O CÃO “ORELHA” E A REFLEXÃO SOBRE AQUILO QUE NOS UNE.

 



Vivemos num momento de turbulências.

O terror e as guerras dizimam inocentes em muitas partes do planeta: grande parte deles, crianças inocentes que morrem sem mesmo saber o porquê. Ou se tornam órfãs e migrantes, vagando por lugares onde não existe acolhimento, mas, xenofobia.

De alguma forma, foram construídos dois discursos, distintos e conflitantes.

O bem e o mal, Deus e o diabo. Homem e mulher. Rico e pobre. Preto e branco. Religiosos e infiéis.

Essa dicotomia é a base da discórdia e da violência. Legitima ações de crueldade, justifica bombas sobre escolas e hospitais.

Direita e esquerda.

Como se todo conhecimento humano se resumisse em uma equação de extremos que se enfrentam e se eliminam continuamente.

Nessa divisão, são definidos conceitos através de cartilhas de conduta.

Seus pensamentos e comportamentos lhe conferem um dos lados por parte de observadores: aqueles que se alinham contigo o incentivarão, enquanto os que se apoiam na narrativa oposta, te desejarão a morte.

Líderes se levantam e arregimentam multidões, definem o que querem que acreditemos da história e da ciência.

A cartilha já vem pronta e define os comportamentos que ultrapassam os discursos e influenciam até mesmo o que se consome, o que se veste.

As opções são optar por um dos lados, ou, ser odiado pelos dois por ser rotulado de omisso.

O livre pensar está fora de questão.

Mentiras são a base das narrativas, apoiadas pela tecnologia das redes sociais que agora contam com a Inteligência Artificial para criar imagens convincentes, apesar de irreais.

Quando se questiona a história e a ciência, coloca-se em risco a credibilidade e a confiança e o resultado é a barbárie.

Todos estão sintonizados no que nos separam, mas, pergunto aqui: o que nos une?

Qual o antídoto para que possamos observar o mundo com nossos olhos descobertos e sem narrativas?

No meu entendimento, esse conhecimento existe e é antigo, ancestral: a meditação.

Quero desmistificar o conceito da meditação, de forma como tem sido visto pela maior parte das pessoas.

Meditar, da forma como compreendo, é treinar a mente para viver o momento presente, limpando o máximo possível as crenças e os pensamentos automáticos, não reflexivos.

Temos um cérebro incrivelmente capaz de nos fazer pensar, refletir, observar e construir conhecimento.

Entretanto, talvez por preguiça, conforto, egoísmo, covardia ou necessidade de aceitação, deixamos de pensar e passamos muitas vezes a nos conduzir por narrativas prontas.

Limpar a mente e observar o que ocorre no momento presente é equivalente a sair da “matrix” ou se preferir, sair da “caverna de Platão”.

Todos temos momentos em que isso se torna possível, mesmo que de forma involuntária, como por exemplo, quando um acidente ocorre e uma pessoa precisa ser socorrida: deixamos de observar as “diferenças” e partimos para a essência que é a necessidade de salvar o outro.

Porventura em um incêndio escolhemos a quem salvar pelas suas crenças?

Essa é a hora da verdade, o momento que demonstramos o que somos de fato: o momento que nosso comportamento nos coloca na condição de ação com propósito maior.

Àqueles que são cristãos, podem se lembrar da parábola quando Jesus menciona o gesto empático de um samaritano (que pertence à classe desprezada pelos Judeus à época), por uma pessoa necessitada à beira da estrada. Enquanto os religiosos passam sem socorrê-lo, por conta de suas crenças e regras limitantes, é no samaritano que o homem ferido encontra socorro.

Então, no meu entendimento, o caminho para o que nos une existe e não é descoberta recente, mas, um conhecimento ancestral.

Precisamos colocá-lo em prática.

Apesar das diferenças dos opostos que nos dividem, na base de todos os movimentos existe sempre o desejo comum de alcançar um mundo melhor, mais justo e mais feliz para todos.

Mas, como podemos limpar nossas mentes das cartilhas de conduta que nos são impostas e bombardeadas nas redes sociais?

Penso que a internet é, como toda tecnologia, uma ferramenta e, como tal, pode ser utilizada da forma que desejarmos. Então, por que não utilizarmos essa ferramenta para aumentar nosso conhecimento histórico, científico, poético?

Podemos filtrar o que acessamos, nos livrando das correntes viciantes que nos tiram a capacidade de raciocinar, dos discursos prontos, das cartilhas de conduta.

O recente episódio do cachorro “Orelha” de Florianópolis pode ser um bom exemplo de que podemos ser melhores: apesar da tentativa de rotular os agressores em um dos “lados” das correntes políticas extremistas, o que se vê é a união causada pela indignação da população com a brutalidade contra um animal indefeso.

Nesse momento, não existem divisões: existe união por uma causa comum e concreta, o que demonstra empatia e mobilização para que se faça a justiça.

Este ano é de eleições presidenciais e os discursos separatistas se tornam mais inflamados, causando atrito entre opostos que, na sua essência talvez nem existam: são fabricados para benefício de políticos que são eleitos pelos votos de muitos que se deixam levar por mentiras e acusações infundadas.

Temo esse momento, esse ódio crescente que nos coloca em uma batalha onde os mortos são os inocentes e aqueles que as provocam se promovem.

Então, concluo que o caminho é a meditação, no sentido da observação atenta ao momento presente, do Detox das redes sociais, da busca por conhecimento genuíno, de valorização da ciência e da história. Agir com racionalidade e controle das emoções.

Estar pronto para salvar o homem ferido à beira da estrada sem julgamento, por empatia sincera, por sermos portadores de um cérebro incrível que muitos tentam inutilizar, nos tornando seguidores daqueles cujo único objetivo é o interesse próprio.

 

 

 

 

 

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