários em pagar salários baixos e na
manutenção de mão de obra obediente.
Hoje se investe em treinamento para liderança, mas, o número
de cargos de liderança é infinitamente menor que aqueles para cargos de
subordinação. Se todos fossem “líderes”, não haveriam liderados, uma avaliação
simples e lógica.
Enquanto o mundo ilude, o mundo invertido revela. Essa
revelação se dá com a ciência, com a pesquisa e com o conhecimento isento.
Trabalhei em empresas públicas, privadas e em uma ONG: em
todas elas, pregam-se valores éticos, morais, foco no cliente, mas, no mundo
invertido, conhecemos a sua real face, com clientes cativos descontentes
desrespeitados, pagando sobrepreços para enriquecimento de poucos, ou de
resgate de mentes e dízimos.
Aos funcionários existe um discurso ufanista, a pregação de
que fazem parte de uma empresa exemplar, socialmente responsável, modelo,
laureada com reconhecimento nacional e internacional, O mundo invertido mostra
que os serviços são engessados, os investimentos voltados para o aumento dos
lucros pela geração de novos produtos ou serviços ou para a eliminação de
custos, que as soluções criativas e que trazem retorno para os clientes e à
sociedade são travadas em áreas de TI que priorizam faturamento e que engavetam
projetos dessa natureza.
Nenhuma empresa está livre dessa lógica. Projetos conduzidos
por igrejas também pregam resultados questionáveis e propagam resultados sem
respaldo em pesquisas. ONGs de fachada, algumas com bons propósitos, apresentam
resultados duvidosos: a consulta aos beneficiados muitas vezes nos traz a visão
do “mundo invertido”.
E assim, se observarmos todos os discursos que recebemos,
com a decência de nos informarmos a respeito com maior isenção, perceberemos
que a única dualidade possível ocorre entre os discursos e os fatos, o mundo
que nos apresentam e o mundo invertido.
O mundo onde se luta pela democracia ou por um Deus e um
mundo invertido em que crianças são mortas em escolas, nas ruas e em hospitais,
com bombas que são endereçadas por quem se diz “humano”.

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